ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 11: EBIONITAS
A análise da cristologia ebionita revela a existência de duas correntes principais: uma que considerava Jesus nascido de José (ex Ioseph) e outra que, embora aceitasse o nascimento virginal, negava a preexistência divina de Jesus como Verbo e Sabedoria do Pai, aproximando-se do judaísmo na observância da Lei.
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Irineu (I 26,2) afirma que os ebionitas consentem que o mundo foi feito por Deus, mas opinam sobre o Senhor de modo semelhante a Cerinto e Carpócrates; usam somente o
Evangelho segundo Mateus, rejeitam o apóstolo Paulo chamando-o de apóstata da Lei, esforçam-se por expor com curiosidade (curiosius) as coisas proféticas, circuncidam-se e perseveram nas consuetudines segundo a Lei e no caráter judaico de vida, adorando Jerusalém como casa de Deus
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O mesmo Irineu (III 21,1) acrescenta que os ebionitas, apoiando-se na leitura de
Isaías 7,14 segundo Teodócio e Áquila (“eis que a moça – he neanis – terá no ventre e dará à luz um filho”), afirmam que Jesus foi gerado de José (ex Ioseph eum genitum esse)
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Justino (Dial. 48,3; 49,1; 67,4), em diálogo com Trifão, apresenta os argumentos judaicos que os ebionitas adotariam: só há um Deus (o Criador e Legislador do AT), que não tem
Filho, Verbo ou Sabedoria pessoal; Jesus era o Cristo ou Messias anunciado pela Lei e Profetas, sendo homem escolhido para Cristo (ekloge genomenos eis to christon einai) em prêmio à boa conduta
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Orígenes (C. Cels. V 65) menciona pela primeira vez duas classes de ebionitas (Ebionaioi dichos): uns que confessam que Jesus nasceu de virgem (como os eclesiásticos), e outros que negam o nascimento virginal, afirmando que ele nasceu como os demais homens
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Eusébio (HE III 27,2-3) descreve os dois grupos: os primeiros, com toda propriedade chamados ebioneus (por opinarem pobre e humildemente sobre Cristo), criam que ele era homem simples e vulgar (psilon kai koine anthropon), gerado do comércio de varão e Maria, sendo feito justo graças ao progresso na virtude; os segundos, embora não negassem que o Senhor nasceu da Virgem e do
Espírito Santo, também não professavam que ele preexista como Verbo Deus e Sabedoria do
Pai
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O Pseudo-Clemente (Hom. 18,13) afirma em exegese a
Mateus 11,27 que os judeus (e os ebionitas) estavam persuadidos de que o pai de Cristo era (só) David, e o próprio Cristo, filho (só) dele, e não o reconheciam por
Filho de Deus; por isso se disse com toda propriedade: “Ninguém conheceu o
Pai”, pois, em lugar de Deus, todos lhe chamavam pai a David
1. O “VERUS PROPHETA”
A cristologia do verus propheta nas Pseudo-Clementinas apresenta Adão como o verdadeiro profeta, concebido pelas mãos de Deus, ungido com a misericórdia divina (theou eleei chistheis) e possuidor do Espírito divino (pneuma theion) em plenitude, sendo o mesmo que, através de reencarnações pelas “sete colunas” (Provérbios 9,1), chega a Jesus.
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As Homilias (III 17-28) ensinam que Adão foi concebido (kyophoretheis) mediante as mãos de Deus; se alguém se resiste a outorgar-lhe o
Espírito Santo do Messias (que atribui a outro nascido de impura gota – ex mysaras stagonos), procede com notável impiedade
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Adão (o verus propheta) transcorre os anos mudando formas (morphas) junto com os nomes, até que alcança seus próprios dias e, ungido com a misericórdia de Deus (theou eleei chistheis) a causa dos trabalhos dos demais, logra para sempre o descanso
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Os autores pseudoclementinos estão muito longe da tese comum aos grandes gnósticos cristãos: atribuem a Jesus a mesma gnose que a Adão e Moisés, o mesmo mensagem, nenhuma novidade respeito ao único vero Deus (criador do céu e da terra), e nenhum rompimento entre a Lei e o
Evangelho
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A teoria do verus propheta elimina o conceito de filiação natural divina; Deus (único em essência e pessoa) não tem
Filho natural, e se compraz em fazer igualmente pais a Adão e a Jesus; o
Espírito Santo de Deus (sempre impessoal) vem a ser para ambos espírito de paternidade, não de filiação
2. GNÓSTICOS EBIONIZANTES
Certos gnósticos, como Cerinto, Carpócrates, o autor do Evangelho segundo Filipe (§ 91) e Justino gnóstico, apresentam pontos de contato com o ebionismo, especialmente no que tange à origem não-virginal de Jesus ou à sua natureza puramente humana até o batismo.
