Cervo e Serpente

Henri-Charles Puech. Sur le manichéisme et autres essais. Paris: Flammarion, 1979.

A análise aprofundada do mosaico do batistério de Henchir Messaouda (Tunísia) parte da constatação de que a cena ali representada — dois cervos lutando contra serpentes e flanqueando uma árvore — é demasiadamente particular para não merecer uma reinterpretação de seu simbolismo.

O cervo figura frequentemente em batistérios antigos, seja a beber em cântaros ou fontes, seja ao lado de piscinas baptismais, sendo que esta imagem está geralmente associada ao Salmo 41.

Apesar da unanimidade em reconhecer nos quatro cursos d'água a imagem dos rios do Paraíso e na parelha de cervos o emblema dos catecúmenos, o detalhe da vegetação pode introduzir ambiguidades sobre a referência específica ao batismo ou à eucaristia.

A presença de uma árvore no mosaico de Henchir Messaouda, em vez de um montículo ou um cálice, insere a composição em uma série de outras representações africanas onde um arbusto ou uma árvore acompanha o cervo.

A ligação do cervo a serpente, um detalhe iconográfico pouco frequente, revela-se o elemento mais significativo do mosaico, permitindo restringir o campo da hipótese interpretativa.

A literatura antiga, tanto pagã quanto cristã, é unânime em descrever a inimizade instintiva e recíproca entre o cervo e a serpente, fazendo do duelo entre os dois animais um lugar-comum.

A exegese cristã desenvolve um rico simbolismo a partir da luta do cervo contra a serpente, aplicando-o a Cristo, aos santos, aos ascetas e, sobretudo, aos catecúmenos que se preparam para o batismo.

O versículo do Salmo 41 (Sicut cervus desiderat ad fontes aquarum) é entoado durante a vigília pascal e de Pentecostes, no momento exato em que os catecúmenos se apressam em direção aos fontes batismais.

O mosaico de Henchir Messaouda, por estar localizado à beira da própria cuba batismal, só pode ter sido destinado a representar simbolicamente uma fase do rito de iniciação.

A pomba que sobrevoa o cervo no mosaico evoca o Espírito Santo, que desce sobre as águas batismais para fecundá-las e que habita o novo iniciado após a confirmação.

A árvore que flanqueia os dois cervos é identificada como a Árvore da Vida, cuja significação remete à eucaristia, o sacramento que coroa a iniciação batismal.

A pintura da capela XVII de Baouít, que representa um cervo enlaçado por um serpente, é aproximada da mosaico tunisiana, mas seu contexto monástico egípcio sugere uma interpretação diferente, centrada na figura do asceta e do diretor espiritual.