A origem carnal de Jesus a partir de Maria e a unção no Jordão sob o espírito virginal sublimam o elemento hílico de sua carne em favor da eficácia salvífica.
A fecundidade virginal de Maria anuncia a fecundidade também virginal do espírito masculino na iluminação do Jordão.
A maternidade física importa não pela substância corruptível, mas porque a limpeza livre de concupiscência dispõe a carne de Jesus para a vestição da virgindade essencial do espírito.
A diferença entre as fórmulas per Mariam e ex Maria perde relevo entre os sectários, assim como a substância da carne em si diante do caráter virginal ou espiritual dela.
Os gnósticos admitiram os quatro evangelhos em sua integridade e não encontravam conflito na infância de Jesus, embora tenham descuidado os anos anteriores ao batismo.
Os mistérios diretamente salvíficos a partir do Jordão atraíam a atenção, fazendo com que os anos em Belém, Egito e Nazaré fossem praticamente omitidos.
Nascimento
Belém não figura entre as notícias gnósticas diretas ou indiretas, situando—se a aparição terrena de Cristo de modo genérico nos tempos de Herodes.
Os peratas e os setianos rememoram os tempos de Herodes, sendo que os setianos apontam a aparição em forma de homem e feito a imagem de José.
O gnóstico Justino prolonga o governo de Herodes até os doze anos de Jesus, momento em que o anjo Baruc o encontra em Nazaré.
Jesus é descrito como filho de José e de Maria, um menino de doze anos que apascentava ovelhas.
Na escola de Basílides, alguns determinavam o nascimento do Salvador no dia 24 ou 25 do mês de Farmuzi, correspondente a meados de abril.
Epifânio, por outro lado, menciona que os basilidianos celebravam o batismo no dia 11 de Tibi, equivalente a cinco de janeiro.
Os gnósticos ignoram as tradições sobre a caverna como lugar do nascimento e sobre a parteira que comprova a virgindade de Maria.
Atos de João e o Livro de Tomás relacionam o antro ou caverna com a matéria e o corpo, origens da ignorância.
Cláusulas de coloração gnóstica na Ascensão de Isaías e nos Atos de Pedro com Simão indicam o nascimento a partir do Espírito Santo sem que a mãe conheça varão, recorrendo à fórmula de que deu à luz e não deu à luz.
Os valentinianos sintetizam a obra pacificadora do Salvador a partir da mensagem angélica aos pastores, afirmando que o Senhor desceu para trazer a paz aos seres celestiais e não aos terrenos.
O texto valentiniano baseia—se em uma leitura de Paulo, provavelmente Efésios, indicando que a paz é destinada aos homens espirituais e psíquicos vindos de cima, e não aos homens terrenos.
Os anjos que assistiram ao nascimento em Belém pertenciam à categoria dos espirituais, satélites do Salvador, e não aos arcontes planetários ignorantes do descenso do Filho.
Gabriel atuou no lugar do Logos do Pleroma segundo o valentiniano Marcos, ou foi a própria figura adotada pelo Logos para introduzir—se em Maria de acordo com a Pistis Sophia.
Os anjos espirituais, procedentes da Ogdoada, nasceram junto com o Salvador, servindo como seus cortesãos e atendendo exclusivamente ao plano salvífico, diferentemente dos psicopompos herméticos voltados à demiurgia.
A distinção entre anjos animais pertencentes ao demiurgo e anjos espirituais pertencentes ao Filho soluciona a objeção de Irineu quanto ao louvor dos pastores.
Os pastores de Israel, ao receberem o anúncio da parusia do Filho unido ao Cristo animal, glorificaram o criador anunciado pela Lei e pelos profetas e, implicitamente, o Deus supremo a quem o universo obedecia.
O Salvador pacifica os homens celestes nascidos de cima para reintegrá—los à pátria de origem por meio da gnose e da fé, enquanto os homens terrenos, filhos de Caim e do diabo, são destinados à corrupção e à morte.
Fórmulas sacramentais valentinianas registradas por Irineu confirmam essa destinação ao desejarem paz àqueles sobre quem descansa o Nome ignoto.
Circuncisão
Os maniqueístas e Marcion pronunciaram—se decididamente contra a circuncisão, enquanto Cerinto e os ebionitas urgiam a validade da Lei mosaica.
Os maniqueus consideravam os sexos e o corpo humano como obras do princípio mau, recusando que o Filho de Deus assumisse a marca do demônio.
