Os docetas de
Hipólito afirmavam que, até a aparição do Salvador, havia muito desconforto (pollé tis en plane) das almas por obra do demiurgo, deus ígneo, que as fazia mudar de uns corpos a outros.
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O demiurgo, sendo de forma ígnea e não subsistindo pessoalmente, aprisiona as almas (caracteres eternos de luz) e as custodia, fazendo-as passar de corpo em corpo.
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Dois testemunhos bíblicos eram alegados em favor das reincorporações: o oráculo de
Job (“eu mesmo ando errante e passo de um sítio a outro”) e o dito do Salvador sobre Elias (Mateus 11,14-15).
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A partir do Salvador, a metensomatosis cessou, e a nova fé acaba com o domínio do demiurgo sobre as almas, anunciando a remissão dos pecados sem necessidade de novas ensomatoses.
Os ofitas de Irineu, a sessão de Cristo à direita de Jaldabaot e o fim da reincorporação para os crentes
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Segundo os ofitas de Irineu, após a ascensão, o Cristo animal toma assento à direita de seu pai Jaldabaot, por cima do criador, que o perde de vista.
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Cristo senta-se à direita de Jaldabaot para enervá-lo, tirar-lhe a virtude sobre as almas e recolher em si as almas dos que reconheceram Jesus e Cristo, depositando a carne mundana.
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Jaldabaot fica em detrimento, evacuado de sua virtude por meio das almas santas, que já não pode lançar de novo no mundo.
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A metensomatosis, signo do domínio da ignorância e do demiurgo, desaparece para os crentes, mas as almas incrédulas, que procedem do sopro do criador, continuam sujeitas a ele.
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Cristo se enriquece com as almas santas enquanto o pai (Jaldabaot) se diminui, preparando-se a consumação final quando toda a umectação do espírito de luz for recolhida ao eão da incorruptibilidade.
A Pistis Sophia e a interpretação da parábola do adversário como reincorporação purificadora
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A Pistis Sophia, retomando elementos arcaicos, interpreta a parábola de Mateus 5,25s como descrição do processo de reincorporação das almas impuras após a morte.
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O adversário (antidikos) é identificado com o espírito falsário (antimimon
pneuma), o juiz (krites) com a Virgem da luz, e o ministro (hyperetes) com os paralemptai.
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Quando a alma não conhece o mistério que a liberta do espírito falsário, esse espírito a conduz à Virgem da luz, que a julga e, se a acha pecadora, a entrega a um paralemptes para que a lance em um corpo.
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O próprio Salvador autenticaria o fenômeno da reincorporação ainda após sua vinda, limitando-o às almas impuras e vinculando sua libertação à obra salvífica.
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Diferentemente dos ofitas de Irineu, na Pistis Sophia o protarchon (demiurgo) perdeu todo poder sobre as almas, cedendo-o à Virgem da luz.
Conclusão: a ascensão e a sessão à direita como inauguração de um novo regime que termina com a reincorporação
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Ao mistério da ascensão associa-se a ideia do triunfo sobre o demiurgo, com Cristo tomando assento à direita de Yahvé para inaugurar um novo regime e terminar com a reincorporação.
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O Cristo (animal) liberta todos os devotos do
Evangelho da verdade do círculo fatal das gerações, enquanto os incrédulos que perseveram em render culto a Yahvé continuam a reencarnar-se.
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Durante o
Antigo Testamento, Yahvé se apoderava de todos os homens após a morte e os obrigava a tomar novamente um corpo, perpetuando a cadeia da gênese.
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A “sessio a dextris” do Messias, situado à direita de Yahvé com domínio sobre ele, consome a destruição de tal regime, iniciada com o advento de Jesus ao mundo.
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A doutrina da reincorporação serve para definir a sorte das almas em um e outro Testamento, reabilitando a figura do Messias frente ao demiurgo Yahvé, que fica destituído do governo sobre o cosmos e enervado em sua lei e justiça.