Soteriologia

THOMASSEN, Einar. The coherence of “Gnosticism”. Berlin Boston (Mass.): De Gruyter, 2021.

SOTERIOLOGIA DO TRATADO TRIPARTITE

As duas posições sobre o corpo do Salvador fornecem um critério para dividir as fontes entre o valentinianismo oriental e ocidental.

O Tratado Tripartite é uma obra sistemática e abrangente da teologia valentiniana.

O material e o psíquico são organizados como o cosmos, enquanto a prole espiritual do Logos permanece em uma região intermediária.

A ENCARNAÇÃO

A encarnação do Salvador é descrita longamente, começando com uma discussão sobre as profecias.

A carne do Salvador é espiritual e constituída pela igreja espiritual, ideia também expressa nos Excertos de Teodoto.

O Salvador se tornou, por compaixão voluntária, o mesmo que aqueles por quem apareceu se tornaram por uma paixão involuntária: carne e alma.

Os “instrumentos” mencionados referem-se à existência com um corpo e uma alma.

A identidade dos objetos da missão do Salvador não é explicitada.

O corpo e a alma do Salvador, seus “instrumentos” de encarnação, devem ser diferentes da “carne” espiritual dada pelo Logos.

O “corpo do Salvador” significa duas coisas diferentes.

A IGREJA CELESTIAL E A TERRESTRE

A antropologia do tratado explica que o primeiro ser humano recebeu os mesmos componentes que o cosmos: uma parte material e uma parte psíquica.

A divisão dos humanos em três tipos se torna soteriológicamente significativa com a vinda do Salvador.

A “Eleição” (os espirituais) é concorporal e consubstancial com o Salvador, formando como uma câmara nupcial.

A igreja que desce com o Salvador e a igreja formada por humanos que o saúdam não são duas entidades distintas no sentido narrativo.

A DIALÉTICA DA PARTICIPAÇÃO MÚTUA

Há um mecanismo subjacente chamado princípio da participação mútua, envolvendo reciprocidade ou substituição na obra salvífica.

O Salvador se identifica com aqueles que vem salvar, tornando-se carne e alma, e tornando-se uma multiplicidade.

Aqueles que pertencem à essência única (a espiritual) são descritos, enquanto a economia é variável.

O Salvador era uma imagem corporal de algo unitário, a Entidade, retendo o modelo da indivisibilidade do qual deriva a impassibilidade.

A imperfeição da igreja celestial foi um desígnio da economia, que é o nome do cosmos e do plano divino de salvação.

Aquilo que veio a ser após a imagem da luz é perfeito, pois é uma imagem da luz única que existe e é a Totalidade.

Foi uma coisa boa para a economia que estava por vir, pois foi decidido que eles passassem pelas estações inferiores.

Os membros da igreja espiritual são imagens do Pleroma manifestado através do Salvador, mas sofrem de uma “doença” por serem indivíduos distintos.

Uma vez proclamada a redenção, o ser humano perfeito (o Salvador) recebeu conhecimento imediatamente para retornar à sua unidade.

A situação da necessidade de aperfeiçoamento da igreja celestial surge da lógica soteriológica da participação mútua.

Não apenas os humanos terrenos precisam da redenção, mas também os anjos, a imagem e até mesmo as plenitudes dos eons e os poderes luminosos precisaram dela.

Tendo ele recebido a redenção primeiro, através do logos que desceu sobre ele, todos os outros que o receberam puderam então receber a redenção através dele.

A redenção começou a ser dada entre os humanos que estavam na carne, com seu primogênito e seu amor, o Filho, vindo na carne.

Devido à lógica da identificação soteriológica, o próprio Salvador-Filho precisa ser redimido após ter se sujeitado à existência carnal.

Uma vez redimido o Salvador, tornando-se o tipo da redenção, o processo de redenção subsequente se desenrola como por uma reação em cadeia.

CONCLUSÃO

O Tratado Tripartite exibe o mesmo tipo de doutrina que Teodoto em relação ao corpo ou carne do Salvador como a igreja celestial que ele veste ao descer ao cosmos.

O tratado ensina mais sobre esta doutrina do que os Excertos de Teodoto revelaram, apresentando uma soteriologia baseada na simetria entre o Salvador e os salvos.