Um fragmento atribuído aos estoicos por Orígenes reflete a ideologia marcionita, questionando a bondade de um Deus legislador que ordena ferir a infância inocente em partes obscenas para corrigir um erro de sua própria criação.
As seitas gnósticas sabiam justificar o fato da circuncisão de Jesus, muito embora condenassem o regime da Lei como decadente a partir do Evangelho.
O Evangelho segundo Tomás e o Pensamento da Magna Dynamis sugerem uma mentalidade contrária à circuncisão carnal, propondo que o conhecimento de Deus se estende tanto ao menino de sete dias quanto ao ancião.
Ptolomeu, na Carta a Flora, explica a circuncisão da carne como um símbolo da circuncisão espiritual do coração ou da alma, que se perpetua no Evangelho após o desaparecimento da prática material.
O Evangelho de Tomás registra o questionamento dos discípulos sobre a utilidade da circuncisão, ao qual Jesus responde que a verdadeira utilidade reside na circuncisão em espírito.
Os gnósticos ensinaram o fato histórico da circuncisão em respeito à letra das Escrituras, combatendo a ideia de um Cristo puramente aparente.
O tratado Melquisedeque afirma que o Salvador nasceu, comeu, bebeu, foi circuncidado, veio em carne, submeteu—se ao pathos e ressuscitou, contra os que afirmavam o inverso.
Orígenes atesta que os valentinianos enfrentavam dificuldades para explicar a circuncisão de um corpo de natureza espiritual por um ferro terreno.
A escola oriental defendia o corpo espiritual de Jesus, ao passo que a escola itálica optava pelo corpo animal.
A Caverna dos Tesouros resolvia a questão comparando a circuncisão a um ferro que passa pela chama do fogo sem dividi—la, mantendo o corpo do Mesias intacto.
Alguns valentinianos publicaram livros sobre o prepúcio de Jesus para demonstrar que essa porção carnal havia se transformado em substância espiritual.
Sem sofrer mudança substancial, a akrobystia perpetuou—se como elemento espiritual ao abrigo da corrupção, pensamento que encontra paralelo em teses de Hilário de Poitiers sobre a transformação da carne em glória espiritual.
A circuncisão ganha um sentido místico entre os naassenos sob o mito de Átis, representando a separação original entre o Adão e a Eva celestes.
O Anthropos andrógino das alturas foi apocopado devido a um pecado mítico, e sua parte feminina — a futura igreja terrena — caiu no mundo para dar início à economia da salvação.
Os valentinianos viam na circuncisão ao oitavo dia a manifestação da Ogdoada superior, aplicando o conceito à separação entre o reino do Espírito e o império do demiurgo animal.
Sophia Achamot, situada fora dos muros de Deus, deu à luz o Cristo superior, o qual se recolheu imediatamente ao Pai, cortando e abandonando fora a sua sombra ou apêndice, que constituía a essência animal e a raiz do mundo infradivino.
Os mitos da apotomia do Cristo Adão para originar a Igreja e do apócope da sombra demiúrgica justificavam o mistério da circuncisão de Jesus aos oito dias como um paradigma anterior à história.
O mito de Adão luminoso no tratado Sobre a Origem do Mundo diverge ao propor que o Salvador não corta a deficiência, mas constrói o universo a partir dela.
Exegeses neoplatônicas e órficas por Porfírio e Proclo sobre a castração de Saturno e do Céu guardam parentesco com a visão naassena da divindade obrigada à geração e à disseminação de formas através do deleite.
A peritome de Lucas representa tanto o sinal visível de pertença ao povo de Abraão quanto o símbolo da separação entre o Cristo superior e a Igreja terrena.
Celso denunciava eflúvios de uma igreja terrena e de circuncisão entre os ofitas, o que Orígenes interpreta como a igreja terrena sendo eflúvio da Jerusalém celeste e eon superior, funcionando a circuncisão como purificação no Horos.
Filão teorizou sobre o Logos divisor e o cuchillo do sacrifício, imagem que se alinha à concepção do Verbo que opera a divisão entre o espírito e a alma, justificando a origem do demiurgo.
Apresentação de Jesus
A apresentação de Jesus no templo aos quarenta dias encontra um paralelo mistérico nas linhas do tratado Sobre a Origem do Mundo a respeito do corpo de Adão.
Os sete arcontes formaram Adã sem espírito, depositando—o em um vaso com a forma de um aborto.
