A exegese eclesiástica, representada por
Tertuliano e um fragmento atribuído a
Orígenes, defende que o dono dos três pães é o Criador, único Deus verdadeiro, e que os santos do AT já eram seus amigos e intercediam por seus irmãos.
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Tertuliano argumenta que o dono dos pães é o Criador (“Agnosec igitur et Patrem, quem etiam appellas Creatorem”) e que as nações lhe pertencem, batendo à sua porta como amigos, não como estranhos.
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O fragmento das Cadeias in Lucam (provavelmente
Orígenes) afirma que Deus é amigo dos santos como Moisés e Abraão, e que os “três pães” representam a teologia da Trindade, desejada para alimentar aquele que veio de caminho.
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O fragmento sugere ainda que as palavras do amigo dentro de casa (“Não me incomodes”) podem ser relacionadas a Isaías 53,4 e Mateus 11,28, onde o Salvador carrega nossas enfermidades.
O LOGION “QUAERITE ET INVENIETIS” (Mt 7,7; Lc 11,9)
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O logion “Buscai e achareis” foi amplamente utilizado por gnósticos e marcionitas como lema de exegese, aplicando-o à busca do verdadeiro Deus e dos mistérios espirituais, o que gerou uma forte reação de
Tertuliano, Clemente,
Orígenes e Irineu.
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O
Evangelho segundo Tomás (logion 2) apresenta o clímax “buscar-hallar-espantar-se-reinar”, adaptado ao processo da gnose, onde o que busca não cessa até encontrar e, então, reinará sobre o universo.
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O autor menciona que Marción e os valentinianos usaram a notícia lucana, e
Hipólito, nos naassenos, relaciona a busca ao reino dos céus que está dentro do homem.
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Tertuliano, em De praescriptione, afirma que o logion foi dito no início da pregação de Jesus, quando ainda se duvidava se ele era o Cristo, e dirigia-se fundamentalmente aos judeus, que tinham a Escritura para buscar.
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Tertuliano desenvolve uma exegese rigorosa do “Quaerite et invenietis”, reduzindo-o a três articulações: a coisa (res), o tempo (tempus) e o modo (modus), sempre subordinados ao que foi instituído por Cristo e à regra da fé.
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Tertuliano argumenta que o objeto da busca é “o que Cristo instituiu” (unum et certum aliquid institutum esse a Christo), não as doutrinas arbitrárias dos hereges como Marción, Valentim e Apeles.
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O tempo para buscar dura até que se encontre o que Cristo instituiu e se acredite; uma vez encontrado e crido, buscar além disso é negar a fé.
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O modo de buscar deve ser dentro da regra da fé (“secundum regulam fidei”), entre os eclesiásticos, nunca entre os hereges, pois a curiosidade sem limites leva a um questionamento infrutífero.
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Clemente de Alexandria, embora utilize o logion para incentivar a busca da verdade, critica os métodos gnósticos que partem de premissas distintas e consideram os eclesiásticos incapazes de compreender seus mistérios.
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Clemente afirma que o bem se deixa achar por quem o busca (“to gar agathon to zetounti heurisketai”), e que o Logos não quer que o crente seja imóvel ou preguiçoso diante da verdade.
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O autor alejandrino distingue a verdadeira investigação (he zetesis he alethes) que termina na gnose, dom do
Pai, das falsas investigações que nunca terminam ou terminam no inchaço do conhecimento vão.
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Clemente reconhece que gnósticos e eclesiásticos se movem em planos diversos; os “espirituais” buscam a nível próprio, os “psíquicos” ao seu, e jamais se encontram, pois partem de axiomas distintos.
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Orígenes recomenda que a busca do sentido das Escrituras seja feita com humildade, oração e confiança no auxílio da Sabedoria divina, e não com base no próprio engenho ou na curiosidade fria.
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Em De principiis,
Orígenes afirma que, diante da variedade da criação, é preciso suplicar ao Verbo e à Sabedoria para que iluminem o que é obscuro, se formos encontrados dignos de pedir, buscar e pulsar.
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O autor alejandrino, em sua Carta a Gregório Taumaturgo, adverte contra aqueles que tomam o proveitoso do Egito (filosofia pagã) e geram pensamentos heréticos, construindo bezerros de ouro em Betel.
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Orígenes exorta seu discípulo a aplicar-se à leitura das Escrituras com fé, buscando retamente o sentido escondido, e a não se contentar em pulsar e inquirir, pois a oração é necessaríssima para entender o divino.
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Irineu ataca diretamente o abuso gnóstico do logion, mostrando que os valentinianos o utilizavam para justificar sua busca de um Deus superior ao Criador, e para defender a preeminência dos “espirituais” sobre o demiurgo.
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O autor conclui que, mais do que a liberdade de investigação, o que está em jogo na polêmica sobre o “Quaerite et invenietis” são as premissas blasfemas dos herejes, que, vazios de caridade e cheios de si, buscam um deus à medida de seus desejos.
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Irineu afirma que a verdadeira ciência teológica deve orientar-se para a investigação do mistério e da disposição do Deus que é, nunca para criar problemas sobre sua existência ou para buscar um deus superior a Ele.
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A exegese de Irineu caracteriza-se por não se permitir outra liberdade senão a de associar passagens escriturárias entre si, iluminando-as mutuamente, atento à tradição eclesial.
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O autor observa que, enquanto os gnósticos se encumbram facilmente aos mitos com a liberdade que lhes autoriza sua “parádosis”, Irineu busca e acha sem aparato, deixando cair ideias e termos com simplicidade, como se a Igreja lhos tivesse apresentado em bandeja de ouro.