O Basílides de Clemente e
Hipólito desconhece o mito da substituição, ensinando que Jesus,
Filho da Virgem, recebeu no Jordão a virtude e o Espírito, e que, chegada a hora, sobe à cruz para iniciar a apocatástase.
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A paixão e morte reais afetaram o
Filho de Deus em sua natureza cósmica, pois do contrário faltaria eficácia à cruz para a apocatástase universal.
Não se deve confessar como
Filho de Deus ao homem posto em cruz, mas àquele que, por invisibilidade, não foi crucificado, distinguindo-se a natureza divina impassível da humana passível.
A separação do Salvador e o abandono de Jesus pelos valentinianos
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Os
valentinianos também ensinam uma separação no momento da paixão: o Salvador celeste, que descera sobre Jesus no Jordão, ausenta-se quando Jesus é conduzido a Pilatos.
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O Salvador perseverou impassível, e o Espírito de Cristo depositado em Jesus foi retirado quando Ele foi conduzido a Pilatos.
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Nem o semen procedente da Mãe (Sofia) padeceu, pois também ele era espiritual e impassível; só padeceu o Cristo animal e o misteriosamente preparado da economia.
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Tertuliano confirma que o Salvador celeste se ausenta de Jesus como uma pomba que volta ao
Pai, sublinhando a apatheia do divino durante a crucificação.
Os Acta Iohannis e a cruz luminosa como símbolo da impassibilidade do Logos
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Os Acta Iohannis apócrifos apresentam uma forte dissociação de personagens, onde o Salvador verdadeiro está livre da cruz, enquanto o crucificado é acessível às massas.
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O Senhor afirma que não é o que parece, que não padeceu nada do que dirão dele, e que a cruz de madeira não é a verdadeira cruz, mas o confim (horos) de todas as coisas.
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A cruz luminosa é o
Logos, que dá coesão a todas as coisas; nela o
Filho de Deus é crucificado para a saúde do universo, enquanto a cruz de Jerusalém é uma imagem imperfeita.
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Jesus se revela a João em três aspectos:
Logos (forma pessoal ante o
Pai), Senhor (ante o mundo) e homem (corpo passível ante os homens), sendo este último o crucificado em Jerusalém.
A “sístole” ou contração do Espírito como explicação para a ausência divina
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Outra fórmula para a ausência do divino em Jesus é a “contração” (systole), onde os eflúvios do Espírito que se estenderam a Jesus no Jordão se recolhem ao céu, abandonando-o.
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Os estoicos analisaram a sístole na tristeza (lype), que é uma contração da alma não governada pelo
Logos diante de um mal iminente.
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A analogia solar (o sol que contrai seus raios ao ocaso) aplicou-se à teologia trinitária, sendo usada por monarquianos e condenada em sínodos.
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Dámaso anatematiza quem diz que o
Logos se separou do
Pai por extensão ou contração.
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A teologia solar deixou marcas nos
valentinianos, que viam Jesus como o sol e a igreja dos
anjos como seus satélites, que se contraem e se dilatam em torno do
Logos.
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No tratado De resurrectione (ad Rheginos), os espirituais são os raios do Salvador, atraídos por Ele como os raios pelo sol, na ressurreição espiritual.
A sístole aplicada a Cristo e a Sofia e sua relação com o clamor na cruz
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O primeiro caso de sístole entre
valentinianos deu-se com as paixões de Sofia (Achamot): o Cristo superior se apiedou dela, conferiu-lhe formação substancial e depois contraiu sua dynamis, abandonando-a.
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A sístole do Cristo superior está vinculada apenas à formação substancial (morphosis kat’ousian), enquanto a formação gnóstica (kata gnosin) foi encomendada ao Salvador.
A sístole do Espírito na paixão de Jesus e a derrota da Morte por dolo
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Os
valentinianos aplicaram a sístole ao Cristo histórico: o
Filho de Deus, que se manifestava em milagres, ante a paixão e morte, contraiu seus raios e abandonou Jesus para que os judeus e o
diabo se atrevessem com Ele como puro homem.
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Segundo ET 61,6, o Salvador morreu ao ausentar-se (apostantos) o Espírito que descera no Jordão, contraído (systalentos) para que operasse também a morte.
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Se a vida estivesse presente em Jesus, o corpo não poderia morrer; a morte foi vencida por dolo (dolo katestratethe): o Salvador retraiu o raio da virtude e, depois, o estendeu de novo (anasteilas) para destruir a morte.
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O drama resume-se em três atos: dilatação do raio da virtude no Jordão, contração ante a morte, e nova dilatação na anástasis.
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Irineu, contra os gnósticos, urge a recapitulação do homem operada pelo
Logos em sua própria pessoa, afirmando que o Verbo se fez homem e assumiu todas as coisas em si mesmo.
O silêncio e o entorpecimento de Cristo na paixão como tática divina
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Justino de Roma desenvolve a ideia de que Cristo reteve e escondeu seu poder durante a paixão para que seus inimigos triunfassem.
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Ele silenciou (sigesantos autou) e não quis responder a Pilatos, contendo a corrente de sua força como uma fonte impetuosa desviada.
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O entorpecimento (narkan) de Cristo ao ir para a cruz foi vaticinado pela ferida na coxa de Jacob.
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Deus faz guerra a Amalec com mão oculta (en cheiri kryphais), e uma oculta força de Deus assistiu ao Cristo crucificado.
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Justino afirma que Jesus não obrava por ignorância própria, mas para revelar a ignorância dos que criam que Ele não era o Cristo e o matariam como um homem vulgar.
Exegese de Mateus 27,46 e a interpretação do abandono como separação de Cristo ou de Sofia
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O
Evangelho segundo Filipe interpreta o clamor “Dios meu, Dios meu, por que me abandonaste?” como dito por Jesus na cruz porque ele separou dali o que foi engendrado em Deus, fazendo referência a Eva (Sofia) separada de Adão (Cristo) pelo horos.
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Ptolomeu, em Irineu, aplica o mesmo
salmo ao abandono de Sofia pela luz (Cristo), parada pelo horos em seu impulso.
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O
Evangelho de Pedro traz o clamor: “Força minha, ó força, me abandonaste!” (he dynamis mou, he dynamis, katelipsas me), sugerindo que a dynamis foi assumida (anelefethe) ao céu.
Conclusão sobre o abandono de Jesus: entre o mito e a história
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O abandono de Jesus se agudiza no huerto e na cruz, e as soluções se perfilam em duas: o abandono é mítico (Jesus padeceu como se estivesse separado, sem ausência real) ou o abandono é real (o
Filho de Deus se ausentou do homem Jesus).
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O mito do cambio de personagens entre Jesus e Simão Cireneu, atribuído a Basilides por Irineu, é uma fábula para dar relevo sensível à impassibilidade de Jesus como
Filho de Deus, não devendo ser interpretado literalmente.
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Os Acta Iohannis conjugam a história evangélica com a lenda da aparição de Jesus a João, revelando a crucificação verdadeira no horos celeste, o que permite subir do relato sensível ao mistério da verdade.
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A doutrina da sístole (contração) do Espírito é uma solução dinâmica: o Espírito assistia Jesus de modo manifesto durante a vida pública, mas durante a paixão cessou esse poder, como se tivesse se ausentado, para que Jesus pudesse morrer como puro homem e entrar no reino do Thanatos.