O Grande Arconte abandonou o plasma sem alma por quarenta dias, período em que Sophia Zoe enviou seu alento ao interior de Adã antes de sua colocação no paraíso.
Os quarenta dias de Adã significam a animação do corpo humano e a consagração do homem a Deus, estabelecendo que o templo foi para Cristo o que o paraíso foi para o primeiro homem.
O Salvador prefigura aos quarenta dias de nascido a sua ascensão definitiva ao Pai, ocorrida quarenta dias após ressurgir dentre os mortos.
O Pseudo—Anástacio Sinaíta registra que os hebreus, baseados no não canônico Testamento dos Protoplastos, apontavam a entrada de Adã no paraíso no quadragésimo dia, harmonizando o fato com a ascensão de Cristo.
O simbolismo dos velhos Simeão e Ana assume grande importância na exegese valentiniana, onde Simeão representa o demiurgo e Ana personifica Sophia Achamot.
Simeão, ao tomar Cristo nos braços, representa o deus animal que compreende sua futura mudança para a Ogdoada e dá graças ao Bythos pelas promessas cumpridas.
Ana, como profetisa viúva, figura a Sabedoria que descobriu o Salvador em seu descenso e permanece na mediedade aguardando a consumação final para restituir—se ao matrimônio eónico.
O demiurgo, sujeito à vaidade do mundo por obra do Salvador, encontra sustentação na esperança da libertação definitiva quando as sementes de Deus estiverem maduras.
A bênção do sábado e o gozo do descanso após os seis dias de trabalho atestam a submissão não voluntária do criador, cujo labor cessa com a colheita final dos filhos da Igreja pelos anjos de Jesus.
Simeão também fala em pessoa da Lei de Moisés, indicando uma continuidade pacífica entre a antiga Lei e o Evangelho, ao contrário da ruptura total pregada por Marcion.
As palavras do Nunc dimittis expressam que a Lei cessou sem violência para ceder o posto ao Evangelho do Deus Pai, exegese que reaparece na obra de Efrém da Síria.
Desterro e volta do Egito
O Himno de la perla guarda importância ao narrar o protagonista enviado do Oriente para o Egito, de onde se liberta após perder—se, guardando analogia com a trajetória de Jesus.
Não se constata influência direta das narrativas de Mateus sobre o hino, sendo provável que os autores gnósticos tenham especulado de forma livre sobre a noção de Egito como o mundo sensível ou o corpo material.
A economia salvífica compendia—se no duplo movimento de descida do homem do céu para o Egito e de retorno do Egito ao lugar de origem por obra de Jesus.
Os naassenos interpretam o salmo sobre os deuses e filhos do Altíssimo como o imperativo de fugir do Egito e cruzar o mar Vermelho, significando a saída da mistura inferior em direção à Jerusalém de cima, a Mãe dos viventes.
O grande Jordão representa a torrente que corria para baixo estorvando a saída, a qual Jesus fez correr em direção inversa, significando a regeneração superior imortal contra a gênese inferior mortal.
Os peratas aplicam a narrativa do Êxodo aos homens espirituais que nascem do Oriente para o Egito, formam—se no mundo e, uma vez iluminados, retornam da terra ao céu.
Moisés, embora divino, caiu como simente no Egito e viveu em cativeiro até a vinda de Jesus, o verdadeiro Josué, que fez reverter o curso das águas do Jordão para guiar o retorno à Jerusalém celeste.
O Menino Jesus sintetiza essa trajetória ao descer ao Egito para fazer—se homem e retornar à pátria divina como paradigma do homem que se torna deus.
Jesus em Nazaré
Os gnósticos utilizam o epíteto o Nazareno e estabelecem a equação mística entre Nazara e a verdade, conforme o Evangelho de Felipe.
Jesus o Nazareno simboliza o Salvador vindo do Pleroma, a região da verdade, utilizando a cidade como símbolo de uma região incógnita e desconhecida, não revelada na Lei ou nos Profetas.
Os trinta anos de vida oculta em Nazaré simbolizavam os trinta éons do Pleroma, representando o mistério da cidade ignota.
A pessoa do Filho se revela em formas variadas de infante, jovem ou ancião, destacando—se a clássica aparição do Logos a Valentim sob a figura de um recém—nascido.
O Logos infantil justificava uma revelação humanamente acessível para homens espiritualmente infantes, não se manifestando no esplendor da majestade divina.
