ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 17: EFICÁCIA DO BATISMO DE ESPÍRITO
Mais que pelo simbolismo de Cristo e Sofia, filhos da sagrada pomba ou Espírito do Pai, interessa sua distinção, pela eficácia que Ofitas e valentinianos os atribuem em sua descida. A que vem, separar, nos preliminares da criação, os dois personagens, para mais tarde, na plenitude dos tempos, no Jordão, não em Belém nem em Nazaré, introduzi-los novamente juntos na humanidade de Jesus? A importância outorgada ao batismo do Nazareno seria comparável à geração conjunta do Filho (primogênito das coisas criadas) e do Espírito Santo (alma da criação e mãe da Igreja dispersa no mundo). Talvez porque assinala o momento crucial da história na qual intervêm ambos em plenitude de tensão: um, mais «salvador» ou Filho que nunca, e a outra, mais «sabedoria» e Mãe.
Antes, no entanto, de urgir a eficácia dos dois personagens, sintetizados na pomba do Jordão, convém ampliar horizontes.
A pomba preocupava, assim mesmo, aos basilidianos; e, segundo parece, fora da perspectiva habitual aos discípulos de Valentino. Uma inquisição de seu simbolismo e eficácia, na linha basilidiana, poderia abrir caminhos complementares até uma teologia batismal pouco presumível.
O campo ao redor do mistério do Jordão se amplia assim prodigiosamente.
Resumo
A distinção entre os dois personagens simbolizados pelos pombinhos — Cristo e Sofia — interessa mais pela eficácia que ofitas e valentinianos lhes atribuíam em sua descida do que pelo simbolismo em si mesmo.
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A importância concedida ao batismo do Nazareno é comparável à geração conjunta do Filho (primogênito das coisas criadas) e do
Espírito Santo (alma da criação e mãe da Igreja dispersa no mundo)
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Talvez isso ocorra porque o batismo assinala o momento crucial da história no qual ambos intervêm em plenitude de tensão: o Filho como mais “salvador” do que nunca e a Madre como mais “sabedoria”
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Antes de aprofundar a eficácia dos dois personagens sintetizados na pomba do Jordão, convém ampliar horizontes, pois a pomba também preocupava os basilidianos fora da perspectiva habitual dos discípulos de Valentim
1. EXEGESE DE BASÍLIDES SOBRE A POMBA
Segundo Basílides, o Espírito Santo aparece em forma de ave ou asas de ave, como asas do Filho, e em vez de descer do céu à terra, o Filho é elevado da terra ao céu, carregado pelo Espírito como sobre asas de águia.
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Clemente de Alexandria introduz os basilidianos na teologia da pomba ao afirmar que também a pomba se deixou ver como corpo, sendo uns a chamam de
Espírito Santo e os de Basílides, o “Diácono”, e os de Valentim, o Espírito do pensamento do
Pai
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Os basilidianos de
Hipólito entendiam que Deus havia feito todas as coisas em uma “semente” (sperma), da qual foram se separando as substâncias que integrariam o mundo criado, começando pela “filialidade sutil” (o Unigênito) que se encumbou até Deus
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A “filialidade opaca” (segunda filialidade), por ser imitativa e menos sutil, necessitou da ajuda do
Espírito Santo como asas, não podendo voar por conta própria, e foi assim encumbada até colocar-se sobre o firmamento na zona do Filho (Cristo)
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Hipólito descreve que, assim como as asas do ave separadas do ave não seriam capazes de se encumbrar, nem o ave livre das asas se encumbraria aos ares, de modo análogo ocorre nas relações mútuas entre o
Espírito Santo e a filialidade segunda
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Uma vez aproximada à filialidade sutil e ao Deus transcendente e criador, a filialidade segunda abandonou o
Espírito Santo nas proximidades, por não ser ele consubstancial com Deus nem possuir a natureza comum com a filialidade, mas o Espírito reteve em si a fragrância da filialidade como um ungüento que retém seu aroma
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Esta fragrância é levada à distância do
Espírito Santo, de cima para baixo, até a massa amorfa e o espaço em que se vive, e desde aí começou a filialidade segunda a subir como sobre asas de águia e sobre os ombros, sendo tudo levado de baixo para cima
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O
Espírito Santo é de natureza inferior ao Filho, tem a missão de servi-lo elevando-o às alturas que lhe pertencem, e por isso Basílides o denomina “Espírito médio” (methorion