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Cerinto (Irineu, I 26,2; III 11,1-3) ensinava que Jesus não nasceu de virgem (impossibile enim hoc ei visum est), mas foi filho de José e Maria como todos os homens, e que depois do batismo desceu sobre ele, vindo da principalidade que está sobre todas as coisas, o Cristo em figura de pomba; então anunciou o
Pai incógnito e realizou virtudes; no fim, o Cristo reevolou de Jesus, e Jesus padeceu e ressuscitou
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Carpócrates (Irineu, I 25,1) afirmava que Jesus nasceu de José e, sendo semelhante aos demais homens, distinguia-se deles pelas propriedades da alma: sua alma, firme e limpa (anima eius firma et munda cum esset), conservava a memória de quanto havia visto em seu movimento circular (en te periphorai) em torno do Deus ingênito
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O
Evangelho segundo Filipe (§ 91) relata que José, o carpinteiro, plantou um jardim (paradeisos) porque necessitava madeira para seu ofício; ele é quem fez a cruz dos árvores que havia plantado; e sua semente (sperma) esteve pêndula do que havia plantado; sua semente era Jesus; a planta, porém, era a cruz
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O mesmo
Evangelho (§ 17) declara: “Uns diziam: ‘Maria concebeu do
Espírito Santo’. Enganam-se. Não sabem o que dizem. Quando uma mulher foi jamais embaraçada por uma mulher?… E o Senhor não teria dito: ‘Meu [
Pai que está] no céu’, como não tivesse [outro] pai (terreno); senão que teria dito simplesmente: [meu pai]”
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O
Evangelho segundo Filipe (§ 83) acrescenta: “Adão nasceu de duas virgens: do Espírito e da terra virginal. Por isso Cristo nasceu de uma [só] virgem, a fim de corrigir o deslize que havia ocorrido no princípio”
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Justino gnóstico (
Hipólito, Ref. V 26,29) menciona que, nos dias do rei Herodes, Baruc foi enviado novamente por Elohim e, vindo a Nazaré, encontrou Jesus, filho de José e de Maria (huion Ioseph kai Marias), menino de doze anos que apascentava ovelhas; a expressão, porém, alude a
Lucas 2,48 (“teu pai e eu, apenados, andávamos buscando-te”), não implicando necessariamente origem não-virginal
3. CONCLUSÃO
Embora os ebionitas não fossem gnósticos, seu estudo ajuda a definir contornos e a compreender correntes ideológicas de sesgo cristologicamente análogo, incluindo certas perícopes do Evangelho segundo Filipe que apresentam Jesus vindo da semente de José e fundam nisso a missão salvífica do Espírito no Jordão.
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O
Evangelho segundo Filipe, de caráter
valentiniano na imensa maioria de suas páginas, introduz inesperadamente ideias de subido color ebionita: Jesus resulta vir da semente de José, e nisso se funda a missão salvífica do Espírito no Jordão
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A antítese entre Adão e Cristo exige que a vitória do segundo sobre o primeiro se cumpra no elemento comum a ambos: a carne; o nascimento virginal romperia a linha entre ambos os Adão, quebrando ipso facto a possibilidade da salvação humana
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Cristo assumiu um corpo dotado de concupiscência, débil e mortal, para convertê-lo de pesado em leve, de oscuro em lúcido, de crasso em espiritual, e de dominado pela morte e ignorância em outro dócil à vida e conhecimento divinos
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O deslize que Cristo veio a remediar foi o pecado contra Deus (por apostasia e culto do criador animal), que transformou o primeiro corpo leve, lúcido e quase espiritual de Adão em outro pesado, oscuro e hílico, com aparecimento da concupiscência carnal, perda da gnosis anterior, torpeza de mente e coração, debilidade do corpo e domínio da morte
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A vitória sobre o deslize se cumpre mediante a regeneração do Jordão, ao sobrevir o
Filho de Deus sobre o filho do homem e desalojar dele o pecado; então tem lugar – com a iluminação (gnosis) – a salus hominis (resp. salus carnis), quando de pecadora a carne se volta espiritual, veículo do
Filho de Deus (resp. do
Espírito Santo)