Irineu confirma esse aspecto ao mencionar que o Verbo de Deus se fez infante com o homem, adaptando—se à pequenez humana.
O mestre marcosiano Marcos relata a aparição da Tétrada suma ou Aletheia em figura de mulher, pela impossibilidade de o mundo tolerar a sua glória masculina.
Marcos descreve uma doxologia proferida pelas sete potências do Pleroma cujo eco na terra gerou os seres humanos, de modo que o choro e o som emitido pelos recém—nascidos glorificam o Logos em cumprimento ao salmo de David sobre o louvor dos infantes.
As epifanias do Logos em idades imaturas baseiam—se na constituição polimorfa do Filho, oposta à simplicidade do Pai, permitindo—lhe revelar—se segundo a capacidade do vidente.
Essa paradosis da transfiguração e da revelação conforme a dignidade de cada um era comum a Orígenes e aos gnósticos alexandrinos, distanciando—se da linha de Irineu.
Os naassenos invocavam o Evangelho segundo os Egipcios para ilustrar as complexas mutações da alma, que não permanece no mesmo modo ou forma.
Os gnósticos aceitavam a realidade evangélica de que Jesus se ateve à economia humana desde a concepção no seio de Maria, mas jamais erigiram em norma que o Salvador devesse passar por todas as idades para santificá—las, contra a tese de Irineu.
Os naassenos confirmavam suas teorias sobre a natureza oculta e manifesta com um logion do Evangelho de Tomás, que aponta a busca do mestre entre os párvulos a partir dos sete anos e sua manifestação aos quatorze.
Hipólito oferece uma exegese fisiológica baseada em Hipócrates para afirmar que a semente primigênia do universo se manifesta na puberdade aos quatorze anos.
Se associada às ideias primordiais dos Oráculos caldaicos, a Ennoia ou semente de Deus se manifestaria apenas na idade crítica da puberdade.
Macróbio e Solão atestam a lei psicofísica dos setênios, apontando que aos quatorze anos move—se a força da geração nos homens e a purgação nas mulheres.
O logion evangélico denota a revelação do Logos aos espirituais, havendo paralelos sobre o décimo quarto eon de luz nos Livros de Jeú e nos Kephalaia maniqueus.
Uma exegese bíblica ligada aos naassenos via nos septenários uma alusão ao serviço de Jacó para possuir Lia aos sete anos e Raquel aos quatorze.
Jacó representa o homem espiritual que encontra o Logos na menor, Raquel, que simboliza a Igreja de Cristo, após a insuficiência de Lia, tipo da Sinagoga.
A explicação mais provável para o logion de Jesus reside na ausência de concupiscência carnal na idade crítica dos quatorze anos, diferenciando—o de todos os nascidos de mulher.
Até os doze ou quatorze anos, as crianças são livres do movimento carnal; a partir da puberdade, os profetas e heróis foram corrompidos pelo fogo do maligno e pelo engano de Afrodite.
Jesus permaneceu oculto até a idade crítica e manifestou—se como Verbo livre de concupiscência, vindo a destruir as obras da fêmea.
O gnóstico Justino corrobora essa visão no diálogo em que o anjo Baruc instrui Jesus aos doze anos, alertando—o sobre a corrupção dos profetas anteriores.
Jesus, o pastor de ovelhas em Nazaré, permanece fiel a Baruc e vence as seduções de Naás, o qual, irado por não conseguir corrompê—lo, promove a sua crucificação.
No Pensamento da Magna Dynamis, assinala—se o oposto com o anticristo, que ao atingir a melhor idade recebe o espírito êmulo para operar milagres a serviço dos arcontes.
A Pistis Sophia apresenta um relato da Virgem Maria sobre a visita de um Espírito idêntico a Jesus quando este era pequeno e estava com José na vinha.
Maria, pensando ser Jesus, interrogou o Espírito que pedia pelo irmão, prendendo—o ao pé da cama por temê—lo como fantasma.
Ao avisar José e Jesus na vinha, o Menino alegrou—se e retornou para liberar o Espírito; ambos se abraçaram, beijaram e fundiram—se em uma só coisa.
O relato dá forma sensível ao salmo sobre o encontro da graça e da verdade e o beijo da justiça e da paz.
A graça e a justiça representam o Espírito vindo do alto pelo primeiro mistério para remissão dos homens; a verdade e a paz representam a virtude saída de Barbelo que se tornou o corpo material de Jesus nascido de Maria.