pneuma), situando-o como firmamento entre a luz e as trevas, inferior à essência luminosa do Filho e superior a todas as essências cósmicas
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A ação do Espírito por ocasião do batismo de Jesus não criaria dificuldade à luz dessa doutrina: em vésperas da obra salvífica, Jesus se aproxima do Jordão; o
Espírito Santo aparece em forma de pomba como asas do Filho; o Filho desce do céu à terra levado pelo Espírito como por asas de pomba
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O
Espírito Santo de Basílides não é a essência do Deus sumo nem a do Unigênito, nem o crisma que santificou o Pleroma, nem a essência do Verbo subsistente, nem a natureza de Sofia, Mãe dos viventes, mas sim denuncia “heterogeneidade rigorosa” frente ao Filho, sendo substancialmente inferior a Ele
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O “Diácono” de Basílides serve por natureza ao sacerdócio e economia da saúde do
Filho de Deus, tendo aparecido nos preliminares da criação para servir ou “diaconar” ao Filho, e no mistério do Jordão atua como “diácono do Filho”
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Os naassenos colocam o
Espírito Santo como águas superiores além do firmamento, imaginando-o às vezes como imenso batistério onde os predestinados se banham e ungem e adquirem a vista de Deus, descurando o batismo de água para urgir o de Espírito ou água da vida
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Sem negar o batismo em Espírito, Basílides denegava ao Espírito a eficácia característica do Filho, admitindo no Jordão a intervenção do
Espírito Santo “o diácono” e a intervenção do Filho, ambas positivas mas essencialmente diversas e subordinada a do Espírito à do Filho
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Para os valentinianos, o espírito do
Antigo Testamento era racional ou psíquico, e o Espírito do Novo Testamento procedia da essência ou dynamis do
Pai e do Filho, sendo
pneuma santificante e iluminador, de natureza diversa da do deus do
Antigo Testamento
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Os basilidianos reconheciam apenas um Espírito, idêntico no Antigo e no Novo Testamento, mas fisicamente intermédio entre a natureza divina ou luminosa e a natureza animal, equidistante do substrato do
Pai e do de Iahweh, pertencendo a uma nova espécie: “firmamento” ou “Espírito fronteiriço” (
pneuma methorion)
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O
Espírito Santo dos basilidianos era
pneuma ministerial e não santificante, ordenado ao ministério, curas e profecias, não havendo
pneuma que habilite os “filhos da luz” para o conhecimento do
Pai, pois a tal fim se ordena a luz do Filho ou o
Evangelho do Unigênito, mas não o Espírito
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Os basilidianos nunca atribuíram à infusão do
Espírito Santo, como efeito peculiar, a filiação divina, nem falaram de Espírito de filiação, pois isso seria confundir a função do Espírito profético (que habilita para vaticínios e curas) com a do Filho (que santifica, ilumina e eleva ao exercício peculiar ao Unigênito de Deus)
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A eficácia do Espírito como diácono não se limita às curas e profecias, pois já antes de haver homens, nos preliminares do mundo, o Diácono atuou elevando como sobre asas de águia a filialidade segunda até a região própria do Filho
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A eficácia ministerial do Espírito responde à sua situação como “firmamento” ou “fronteira” entre o Filho e o universo criado, na medida em que separa ou discerne (diakritikon) a substância divina das não-divinas e coloca ou restitui o divino em sua região característica (apokatastikon)
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Anuncia-se que o
anjo disse à Virgem Maria: “o
Espírito Santo virá sobre ti”, aludindo não diretamente à pessoa do Filho, mas ao Diácono e ao mistério do Jordão, e “a Virtude do Altíssimo te fará sombra” indica a eficácia peculiar ao Diácono de discernir essências
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As palavras de Jesus na cruz: “
Pai, em tuas mãos encomendo meu Espírito” (Lucas 23,46), são o reverso do ocorrido no Jordão, devolvendo Jesus ao
Pai o Diácono por cujo meio levou a cabo curas e ensinamentos proféticos
