Os valentinianos, por sua vez, pontuavam 2 Coríntios 4,4 como Marción, atribuindo ao “deus deste século” a responsabilidade pelos desordens humanos, e para 2 Tessalonicenses 2,11-12, com o termo “Dios” podendo se aplicar ao Bom, ao demiurgo ou ao “Kosmokrátor”.
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Os valentinianos pontuavam 2 Coríntios 4,4 como Marción, fazendo do “deus deste século” o responsável pelos desórdes humanos.
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Para 2 Tessalonicenses 2,11-12, usavam a ambiguidade do termo “Dios”, que pode se aplicar ao Bom, ao demiurgo ou ao “Kosmokrator”, ou a fonte varia de inspiração de um mesmo verso.
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Irineu conclui que, se Deus agora entrega os incrédulos à sua infidelidade, não é surpresa que tenha feito o mesmo com o faraó, como diz o Verbo a Moisés em Êxodo 3,19: “Ego autem scio quoniam non dimittet vos Pharao rex Aegypti abire, nisi cum manu valida.”
A linguagem parabólica do Salvador estava em conformidade com a má disposição prévia dos judeus, mas não se dirigia apenas a eles, nem induzia cegueira por si mesma, pois também iluminava os discípulos.
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A linguagem parabólica não se dirigia apenas aos judeus incrédulos, mas também aos apóstolos, como a parábola dos maus vinhateiros (Mt 21,33-43) que mirava judeus e discípulos.
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Por se dirigir também aos discípulos, as parábolas não levavam a cegueira a todos os ouvintes; em boa parte deles “fazia luz”, iluminando-os sobre os mistérios do
Evangelho.
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Para os judeus incrédulos, Jesus falou em parábolas “ciente de sua incredulidade, para que vendo não vissem e ouvindo não ouvissem”, a fim de que se precipitassem no piélago da incredulidade, enquanto para os discípulos era um aliciente a penetrar em seu sentido misterioso.
O ABUSO GNÓSTICO DAS PARÁBOLAS
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Irineu denuncia o abuso flagrante dos valentinianos que, para legitimar sua tese dos dois deuses, analisam as parábolas devido à sua margem de ambiguidade, fabricando um deus a partir do que não está escrito.
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Os valentinianos buscam quaisquer indícios nas parábolas porque, segundo própria confissão, faltam testemunhos claros para seus dois deuses (o Criador e o
Pai Ignorado).
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Irineu afirma que é irracional (“Perquam igitur irrationale est”) abandonar o Deus verdadeiro para procurar um que não é, a partir de parábolas mal interpretadas.
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Irineu compara os gnósticos a quem desmancha uma bela imagem real para refazer a forma de um cão ou raposa, enganando os tolos com a mesma matéria preciosa.
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Para uma exegese correta das Escrituras e das parábolas, Irineu estabelece normas que incluem uma mente sã e amiga da verdade, limitar-se ao que Deus submeteu ao conhecimento humano, e entregar-se ao estudo das coisas imediatas e óbvias.
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É condição primeiríssima dispor-se ao estudo da palavra de Deus com uma mente sã, segura, circunspecta (eulabes) e amiga da verdade.
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A segunda condição é limitar-se ao que Deus submeteu ao humano conhecimento, sem traspassar as lindes da ciência creatural.
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A terceira é entregar-se longamente ao estudo até dominar e tornar fácil seu objeto, que são as coisas imediatas e os oráculos evidentes e inequívocos da Escritura.
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Os gnósticos quebrantam essas normas ao partirem de ambiguidades rebuscadas e assumirem a existência de uma parádisis secreta, na qual o Salvador teria revelado o verdadeiro sentido das parábolas a poucos indivíduos qualificados.
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Os gnósticos afirmam que o Salvador ensinou em segredo (“em absconso”) não a todos, mas a alguns discípulos capazes de entender, e que as parábolas significam o
Pai por meio de argumentos e enigmas.