O encontro e o beijo simbolizam a união das dimensões divina e terrena no Salvador, mostrando o Espírito como a dimensão celeste e o filho de Maria como o instrumento material da salvação.
A união do Espírito atado à cama com o Jesus da vinha distingue o que a carne do Salvador precisava receber do céu para iniciar o ministério, despida de valor histórico pelo próprio autor da Pistis Sophia.
O artifício assemelha—se a exegeses eclesiásticas que identificavam o arcando Gabriel como a forma visível do próprio Logos encarnado.
A Pistis Sophia ensina que Gabriel era o Salvador, que falou com Maria sob forma angélica e depois encarnou como virtude derivada de Barbelo e de Sabaot o Bueno.
O desenvolvimento de Jesus até o batismo seguiu as leis normais do crescimento humano em tamanho e alimentação, revelando—se em cada etapa conforme exigido.
Justino afirma que Cristo nutriu—se de alimentos comuns e permaneceu oculto por trinta anos até a chegada de João Batista.
Para Marcion e Apeles, Jesus rejeitou a natividade humana, a educação e a indignidade da carne, apresentando—se adulto e descido do céu de forma súbita.
Marcion eliminava de Gálatas 4,4 a menção de que o Cristo foi feito de mulher e sob a Lei, defendendo um espírito e virtude manifestado de golpe.
Um anônimo valentiniano da escola itálica utiliza os textos de Lucas para distinguir a pessoa do Salvador das substâncias por Ele assumidas.
As afirmações sobre ser a vida, a verdade e um com o Padre referem—se à pessoa do Filho, detentor da gnose imutável.
O crescimento do menino e o progresso em sabedoria referem—se às substâncias assumidas, pois o elemento espiritual requer sabedoria para crescer, enquanto o elemento animal cresce em magnitude física.
O Filho assumiu as três ousias do universo — espiritual, psíquica e hílica — de modo que cada uma cresceu segundo leis próprias em Cristo.
Os docetas de Hipólito dividem o universo em três eons ou logos de Deus, e afirmam que o Salvador cresceu pouco a pouco em magnitude a partir do princípio da gênese até atingir o número perfeito dez.
A igualdade em perfeição dos três eons resultou em trinta eons no Pleroma, número que corresponde aos trinta anos de Jesus como homem perfeito.
Ao longo da vida oculta, as três substâncias primiciais de Jesus cresceram em paralelo até atingirem a maturidade do número dez antes do batismo.
O elemento hílico atuará no eon material, o psíquico no mundo animal e o pneumático no espiritual, ordenando—se o esquema do autogenes triádico comum a naassenos, peratas e basilidianos.
Os valentinianos itálicos negavam a ousia hílica em Jesus e explicavam o crescimento do Nazareno a partir da semente de Sofia ou homem espiritual.
O Evangelho da Verdade menciona que o espiritual é formado na sua pequenez por meio da gnose, e não pouco a pouco, marcando diferença em relação à semente animal.
O valentiniano acomoda Lucas ao aplicar o crescimento em magnitude ao elemento psíquico corporal e o progresso em sabedoria ao pneuma.
O incremento quantitativo aplica—se ao corpo sensível de Jesus, dotado pelo demiurgo de propriedades materiais fictícias que cresciam pelas etapas normais da gestação, infância e juventude.
Tertuliano defendia que a carne e a alma crescem simultaneamente por regras distintas: a carne em módulo e hábito, a alma em engenho e sentido, sem que a substância da alma mude quantitativamente.
O alma racional recebe aumentos inteligíveis por meio da erudição e dos exercícios que despertam a capacidade do intelecto, conforme Orígenes.
A mente não pode receber essa disciplina na natividade devido à imprecisão dos membros corporais que funcionam como seus órgãos de exercício.
Nemésio e Orígenes asseveram que o alma se nutre de ensinamentos incorpóreos e os anjos se alimentam da sabedoria de Deus.
Os valentinianos estendiam o progresso do homem espiritual ao saber prático, citando Matias sobre o dever de dar incremento ao alma mediante a fé e a gnose.
O elemento espiritual de Jesus necessitava da assistência contínua de sua mãe Sophia para dispor—se à gnose, não por via racional ou por gnose perfeita.
O influxo pneumático de Sophia manifestou—se nas respostas de Jesus aos doze anos no templo e na pergunta sobre a letra alfa ao mestre de escola, imitando as inspirações do Antigo Testamento.
