Theodoto

THOMASSEN, Einar. The coherence of “Gnosticism”. Berlin Boston (Mass.): De Gruyter, 2021.


A SOTERIOLOGIA DE EXC. 43:2-65

A VINDA DO SALVADOR E A COMPOSIÇÃO DO SEU CORPO

A seção C dos Excertos de Teodoto apresenta similaridades com o relato de Irineu, assumindo-se uma fonte comum.

A passagem de Lucas 1:35 indica o surgimento do corpo do Senhor e a formação por Deus impressa no corpo na virgem.

Jesus é outro em relação ao que assumiu, como fica claro em suas confissões.

Quando Jesus diz que o Filho do Homem deve ser rejeitado, insultado e crucificado, fica aparente que ele fala de outra pessoa, daquele que experimenta a paixão.

O Cristo psíquico senta-se à direita do Demiurgo, como diz Davi: “Senta-te à minha direita”.

Este relato do Salvador é bastante complicado, distinguindo-se entre o próprio Salvador e os dois componentes que ele “assumiu” (o espiritual e o psíquico), além de seu corpo psíquico sensível.

INCONSISTÊNCIAS NO STATUS SOTERIOLÓGICO DOS ESPIRITUAIS

Assim como em Irineu, detecta-se um certo grau de incoerência neste relato, particularmente em relação ao status soteriológico dos espirituais.

Em 62:3, faz-se uma série de distinções entre a carne, o osso (a alma) e o espiritual que está dentro do osso.

O relato soteriológico como um todo introduz a noção geral de consubstancialidade do Salvador com aqueles que veio salvar, baseada na lógica da participação mútua.

O efeito dessa mudança é que o nascimento do próprio Salvador neste mundo tende a perder sua função e significado soteriológicos.

O contexto da crucificação introduz a rejeição da visão de que o Salvador com seu espírito se tornou separado.

A distinção entre “separação” e “retirada” dificilmente resolve o problema do autor.

O autor herdou o modelo soteriológico de participação mútua entre o Salvador e aqueles que vem salvar.

EXPLICAÇÃO DESSAS INCONSISTÊNCIAS

Essas inconsistências podem ser explicadas como resultado das complicações decorrentes da inclusão da categoria dos psíquicos em um modelo previamente estabelecido de salvação por participação mútua entre o Salvador e os espirituais.

Os problemas lógicos contidos no texto podem ser interpretados como o resultado do desejo de conceder um lugar aos psíquicos na soteriologia valentiniana em geral e no conceito de corpo-igreja especificamente.

O modelo pressupõe que o Salvador atua tanto como provedor da salvação quanto como tipo de seu recipiente.

Cada uma dessas figuras separadas exibe características da figura unificada original.

O problema inicial da unidade ambígua da figura do salvador não é realmente resolvido, mas sim duplicado.

Essa complexa identidade dupla e não identidade do redentor e do redimido produz ambiguidade adicional em relação às funções soteriológicas da(s) figura(s) redentora(s).

A participação do elemento espiritual na descida do Salvador não pode mais ser justificada em termos do paralelismo simbólico entre o Salvador e os que serão salvos.