MILAGRES

Antonio OrbeCristologia Gnóstica

Os Milagres de Jesus


Os milagres de Jesus ocupam muito pouco espaço. Isso por si só não prova demasiado. Mas harmoniza-se com a tendência fortemente doutrinal de seus escritos. Enquanto os evangelhos da infância transbordam de milagres ingênuos, os evangelhos gnósticos se estendem em logia e praticamente ignoram o taumatúrgico.

A priori, assim tinha de ser. Para os corifeus da gnose cristã, o milagre era de signo hebraico, periclitado; linguagem apta para menores ou gente dos sentidos. O «sinal» da mensagem de Jesus é a revelação do Pai, o doutrinal, o conhecimento de uma nova economia, a salvação pela gnose do verdadeiro Deus. Unicamente há lugar no Evangelho para os milagres como símbolos de doutrina, não como sinais de poder.

Daí, nos próprios milagres, o predomínio do doutrinal. Todos encerram um sentido recôndito, acessível apenas à mente iluminada.

Os poucos mencionados entre os hereges o confirmam.

Daí também que Jesus os fizesse somente nos doze meses de vida pública; não antes do batismo — nos trinta anos, símbolo dos séculos de vida transcendente —, nem depois da ressurreição, nos meses reservados a fundar as grandes tradições secretas. Aos iniciados convém a linguagem direta, espiritual, acessível ao homem interior; o idioma da rigorosa gnose.

Apesar de que, durante os meses de vida pública, Jesus fez muitos milagres, os hereges jamais celebraram sua grandeza e número. Também Moisés os havia feito em regime de ignorância por obra do demiurgo.

O sinal de Caná visa, em símbolo, ao tempo final da consumação. Evade-se do tempo. Já desde o primeiro milagre, o Salvador pensava na verdadeira salvação, a saber, conversão da igreja espiritual terrena em igreja angélica, mais que na conversão da água em vinho. Basílides fixou-se na «hora de Jesus». Os valentinianos, na tônica nupcial inerente à salvação; e, sem sair dela, na presença do demiurgo, paraninfo das Bodas eternas entre anjos e homens espirituais e, juntamente, arquitriclino do banquete nupcial. Os naassenos teorizam finamente sobre o vinho de Caná, cálice de Anacreonte. Em sua dimensão gnóstica, esconde a epithymia do indivíduo espiritual, isto é, da Igreja, em sua união com Cristo.

Prestam-se particularmente ao estudo do simbolismo as curas em geral. A circunstância de que não fossem psíquicas, mas corpóreas, e afetassem o barro do homem, dava ensejo a Santo Ireneu para orientá-las para a salvação da carne, meta da economia universal. Aos gnósticos, ao contrário, solicita-os a buscar por outra parte o significado. As dores e enfermidades do corpo simbolizam espontaneamente as paixões e delitos da alma. Ao curá-las, o Salvador se apresentava como médico de almas e de espíritos; atento unicamente a salvar o homem interior.

O fenômeno ocorre no milagre do cego de nascença, símbolo da desproporção física do homem racional para intuir Deus. Segundo os valentinianos, o cego simboliza o próprio Logos, em oposição ao Noûs. Segundo os naassenos, o homem é incapaz de ver Deus enquanto não for, por caminhos esotéricos (dihemon) — não eclesiásticos —, ou por batismo de água celeste, ao verdadeiro Siloé. Nem nossos pais, a partir de Adão, nem nossos mestres ordinários psíquicos, eclesiásticos conhecem o Salvador; nem podem interessá-lo na mediação necessária para seu verdadeiro milagre de «iluminação» ou gnose.

A cura do filho do régulo, concretamente, indica a eficácia salvífica de Jesus sobre a psyche, isto é, sobre a igreja animal humana dispersa no mundo. Tem um simbolismo paralelo ao milagre da hemorroíssa, em que resplandece a eficácia salvífica sobre o pneuma, isto é, sobre a igreja espiritual humana do mundo.

Segundo os valentinianos, tanto vale — no simbólico — o milagre da hemorroíssa como a conversão da samaritana. Uma e outra mulher significavam o mesmo: a igreja espiritual terrena. Mas, enquanto o milagre sensibiliza — a olhos psíquicos — a salvação iniciada da Igreja, a conversão representa — a olhos pneumáticos — a salvação consumada da mesma. O milagre fala em parábola; a conversão, desnudamente.

Os hereges sentiam-se livres para enaltecer ainda mais o simbolismo de alguns milagres. Tal ocorre com a cura do cego de nascença, que dá ensejo a um contraste fortíssimo entre a exegese de Ireneu e a dos valentinianos. O cego de nascimento sensibiliza a ignorância do Deus ignoto, extensiva a todos, exceto ao unigênito Noûs. O Logos, enquanto tal, é também cego; não olha para Deus, mas para o universo racional. Só mediante a gnose, característica do intelecto pessoal de Deus, é possível chegar à luz, ou salvação verdadeira.

Em meio a muitas ousadias, os gnósticos interpretam os milagres de Jesus em uma linha muito mais próxima à de Clemente e Orígenes que à de Ireneu. O método em si se salva. Não tanto sua aplicação.

Inútil acrescentar outro aspecto prático dos milagres de Jesus. Como sinais de poder, impressionavam os judeus. Na economia do Evangelho, contavam apenas ad tempus. Terminados os doze meses de vida pública, Jesus declinou a linguagem dos milagres e apareceu destituído, aos olhos de seus adversários, de semelhante poder. Se antes estes haviam reagido mal diante das maravilhas do Nazareno, recrudesceram sua perseguição ao julgá-lo desprovido de poder taumatúrgico. Assim, espontaneamente, sobreveio o drama da paixão.