Henri-Charles Puech. Sulle tracce della Gnosis. Ι. La Gnosis e il tempo. II. Sul Vangelo secondo Tommaso. Milano: Adelphi, 1985
A definição de Harnack e a reação de Lietzmann sobre a essência do gnosticismo
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Em 1886, Adolf Harnack definiu o gnosticismo como uma “secularização levada ao grau extremo”, uma “helenização radical e prematura do cristianismo” com rejeição do
Antigo Testamento, ao passo que o sistema católico representaria uma helenização gradual conservando o
Antigo Testamento.
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Em 1932, Hans Lietzmann contrapôs à fórmula de Harnack a ideia de que a gnose seria também uma “reorientalização igualmente extrema do cristianismo”, uma regressão às suas origens orientais.
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Passa meio século de pesquisas entre a concepção de Harnack e a fórmula que a nega radicalmente, período no qual se delineia uma antítese entre ver no gnosticismo um “modernismo” ou um “arcaísmo”, entre helenismo e Oriente.
As dificuldades e fontes para o estudo do gnosticismo
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O gnosticismo é um dos problemas mais complicados para o historiador das religiões, permanecendo extremamente obscuro inclusive para os especialistas, pois se relaciona com a história da Igreja, o judaísmo, os mistérios helenísticos, as religiões orientais e o sincretismo da era cristã.
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A “variação” é a lei mesma do gnosticismo, existindo uma infinidade de sistemas frequentemente no interior de uma mesma escola, o que torna problemático operar com a Gnose como um todo.
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As fontes para conhecer o gnosticismo dividem-se em cinco grupos: os primeiros escritos cristãos (II Pedro, epístolas deutero-paulinas, Inácio de Antioquia,
Pastor de Hermas); os escritos dos heresió
logos a partir de 140 (Justino,
Ireneu de Lião,
Hipólito de Roma,
Epifânio de Chipre); citações na literatura eclesiástica (Clemente Alexandrino,
Orígenes); autores pagãos (Celso, Plotino, Porfírio, Zósimo); e escritos gnósticos em copta do final do II ou início do III século (Pistis Sophia, Livros de Jeú, Apócrifo de João).
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Do conjunto, sabe-se sobre o gnosticismo sobretudo por testemunhos indiretos e quase sempre polêmicos, pois os documentos diretos são poucos e tudo o mais se reduz a uma pequena quantidade de citações.
A imagem tradicional do gnosticismo conforme a documentação antiga
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A documentação antiga, especialmente a eclesiástica, faz da Gnose uma “heresia” cristã nascida com o cristianismo e no interior da Igreja, tendo sido os demônios os responsáveis por suscitar esses insensatos que ousam se orgulhar do título de cristãos.
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Segundo a tese fundamental dos heresió
logos, essa heresia nasceu da contaminação do cristianismo pela filosofia grega, de modo que uma seita gnóstica seria um pitagorismo, um platonismo ou um cinismo que se presume cristão.
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Todavia, os mesmos documentos mencionam gnoses sem caráter cristão (
ofitas, cainitas) e consideram que os primeiros gnósticos (Dositeu, Simão Mago, Menandro) não reservam lugar ao cristianismo em seus sistemas, sendo Saturnino, discípulo de Menandro, o primeiro a mencionar
Jesus.
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A Gnosi teria surgido na Samaria e na Ásia Menor, tendo como berço a Síria, difundindo-se para o Egito no tempo de Adriano (entre 117 e 138) e propagando-se para Roma, onde
Valentino chega por volta de 165 e Marcelina importa o carpocracianismo.
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Os heresió
logos esforçam-se para fazer remontar todo o gnosticismo a Simão, o Samaritano, chamado de “pai de todas as heresias”, mas os nexos por vezes revelam algo de artificial e se quebram.
Os temas dominantes dos sistemas gnósticos
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Nas gnoses mais primitivas, encontram-se o
Pai e a Mãe (Pensamento do
Pai), sendo que a Mãe cai na matéria onde é retida por Arcontes criadores do mundo inferior e dos homens, cabendo ao próprio
Pai descer para salvar seu Pensamento decaído e prisioneiro.
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Uma tendência geral caracteriza toda forma de gnosticismo: seu antijudaísmo mais ou menos pronunciado, identificando o chefe dos Arcontes com o Deus criador da Gênese (Ialdabaoth ou Sabaoth), ao qual se contrapõe o Deus Bom,
Pai transcendente ou “ignoto”.