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O Espírito de Pentecostés continua, segundo os basilidianos, “diácono” do Salvador, encarregado de perpetuar como seu servidor a obra de saúde, especialmente como princípio de distribuição, discernimento, consumação e apocatástase de todas as essências do universo
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Os ofitas são explícitos sobre o descenso simultâneo formando uma espécie de matrimônio, enumerando seus frutos sem discernir os que convêm a Cristo (Filho) e os que convêm a Sofia (
Espírito Santo)
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Irineu afirma que “descendente autem Christo in Iesum, tunc coincepisse virtutes perficere et curare et annuntiare incognitum Patrem et se manifeste Filium Primi Hominis confiteri”, podendo-se distribuir em duas séries os quatro efeitos: os dois primeiros obedecem à eficácia ministerial de Sofia e os dois últimos ao rigoroso salvífico do Cristo superior
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Em Pistis Sophia, a Virtude que havia em João Batista vaticinou sobre o Salvador, porque sabia que Ele iria aportar ao mundo os mistérios e purgar os delitos dos pecadores que n’Ele cressem e o ouvissem, e que os converteria em pura luz e os conduziria à luz
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Os basilidianos aplicavam a Jesus, por ocasião do batismo do Jordão, um nome hebraico, Caulacau, de virtude cósmica, para fazê-lo invisível e incompreensível aos arcontes em seu regresso ao ponto de origem, tal como Teodoreto registra: “a quem chamam Salvador e Senhor, nomeiam Caulacau”
2. DOUTRINA VALENTINIANA
Os valentinianos reconhecem três espíritos diversos: o de Deus (Espírito de luz), o do criador (Espírito animal) e o do diabo (Espírito material), diferindo entre si como as essências que representam: pneuma, psyche, hyle.
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O pensamento do
Pai (he enthymesis tou Patros) é o que Deus,
Pai incognoscível, tem de si próprio, e o Espírito do pensamento do
Pai é o Espírito de Ennoia, a substância pensante do
Pai, cujo fruto é o Unigênito
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Os valentinianos itálicos (Heracleão e Ptolomeu) dizem que o corpo de Jesus foi feito “animal” (psychikon) e que por isso, na hora do batismo, desceu o Espírito como pomba (to
pneuma hos peristera katelthythi), a saber, o Logos de Sofia, a Mãe superior, unindo-se ao corpo animal e ressuscitando-o dos mortos
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A pomba simboliza o Filho enquanto Gnose ou Espírito de Gnose do
Pai, mediador último entre Deus e os homens, autor da “iluminação” gnóstica, sendo o corpo columbino que se introduziu na carne do Verbo a representação da perfeição estritamente salvífica do Filho: a vis que dá a conhecer Deus aos homens
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O Pneuma que desceu a Jesus como pomba era o
Espírito Santo masculino subsistente no Filho, “o Varão” (ho Arsen) com
pneuma vigoroso (não feminino), destinado a “masculinizar” (outorgar a gnose) aos homens espirituais
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Como Espírito masculino, este
pneuma difere pessoalmente do Espírito feminino peculiar a Sofia, sendo da mesma substância e qualidade que o Espírito do
Pai incógnito e diferindo dele pessoalmente
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O Espírito santificante ou iluminante é sempre masculino e, consequentemente, do Filho, enquanto o
pneuma diacrítico ou “anima mundi” é feminino e afeta a Sofia (ou
pneuma methorion)
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O Salvador celeste, ao adentrar-se em “o homem da economia”, fê-lo participante de duas coisas: de sua virtude (sua virtus) para que a morte fosse desalojada mediante Jesus, o homem da economia, e de seu nome (suo nomine) para que fosse conhecido o
Pai mediante o Salvador celeste como Gnose pessoal de Deus
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Irineu resume: “Participasse autem cum eo qui esset ex dispositione de sua virtute et de suo nomine, ut mors per hunc evacuaretur, cognosceretur autem Pater per eum Salvatorem quidem qui desuper descendisset”
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Os valentinianos, não contentes em ensinar o descenso do Filho em figura de pomba sobre Jesus, conceberiam as “duas asas gêmeas do ave”, Cristo e Sofia, como a epifania do Esposo e Esposa unidos, saídos do reino da luz como de celeste tálamo para fazer da humanidade de Jesus seu tálamo terreno
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O
Evangelho segundo Filipe afirma que o
Pai do universo se uniu à Virgem (o
