SHAH-KAZEMI, Reza. Paths to transcendence: according to Shankara, Ibn Arabi, and Meister Eckhart. Bloomington, Ind: World Wisdom, 2006.
É o homem interior que santifica as obras e as circunstâncias exteriores, tornando Deus igualmente presente na medida em que sua consciência está concernida, como contrapartida subjetiva da realidade objetiva da presença inalienável de Deus em todas as coisas.
“Não penses que a santidade se funda nos atos; deve-se fundar a santidade no ser, pois não são as obras que nos santificam, somos nós que devemos santificar as obras. Na medida em que são santos nosso ser e nossa natureza, nessa medida santificamos todas as nossas obras. Aqueles que não estão estabelecidos na grandeza do Ser, quaisquer que sejam as obras que realizem, nada delas sai.”
A noção de graus do Ser permite distinguir entre indivíduos pouco “estabelecidos na grandeza do Ser” e outros que “são” puro Ser — os primeiros como que separados de sua fonte pela opacidade de sua substância pessoal; o santo, ao contrário, tem substância transparente que permite à glória total do Ser resplandecer através dele.
Uma vez que a essência incriada do intelecto está atualizada, o elemento divino nas coisas exteriores é apreendido mediante o elemento divino no intelecto, num reflexo, em modo manifestado, da realização não-manifestada da união.
“Todas as coisas” só “pertencem” ao homem que, por sua vez, pertence a todas as coisas, não como elas são em si mesmas, mas como são em Deus, a quem esse homem pertence exclusivamente.
“Ele é absolutamente nosso bem, e todas as coisas são nosso bem nEle. É preciso que recebamos a Deus de forma igual em todas as coisas, não mais numa do que em outra, pois Ele está de forma igual em todas as coisas.”
Não é a presença objetiva e inalienável de Deus que produz a
bem-aventurança, mas o grau em que a consciência é sensível a essa presença ou proporcional a esse Ser.
“Deus me é mais próximo do que sou de mim mesmo. Ele é igualmente próximo de uma pedra ou de um pedaço de madeira, mas estes nada sabem disso. E é por isso que o homem é mais feliz do que uma pedra ou do que um pedaço de madeira, porque conhece a Deus e sabe quanto Deus lhe é próximo. E sou tanto mais feliz quanto melhor o sei. Não sou feliz porque Deus está em mim, mas porque sei quanto Deus me é próximo e porque sou um conhecedor de Deus.”