Clemente de Alexandria. Tradução da versão francesa de François Sagnard, Extraits de Théodote (Sources chrétiennes)
Os “Extratos das obras de Teodoto e da escola dita oriental, à época de Valentino” se inserem, nos escritos de Clemente de Alexandria, entre os Stromata e as Eclogae propheticae.
Nenhuma tentativa de identificar Teodoto teve êxito.
Hipólito (Ref., VII, 35) menciona um Teodoto de Bizâncio, também chamado o Curtidor, que viveu no fim do segundo século, cuja breve nota adocionista não corresponde à doutrina dos Extratos.
Tampouco se trata de Teodoto o Banqueiro (Ref., VII, 36), discípulo do primeiro.
A questão sobre a natureza do corpo de Jesus divide os valentinianos em duas escolas, chamadas respectivamente “oriental” (anatolike tis didaskalia) e “itálica” (italiotike).
A escola da Itália, à qual pertencem Heracleon e Ptolemeu, ensina que o corpo de Jesus nasceu psíquico: por isso, no momento do batismo, o Espírito (to Pneuma), isto é, o Logos da Mãe do alto, da Sabedoria (Sophia), desceu sob a forma de uma pomba.
A citação atribuída à escola itálica é: “Aquele que despertou o Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais” (Rom., 8, 11), interpretando “corpos mortais” como naturezas psíquicas.
A escola do Oriente, à qual pertencem Axionicos e Bardesiane, sustenta que o corpo do Salvador era pneumático: “O Espírito Santo” (Pneuma), isto é, a Sabedoria (Sophia), veio sobre Maria; “a dynamis do Altíssimo” (Lc., I, 35) é a arte do Demiurgo, que veio modelar o que o Pneuma havia dado a Maria.
No sistema valentiniano subsistem duas substâncias possíveis: a substância psíquica, que compõe a alma dos cristãos ordinários, e a substância pneumática, espiritual, que constitui o verdadeiro “eu” do “eleito” valentiniano, feita de pneuma divino sob a dependência do Pneuma hagion, o Espírito Santo, que é também Sabedoria.
Teodoto seria partidário da escola dita “oriental”, e os dois termos do título do recueil devem provavelmente ser reunidos, confirmação já oferecida pelo primeiro Extrato, que apresenta em Jesus um corpo feito de sementes pneumáticas oriundas da Sabedoria e assimiladas a ela.
Teodoto é discípulo de Valentino, cujo ensino se situa entre 140 e 160.
Representa uma ramificação distinta da de Ptolemeu ou Heracleon, notadamente pelo traço do Cristo nascido da Mãe, atribuído ao próprio Valentino por Irineu (Adv. Haer., I, 11, 1).
Sua doutrina apresenta curiosa afinidade com a de Marcos o Mago, que vinha do Oriente antes de subir o vale do Ródano (por volta de 170, no mais tardar 180, data em que Irineu o refuta).
Teodoto pode assim ser contemporâneo de Ptolemeu e ter ensinado por volta de 160-170.
Os Extratos de Teodoto constituem uma das fontes importantes da gnose valentiniana, ao lado de outras obras do mesmo corpus.
As fontes paralelas são: a Carta de Ptolemeu a Flora, o Comentário do Prólogo joanino (Adv. Haer., 1, 8, 5), o Comentário de Heracleon sobre o Evangelho de João, o sistema de Marcos e os fragmentos esparsos de Valentino.
A Grande Notícia de Irineu (Adv. Haer., 1, 1-8, 4), examinada criticamente, representa o ensinamento de Ptolemeu e tem a vantagem de oferecer uma exposição contínua não encontrada em nenhum outro lugar.
Os Extratos de Teodoto são de interpretação particularmente difícil, tanto por sua natureza — notas de caderno, destacadas do contexto — quanto pelas reflexões de Clemente de Alexandria que neles se inserem, por vezes tão perfeitamente que o ponto de sutura mal se distingue.
Casey (The Excerpta ex Theodoto of Clement of Alexandria, Londres, 1934, p. 4) descreve o material como tendo a natureza de um caderno ou álbum de recortes, contendo em parte citações diretas de obras filosóficas e gnósticas, em parte resumos de leituras, em parte tentativas independentes de exegese, crítica ou construção teológica.
A primeira tarefa consiste em separar do conjunto o que é de Clemente — cerca de um quarto do recueil — e depois pesquisar as características da doutrina exposta nos demais Extratos, o que levanta a grave questão da unidade de seu autor.