Espírito Santo ou Sofia) que havia descido, revelando-se fora do magno tálamo (pastos), e que assim como o produzido pelo noivo e pela noiva, Jesus erigiu o universo até ele (o tálamo) graças a eles
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Teódoto, representante da escola oriental, assinalava que os
anjos, no princípio, foram batizados na redenção do Nome, que desceu na pomba a Jesus e o redimiu (kai lytrósamenou autón), e também a Jesus fazia-lhe falta a redenção (edei de lytroseos kai to Iesou) para não fosse retido pela Ennoia do Hysterema
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O paradigma celeste do Jordão teve lugar por ocasião do nascimento do Salvador (e seus
anjos), fruto primeiro de Ennoia (Sofia), quando o Logos, primogênito da criação, abandona a Mãe e se dispõe a entrar com os satélites espirituais no Pleroma como em águas vivas, batizando-se no Espírito virginal e masculino ao mesmo tempo
3. PARADIGMA CELESTE DO JORDÃO
O Nome que desceu a Jesus na pomba trazia, entre outros desígnios, o de redimi-lo, pois também Jesus, enquanto homem hílico, necessitava ser redimido do pensamento do mundo para poder anunciar a gnose do Deus incógnito.
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O Logos fica assim redimido do pensamento do Hysterema, da penúria mental em que havia nascido extramuros de Deus, e como Ele, seus
anjos
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Os gnósticos distinguem as águas viventes superiores ao firmamento das não-divinas inferiores a ele, como diz Justino gnóstico: “Há separação entre a água e a água. A água inferior ao firmamento é a da criação perversa, enquanto a superior ao firmamento é a água viva do Bom (do
Pai)”
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O único verdadeiro batismo é o celeste de águas luminosas, ao qual o próprio Verbo, primogênito da Mãe com nascimento no Kenoma, requer o batismo na essência puríssima de Deus para se entonar em ordem à Gnose imediata do
Pai e converter-se ao Intelecto (nous) seu indeficiente
4. DOCETAS DE HIPÓLITO
Os docetas adotam um esquema no qual Deus cria uma semente cósmica que esconde em potência todas as coisas, da qual saem três magnos eons perfeitos em sua ordem, traduzíveis numericamente por 30 (= 3 X 10), situados um abaixo do outro com arreglo à sua dignidade.
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Os três eons são o primeiro situado na luz (bom), o segundo situado no meio (espírito), e o terceiro situado nas trevas (matéria), correspondendo o Filho ao segundo eon, com o
Pai no primeiro e a matéria no terceiro
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A obra salvífica do Filho, que está na luz, consiste em descer ao contato com o Espírito que está no meio e, com sua ajuda, descer também ao terceiro eon, o das trevas, para salvar as almas dos homens e resgatá-las do poder da matéria
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A descida do Filho ao terceiro eon realiza-se ocultamente para não ser preso pelo arconte material, e Jesus, o Filho, ao apresentar-se no Jordão para o batismo, recebe do Espírito (do meio) um corpo não carnal, formado por antíteses entre a essência do alto e a de baixo
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A forma de Jesus reflete no Tiro (água) uma figura, como a imagem (eidolon) de um rosto, que ao cair na água produz um corpo, e este corpo é o que padece, morre e ressuscita, não tendo necessidade de alimento nem se corrompendo
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Os docetas aplicariam o oráculo do arcanjo à formação do misterioso corpo batismal “de água e de Espírito”, onde “o
Espírito Santo virá sobre ti e a dynamis do Altíssimo te fará sombra” (episkosei soi) significaria a conjunção do Espírito e da água mediante a figura impressa pelo Espírito na água
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Quem se batiza em água e Espírito apropria-se de um soma não-carnal nem corruptível, sustento da alma (e do espírito), indispensável para uma consistência definitiva no reino dos céus, e assim Jesus pode desprender-se do corpo de carne na paixão e morte, triunfar do Thanatos (principados e dominações) e sair ao terceiro dia dos mortos para nunca mais morrer
5. A MODO DE SÍNTESE: COMPARAÇÃO DA TEOLOGIA DE BASÍLIDES, VALENTIM E OS ECLESIÁSTICOS
Basílides conhece um só Espírito, o pneuma methorion, fronteiriço entre o reino da luz (morada de Deus) e o das trevas (habitação dos arcontes e seres infralunares), essencialmente diverso de uns e de outros e não entra como terceira pessoa trinitária com o Pai e o Filho.
