A parábola encontra-se apenas no Evangelho de Mateus e apresenta dificuldades textuais quanto à ordem dos versículos.
A versão provável do texto crítico é apresentada com a citação de Mt 21,28-32: “Um homem tinha dois filhos… os publicanos e as meretrizes vos precedem no reino de Deus”.
A primeira antiguidade cristã raramente citou a parábola, não sendo conhecida pelos Padres Apostólicos nem pelos primeiros apologetas.
Taciano reteve os elementos característicos, provavelmente invertendo a ordem das respostas: o primeiro filho diz “Vou” e não vai; o segundo diz “Não quero” e vai.
A exegese conhecida dos naasenos oferece uma interpretação esotérica e etimologizante.
O texto naaseno relaciona “publicanos” (telonai) com “tributos dos éons” (tele ton aionon), vendo neles os depositários das sementes divinas.
As “meretrizes” recebem um significado nobre, como figuras femininas que também depositam o sêmen divino disperso no mundo material.
Adversus Iudaeos
O anônimo autor de “Adversus Iudaeos” faz alusões à parábola, opondo Israel e as nações.
Cita-se: “Vinde de toda parte, nações patriais, entrai na herança eterna: pois Israel não quis”.
Outra passagem: “Vós (Israel) recusastes cultivar o meu campo e a minha vinha… outros (as nações) a cultivarão”.
A referência inequívoca: “Não temais, vós que pecastes, vinde primeiros à vida… nem o publicano tema… pois para todos está estabelecida a remissão dos pecados”.
O anônimo traduz “o reino de Deus” por “a vida”, e Israel seria o filho chamado primeiro, sendo precedido pelo não-Israel (o publicano).
Um fragmento de Hipólito nas Cadeias do Gênesis aplica Gênesis 49,22 a Cristo.
Gênesis 49,22 (LXX): “Filho meu novíssimo, volta-te para mim”.
“Novíssimo” (neotatos) equivale ao “segundo homem” de 1 Coríntios 15,47, vindo do céu, em oposição ao primeiro Adão terreno.
No Evangelho, aquele que fez a vontade do pai (Mt 21,31) é chamado por Jesus de “o último” (eschatos).
Hipólito lia o texto de Mateus com ordem inversa: o primeiro filho diz “Eu, Senhor” e não vai; o segundo diz “Não quero”, arrepende-se e vai.
Taciano, Efrém armênio e Hipólito seguem essa leitura, onde o que faz a vontade do pai é o segundo ou o último filho, não o primeiro.
Jerônimo atesta as variantes, notando que em alguns exemplares verdadeiros se lê “o último” (novissimus) e em outros “o primeiro” (primus).
Para Hipólito, o segundo/último filho simboliza o próprio Salvador (Cristo), e o primeiro simboliza Adão, o homem terreno.
O pai da parábola representa o Pai celestial, com dois filhos – os dois Adão.
A recusa inicial de Cristo (“Não quero”) seria explicada por sua atitude no Getsêmani (Mt 26,39.42), mas ele logo se entregou à vontade do Pai.
O comentário a “volta-te para mim” alude à ascensão de Cristo ao Pai.
Procópio de Gaza reproduz posteriormente essa exegese cristológica.
Procópio comenta Gênesis 49,22 aplicando-o a Cristo e cita explicitamente: “No Evangelho, ele (=Cristo) é chamado de último (eschaton), que fez a vontade do pai (cf. Mt 21,31)”.
Tanto Hipólito quanto Procópio representam uma tradição paradigmática cristológica sobre os dois filhos da parábola, pré-hipolitiana.
Ambrósio e Rufino ignoram essa ideia de Hipólito e seguem outra exegese.
Orígenes, em suas homilias sobre Josué, vê nas meretrizes e publicanos do Evangelho (Mt 21,32) a Igreja das nações.
Nos comentários sobre Mateus, Orígenes oferece uma exegese desenvolvida.
A parábola contém o regime do Israel incrédulo a Deus e do povo vindo das nações, crente.
Deus tem dois filhos: o primeiro (Israel) é chamado desde o princípio, mas recusa (“Não quero”); depois, na consumação (epi synteleia), arrepende-se e vai à vinha.
O segundo filho (o povo das nações) diz “Eu, Senhor”, mas não vai à vinha do Verbo e ao campo do Pai.
Quem disse “Não quero” e depois foi, cumpriu a vontade do pai; quem prometeu de palavra e não cumpriu, negou com as obras.
Orígenes aplica a parábola aos gentios (filho reacio na palavra, fiel nas obras) e aos judeus (fáceis na palavra, infiéis nas obras).
Contudo, nota que Israel tem etapas: alguns se salvarão quando entrar a plenitude dos gentios (Rm 11,25-27).