Os ofitas de Irineu esclarecem que Sophia adaptou previamente a Jesus a fim de que o Cristo superior encontrasse nele um vaso limpo ao descer no Jordão.
O corpo de Jesus ex Maria trazia a imperfeição física própria da matéria mundial; a intervenção de Sophia purificou o elemento espiritual de limites físicos para torná—lo receptáculo digno do Espírito de Deus.
A adaptação também habilitava a alma de Jesus para que a Primeira Fêmea fosse anunciada por Cristo por meio das primícias de seu filho Jaldabaot.
O Evangelho de Felipe vincula o incremento espiritual ao espírito da caridade, dentro dos quatro elementos do cultivo divino: fé, esperança, caridade e gnose.
A fé é a terra, a esperança é a água, a caridade é o vento pelo qual se cresce e a gnose é a luz da madurez final.
Os indivíduos espirituais dependem da mãe Sophia antes de receberem a iluminação de Deus, purificando—se das contaminações terrestres através de jejuns e penitências que preparam o batismo.
Por meio da gnose cessa toda educação e progresso, unificando os pneumáticos sob a forma do Filho.
Teódoto afirma que o próprio Jesus teve necessidade de redenção para não ser retido pela Sophia do Hysterema em que fora colocado, abrindo caminho através dela.
A exegese aplica—se ao impulso do Cristo superior ao abandonar sua mãe Sophia para adentrar—se no Pleroma.
Sophia permanece vinculada ao Hysterema como Sabedoria do universo para fundar a Igreja terrena, enquanto Cristo atua na mediação e deve olhar exclusivamente ao Pai.
Ao nascer como primogênito de Sophia, o Salvador livra—se dos preliminares da demiurgia mundana; o imperfeito fica com a mãe e o perfeito com o Filho.
O Filho de Deus progrediu através de Sophia para penetrar no Pleroma e redimir—se da dispersão do Hysterema, assim como o Salvador homem progrediu através da Sabedoria para dispor—se ao batismo do Jordão.
O versículo de Lucas sobre o progresso de Jesus alude ao mito do Cristo superior que viaja da mãe Sophia ao Pai, separando o elemento masculino que olha a Deus do elemento feminino voltado à dispersão cósmica.
Os anos de Nazaré dão corpo ao Hysterema onde atua Sophia, e o Jordão assinala o ingresso no reino da luz e da gnose pura.
Conclusão
Os gnósticos utilizam muito pouco as narrativas da infância e juventude de Jesus, concentrando—se no advento da mensagem celeste e nos mistérios da vida pública.
Apenas o mistério da encarnação recebeu estudo detalhado, restando aos críticos colher alusões dispersas para recuperar a doutrina subjacente às ráfagas de história.
Os basilidianos fixaram as datas do nascimento, batismo e paixão, mas as circunstâncias de Belém permanecem vagas ou restritas à natureza e residência dos anjos anunciadores.
O mistério da circuncisão revelou—se rico em doutrina, abrangendo desde tratados sobre o destino do prepúcio de Jesus até conexões com mitos pagãos de Átis, Saturno e Júpiter sobre a secessão de Eva.
A apresentação aos quarenta dias relaciona—se ao paraíso de Adã como imagem de uma economia superior à de Iavé, somando—se o papel de Simeão como o demiurgo e de Ana como Sophia Achamot.
As palavras de Simeão indicam a comunhão pacífica dos dois Testamentos; o criador aceita o termo de sua dispensação e cede o posto ao Evangelho de Jesus.
A vida oculta em Nazaré simbolizava a região da verdade pleromática onde o Salvador passou seus anos entre os trinta éons.
As histórias do Menino na escola desqualificam a falsa ciência de Moisés e ensinam o Evangelho do Deus sumo por meio da letra alfa.
A visita de Baruc a Jesus aos doze anos manifesta a dignidade do Filho de Deus imune às misérias carnais, preparando—o para o Jordão.
As palavras de Jesus na infância atestam a consciência de sua filiação única antes do batismo, agindo Sophia por sua boca através de inspirações temporárias.
Os trinta anos de vida privada encontram paralelo nos trinta séculos do Verbo no seio do Pai, importando apenas a mensagem de saúde enviada pelo Deus ignoto.
Jesus, como mediador, não orienta a atividade para si ou para os éons que o constituem, mas sim para o conhecimento pleno de Deus Pai.