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Eles se gloriam (“se gloriam eles”) de serem os “brancos” e os “entendidos” capazes de decifrar os oráculos selados de Daniel (Dan 12,9-10).
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Os gnósticos afirmam que o Salvador revelou a gnosis a poucos (como Matías, Pedro, Paulo, Mariamne e Santiago), que a transmitiram por sucessão secreta a Basilides, Valentín e outros.
OS JUDEUS E AS PARÁBOLAS
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Jesus falou aos judeus em parábolas para que, vendo, não vissem e, ouvindo, não ouvissem, mas isso não se deve à forma literária em si, sim à má vontade dos ouvintes fariseus, que culpavelmente rejeitavam o magistério do Verbo.
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Os judeus a quem Jesus se dirige em Mateus 13,10ss são os fariseus, culpavelmente cegos aos ensinamentos do
Evangelho (“qui non credunt sed nullificant eum”).
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As parábolas, diferentemente de outros gêneros, não impõem a verdade, mas a apresentam como acessível ou não segundo a disposição dos ouvintes; não encobrem totalmente a verdade, pois os crentes seriam incapazes de descobri-la.
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Dirigidas a fariseus incrédulos, as parábolas têm um efeito desastroso, dando-lhes nova ocasião para se fecharem culpavelmente à verdade, mas dirigidas a crentes, acabam sempre por iluminá-los (“his autem qui credunt et sequuntur eum, pleniorem et maiorem illuminationem mentis praestat”).
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Justino, em obra antimarcionita hoje perdida, escreveu que antes da vinda do Senhor,
Satanás não se atrevia a blasfemar de Deus porque sua condenação estava entre parábolas e alegorias, mas depois da vinda do Senhor, ele a aprendeu claramente.
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Justino afirmou: “Antes da (primeira) vinda do Senhor nunca se atreveu
Satanás a blasfemar de Deus; como quem ainda ignorava sua (própria) condenação, por se encontrar (esta) entre parábolas e alegorias.”
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Justino alude a Isaías 14,12ss (“Como caíste do céu, estrela rutilante…”) como uma parábola em forma trágica que representava o
diabo pela pessoa do rei da Assíria, e a Gênesis 3,14 e Isaías 27,1 sobre a condenação da serpente.
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A razão fundamental pela qual o
diabo não entendeu sua condenação nas parábolas do AT não foi a obscuridade, mas sua má disposição, pois não há pior surdo do que aquele que não quer ouvir.
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Entre o Antigo e o Novo Testamento, a diferença está entre o vaticínio e seu cumprimento, sendo Cristo o centro único, ensinado mediante tipos e parábolas no AT e conhecido em sua pessoa no NT.
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Irineu afirma: “Si quis igitur legit de Christo… inveniet in illis… ‘thesaurum absconditum in agro’ (Mt 13,44), hoc est in mundo, absconditum in Scripturis, quia significabatur per typos et parabolas.”
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O conhecimento divino antes da vinda do Verbo era muito real, mas poucos o tinham (patriarcas e profetas), e somente após o cumprimento em Cristo as profecias têm declaração exatíssima.
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A leitura judaica da Lei e dos Profetas é como uma fábula, porque eles não possuem a chave dos mistérios e rejeitam positivamente a vinda do
Filho de Deus em carne, enquanto a leitura cristã revela o tesouro escondido no campo.
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Não foi a forma de parábola que impediu os judeus de entender, pois Jesus ensinou a mesma coisa em parábola e sem ela, e mesmo assim não logrou melhor fruto, devido à má vontade dos ouvintes.
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Mais de uma vez, os fariseus e sumos sacerdotes, ouvindo as parábolas de Jesus, compreenderam que ele falava deles, como na parábola dos maus vinhateiros, mas não quiseram acolher em fé o que lhes era imposto por força.
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O Salvador ensinava às vezes em parábola e outras vezes sem ela, com evidência, como no caso da parábola da figueira (Lc 13,7) e suas palavras sobre Jerusalém (Mt 23,37-38), e ainda assim não conseguia melhor fruto.