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O Espírito basilidiano caracteriza-se duplamente como “diácono” do Sumo Sacerdote de Deus (ao serviço do Salvador e da igreja dos homens divinos) e como “Sophia” do universo, penetrando todo o universo, dando coesão a suas essências e regiões, e “salvando” o mundo criado
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No mistério do Jordão, a luz figura o Cristo superior (filialidade segunda) que desce para “iluminar” ou santificar as primícias da igreja (filialidade terceira), enquanto a pomba simboliza o Espírito “diácono” que desce para “separar, redimir e restituir” as primícias iluminadas por Cristo e encumbrá-las virtualmente ao reino da luz
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Os valentinianos conhecem três espíritos diversos (de Deus, do criador, do
diabo), e o Espírito de Deus, embora único em essência (monoeides), não o é sempre em qualidade, distinguindo-se na Trindade
Pai-Filho-Sofia, todos consubstanciais (homoousioi)
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O Espírito masculino (do
Pai e do Filho) é operante, dinâmico, outorga a “gnose” de Deus onde encontra um sujeito fisicamente idôneo; o Espírito feminino (Sofia, terceira pessoa) não é operante senão passivo, influi derramando-se no mundo e fundando a Igreja espiritual terrena, requerendo o influxo do masculino para despertar à vida do Espírito e converter-se de “feminino” em masculino
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No Jordão intervêm segundo os valentinianos: o Espírito do Filho (to
pneuma tes enthymeseos tou Patros) simbolizado na pomba, que “masculiniza” Jesus e lhe outorga vigor para intuir o
Pai; Sofia intervém indiretamente como Mãe do Espírito feminino de Jesus; e o Espírito animal do criador comunica-se ao Cristo animal assumido pelo Logos em ordem à diaconia como espírito taumatúrgico
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Os eclesiásticos ensinam a consubstancialidade absoluta das três divinas pessoas, atribuindo à terceira pessoa a mesma perfeição qualitativa que às duas primeiras, sem distinção entre Espírito masculino no
Pai e no Filho e feminino no
Espírito Santo
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Ao longo do
Antigo Testamento, o
Espírito Santo atuava como Espírito profético com uma graça ou justiça orientada para o futuro Logos encarnado, convertendo-se em Espírito de filiação com a vinda de Cristo, mudança que se iniciava geralmente no Jordão e se consumava na ressurreição, ascensão e pentecostés
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O Espírito do Jordão era santificante e iluminante, habilitando a humanidade de Jesus para o conhecimento de Deus, mas como
Espírito Santo (terceira pessoa) não bastava para levar ao conhecimento imediato do
Pai, necessitando converter-se em Espírito de filiação para habilitar, em virtude da eficácia mediadora do Filho, ao conhecimento imediato do
Pai
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A efusão do Spiritus filiationis vai vinculada aos mistérios gloriosos de Jesus, e entre os eclesiásticos adivinham-se duas orientações: a linha alexandrina situa o mistério na efusão do
Espírito Santo sobre a alma de Jesus, e a dos asiáticos (Irineu,
Tertuliano) situam-no na efusão sobre a carne de Jesus
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Taciano chama o
Espírito Santo de “o diácono do deus que padeceu” (ton diakonon tou pethontos theou), mas segundo os eclesiásticos o único “diácono” é Cristo, pois em sua diaconia do
Pai, o Filho humanado apropriou-se, por ocasião do batismo, do
Espírito Santo muito melhor do que o Cristo basilidiano as asas do Espírito