Evangelho de Filipe

THOMASSEN, Einar. The coherence of “Gnosticism”. Berlin Boston (Mass.): De Gruyter, 2021.

SOTERIOLOGIAS ORIENTAIS: O EVANGELHO DE FILIPE

A CONCEPÇÃO E A COMPOSIÇÃO DO SALVADOR

O Evangelho de Filipe descreve a concepção do Salvador e afirma que alguns se enganam ao dizer que Maria concebeu pelo Espírito Santo.

José, o carpinteiro, plantou um jardim e fez a cruz das árvores que plantou, e sua semente pendurou naquilo que ele plantou.

A virgem Maria era a mãe do Salvador, sendo sua concepção imaculada e não realizada pelo Espírito Santo.

Adão veio a existir a partir de duas virgens: do Espírito e da terra virgem, razão pela qual Cristo nasceu de uma virgem para retificar a queda que aconteceu no princípio.

O CONTEXTO RITUAL DA GERAÇÃO DO CORPO DO SALVADOR

O Evangelho de Filipe mostra o mesmo padrão básico dos outros textos do grupo oriental: o Salvador é um ser espiritual em um corpo material.

Enquanto os tratados sistemáticos descrevem fases sucessivas (visão de Sofia, emissão da semente espiritual, assunção da semente como corpo e descida, unificação futura na câmara nupcial), o Evangelho de Filipe parece colapsar todas essas fases em um único evento.

A passagem sobre “José, o carpinteiro” funde o tema da encarnação com o da crucificação, combinado com a história do Jardim e o óleo sacramental através do simbolismo da cruz.

O Senhor realizou tudo na forma de um mistério: batismo, unção, eucaristia, redenção e câmara nupcial.

Há uma correspondência entre os atos rituais e os atos redentores realizados pelo Salvador.

Relatos sobre o batismo implicam conotações com a encarnação/descida do Salvador ao mundo e com sua morte.

Ao contrário do batismo, a unção não recapitula toda a obra da salvação, mas representa apenas seu desfecho triunfante.

Há uma assimetria na relação entre batismo e unção, relacionada a uma ambiguidade nas noções sobre o próprio Salvador.

O ritual de iniciação deve ser visto como uma unidade, que tanto como um todo quanto em cada um de seus atos individuais representa toda a obra da salvação.

O Salvador precisa ser concebido como o agente divino do ato salvífico e como o modelo de seu paciente humano, ao mesmo tempo em que sua encarnação, batismo/unção e crucificação/ressurreição são tratados como aspectos inseparáveis do mesmo ato.

Cada um dos elementos individuais do ritual de iniciação também pode ser associado a cada uma das fases da narrativa da salvação.

A noção de câmara nupcial não representa um evento ritual separado, mas é um aspecto implícito no processo de iniciação.

Há uma confusão geral entre símbolo e ato no Evangelho de Filipe.

A noção governante por trás dessas ambiguidades é a do compartilhamento mútuo entre o Salvador e os salvandos.

CONCLUSÃO

O Evangelho de Filipe articula o mesmo tipo de soteriologia por compartilhamento mútuo que os documentos da forma oriental do valentinianismo.