Jesus diz que publicanos e meretrizes “vos precedem” ao reino de Deus, o que não exclui Israel do ingresso.
A base da salvação de Israel é “a nobreza da alma” (te eugeneia tes psyches), não a carne.
São Hilário
Hilário oferece uma exegese extensa, lendo “o último” (novissimus) ou “o mais jovem” (iunior) em Mt 21,31.
O pai dirige-se primeiro ao filho mais velho (senior), que diz “Não quero” e depois vai – símbolo do povo gentio.
O pai dirige-se depois ao mais jovem (iunior), que diz “Sim” de palavra e não vai – símbolo de Israel.
Hilário discute a dificuldade da resposta dos fariseus (“o último” fez a vontade do pai).
Critica a justificativa de que o filho mais jovem obedeceu à vontade com falsa promessa, pois a simulação não obtém o mérito da verdade perfeita.
A solução de Hilário distingue tempos.
Dias do Batista e tempos apostólicos após a morte e ressurreição de Jesus.
O filho mais velho (fariseus/Israel), à ordem de Deus por João e Jesus, diz “Não queremos”; mas após a ressurreição, arrepende-se e crê pelos apóstolos.
O filho mais jovem (publicanos e pecadores/gentios) responde “Sim” a João, mas só pode cumprir a vontade do Pai após a paixão e ressurreição de Cristo, quando o Espírito é outorgado.
Portanto, o último (iunior) cumpriu a vontade, não por fingimento, mas porque não podia ir antes, sendo a demora da necessidade sem crime da vontade.
Soluções de outros eclesiásticos
Pseudo-Teófilo e outros veem nos dois filhos os dois povos: o primeiro (gentios) é chamado primeiro pela lei natural, nega-se, mas depois se converte; o segundo (judeus) promete e não cumpre.
Jerônimo segue linha semelhante: o primeiro filho é o povo gentio, chamado pelo conhecimento da lei natural; o segundo filho é o povo judeu, que respondeu a Moisés “Faremos tudo” e não foi à vinha.
Jerônimo conhece outra exegese: os filhos simbolizam israelitas pecadores (que acolhem João) e justos (fariseus que se perdem).
Resumo sobre a parábola dos dois filhos
Leitura textual: a maioria dos manuscritos gregos e a Vulgata seguem a ordem normal (primeiro diz “Não”, depois vai; segundo diz “Sim”, não vai). Taciano, Hipólito e Procópio seguem a ordem inversa.
Exegese: generalizou-se a interpretação dos dois povos (Israel e gentios), enquanto a exegese cristológica dos dois Adão (Hipólito, Procópio) permaneceu mais isolada.
II. São Irineu
Irineu alude à parábola ao comentar Mt 21,31 (“Publicanos e meretrizes vos precedem no reino dos céus”).
Contrasta a atitude de Raab, a meretriz (símbolo da gentilidade), e a dos fariseus (símbolo de Israel).
Raab acolhe os três exploradores (símbolo da Trindade) e o sinal da escarlata (sangue de Cristo), sendo salva.
Fariseus, presumindo-se justos, não acolhem a Cristo e dão conteúdo nulo à Páscoa.
Em outro fragmento (Adv. haer. IV 36,8), Irineu trata explicitamente da parábola.
A tese principal: os dois filhos são de um mesmo Pai, refutando marcionitas e gnósticos que distinguiam o Deus de Israel e o Pai de Cristo.
O primeiro filho contradisse o pai e depois se arrependeu, quando nada lhe aproveitou o arrependimento – símbolo do povo judeu (Jerusalém que não quis acolher o Senhor).
O segundo filho prometeu ir, mas não foi, porque “todo homem é mentiroso” (Sal 115,2) e “o querer está ao alcance, mas não encontra como realizar” (Rm 7,18) – símbolo do povo gentil (publicanos e meretrizes).
Exegese de Irineu sobre o segundo filho.
O segundo filho disse “Sim” ao pai com nobreza e sinceridade, mas foi incapaz de ir com as obras, provando a necessidade do auxílio divino.
Trabalhar na vinha equivale a “obrar justiça” para a salvação.
A promessa sincera, mas ineficaz, demonstra que ninguém pode ir à vinha sem a ajuda do Pai que se adianta.
Conclusão de Irineu.
Deixados às suas forças naturais, nem Israel nem a gentilidade são capazes de responder ao chamamento do Pai para a salvação.
Tanto para o arrependimento salutar quanto para a resposta eficaz, necessita-se da graça de Deus.
Israel, o filho mais velho, julgava-se justo e recusou o chamamento; fez penitência tardia e inútil.
A gentilidade, o filho mais novo, reconheceu-se pecadora e acolheu o chamamento com fé; foi incapaz de cumprir por si só, mas após a efusão do Espírito Santo, pôde ir à vinha e obrar a justiça de Deus.