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O mistério da eficácia nas parábolas não reside na forma do pensamento, mas no fato de que exige do homem uma resposta livre e humilde, que o indivíduo pode denegar.
ACOTAÇÃO VALENTINIANA
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Para os valentinianos, o Salvador ensinava aos apóstolos separadamente (kata monas) em três modos: em tipos e mistérios, em parábolas e enigmas, e clara e desnudamente, todos tendo por objeto os mistérios espirituais da gnose.
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O valentiniano destaca o triplo ensinamento do Salvador aos apóstolos: primeiro em tipos e mistérios (typikos kai mystikos), segundo em parábolas e enigmas (parabolikos kai enigmenos), terceiro clara e desnudamente (saros kai gymnos).
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Estas três séries de ensinos não diferiam propriamente em conteúdo, todas tendo por objeto os mistérios espirituais da gnose, mas sim em método: a via típica a partir das realidades sensíveis, a parabólica a partir da lei antiga, e a imediata por revelação direta.
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Para justificar tradições secretas, os gnósticos se acolhiam a versículos como Marcos 4,10 (“kai hote egeneto kata monas, eroton auton hoi peri auton syn tois dodeka tas parabolas”) e às revelações dos dezoito meses gloriosos do Salvador ressuscitado.
ATITUDE DE IRINEU
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Um abismo separa Irineu da ideologia valentiniana, pois para ele o conteúdo último das parábolas deve ser buscado nos mistérios do Verbo feito carne e na economia humana de Deus, não no pleroma dos eones.
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Para os valentinianos, o conteúdo último de tipos, enigmas e parábolas se esconde nas alturas do Espírito puro, no pleroma dos eones; para Irineu, tal conteúdo está nos mistérios do Verbo encarnado e na Igreja, o corpo humano e terreno da verdade.
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Para os valentinianos, a exegese das parábolas é vertical (de baixo para cima) em direção ao reino do Espírito; para Irineu, a exegese é horizontal, em direção a Cristo encarnado em Jesus e na Igreja dos homens.
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Tudo o que repugna ao humano e carnal de Cristo, seja entre judeus ou gnósticos, vai diretamente contra a própria noção de parábola escriturária evangélica e cristã.
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Contra os docetas, que atribuíam ao Salvador uma existência falaz e enganosa, Irineu afirma que a Verdade (o Senhor) não mentia, nem seus discípulos agiam com hipocrisia, adotando um método que aos bem dispostos induzia ao conhecimento e aos incrédulos à maior cegueira.
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Os docetas, como nos Atos de João (“verbo illusi cuncta, et non sum illusus in totum”), passavam da falácia nos fatos ao engano nas palavras, sugerindo que o Senhor induzia positivamente ao erro.
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Irineu afirma que a Verdade, sendo o Senhor, não mentia (“Veritas ergo Dominus noster existens, non mentiebatur”) e que nem ele nem seus discípulos agiam com hipocrisia, adaptando a doutrina conforme a capacidade do ouvinte.
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O Salvador adotou um método que, às mesmas expressões divinas, agia em bem sobre os bons e em mal sobre os maus, como a chuva que na terra boa dá fruto e na má dá espinhos, ou o sol que amolece a cera e endurece o barro.
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A exegese irineana das parábolas é sempre harmônica, conduz diretamente à sua teologia dogmática, e busca descobrir o tesouro doutrinal arraigado na tradição eclesiástica, nunca se limitando a uma interpretação meramente moral.
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O método parabólico, com sua dificuldade, solicita no crente uma fé operosa e no teólogo uma busca humilde e iluminada, de maior mérito que a simples aceitação de um magistério claro.
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Irineu jamais resvala para uma exegese moralizante ao estilo de São
Crisóstomo, buscando sempre o conteúdo dogmático digno do Salvador e arraigado na tradição eclesiástica.
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A exegese irineana das parábolas, embora fragmentária, é sempre harmônica e restituível, perfilando uma doutrina homogênea de coerência absoluta, e qualquer alusão a elas encobre um toque dogmático precioso e às vezes genial.