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O dualismo, a elevação do
Pai a uma transcendência absoluta, a emanação de eons, o drama da queda de Sophia, o papel central da Mãe e dos sete Arcontes, o antijudaísmo e o “antinomismo” (revolta contra a Lei) constituem os traços salientes da Gnose.
O problema literário e histórico da pesquisa moderna sobre o gnosticismo
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O problema da Gnosi entra em uma fase de renovação com Harnack (e já em 1865 com o estudo crítico de Lipsius sobre as fontes de
Epifânio), sendo um problema duplo: literário (valor da documentação patrística) e histórico (origem e desenvolvimento do gnosticismo).
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Eugène de Faye representa a tendência crítica extrema, propondo fundamentar-se unicamente nas citações diretas dos Padres para construir uma representação autêntica do pensamento gnóstico, e insistindo no caráter polêmico e deformador da maioria dos documentos.
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Consequentemente, o gnosticismo é inserido ainda mais profundamente no coração do cristianismo: Basilide e
Valentino seriam os primeiros teó
logos cristãos, os únicos grandes teó
logos do segundo século, que conceberam o projeto de fazer do cristianismo uma religião universal sob o influxo combinado do pensamento paulino e do helenismo.
A revolução operada pelos métodos comparativos (Reitzenstein, Bousset)
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A partir do início do século XX, uma nova onda de pesquisas (Wilhelm Anz, Richard Reitzenstein, Wilhelm Bousset) contrapõe ao gnosticismo de essência filosófica um gnosticismo como movimento religioso, mitológico e teosófico, colocando antes o que de Faye punha depois.
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Investiga-se no Oriente a origem dos mitos e rituais que tardiamente receberam uma pátina superficial de helenismo e de cristianismo, negando inicialmente qualquer relação íntima entre cristianismo e gnosticismo, e substituindo a imagem da Gnose como ramo cristão pela de duas correntes independentes.
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Os termos gregos “gnosis”, “hoi en gnosei ontes” e “ho gnosin eschekos” são estranhos ao gênio grego e só podem ser explicados como transcrições de expressões ou ideias orientais, havendo uma “gnose pagã” cujo significado absoluto não provém do helenismo.
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A Gnose é um “mysterion” no sentido antigo: conhecer a si mesmo, possuir a gnosis do “Anthropos” significa saber-se ao mesmo tempo decaído e imortal, confrontando a própria essência espiritual com a miséria do mundo dominado pela Heimarmene (Fatalidade absoluta) e pelos Arcontes.
A origem oriental e a questão do mandeísmo como gnose pré-cristã
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A solução do problema da origem do gnosticismo é buscada no iranismo: o dualismo radical entre Luz e Trevas, a
trindade de Ahura Mazda, Spenta Armaiti e Gayomart, o mito da queda do Homem, a teoria das hipóstases (Amahraspanda) e o tema da ascensão através dos planetas (presente nos mistérios de Mitra) são apontados como protótipos dos mitos gnósticos.
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A Gnosi primitiva teria sua berço na baixa região babilônica, depois na Ásia Menor e na Síria, com a figura central da Mãe correspondendo ao modelo universal da Deusa Mãe (Atargatis, Astarte, Afrodite síria, Istar, Anahita).
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Além disso, identifica-se um estrato judaico na Gnose: o antijudaísmo e a assimilação dos Arcontes aos arcanjos israelitas derivariam de uma “Gnose judaica” anterior, surgida da helenização do judaísmo na Diáspora e das especulações apocalípticas sobre o
Filho do Homem (bar enasa).
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O contato com o cristianismo seria relativamente tardio e superficial: Saturnino é o primeiro a anexar
Jesus ao sistema, e mesmo em Basilide e
Valentino essa incorporação aparece como um acréscimo exterior, sendo que o Cristo pré-existente e pneumático se manifesta através de um corpo ilusório (docetismo).
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Para Bousset, a Gnose teria quase nada a ver com o cristianismo, sendo um movimento anterior e externo que representa uma regressão, uma tentativa de orientalização do cristianismo, não de helenização.
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Posteriormente, pensou-se encontrar uma gnose pré-cristã no mandeísmo (seita dos “Subba” ou “batistas” da Baixa Mesopotâmia), cujos livros sagrados (Ginza, Livro de João, Qolasta) apresentariam o esquema dos mitos gnósticos mais arcaicos com um dualismo nítido, um Salvador pré-existente (Manda d-Hayye, Anos Uthra) e um batismo que revela as senhas para atravessar os postos de guarda planetários.
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Chegou-se a propor que o cristianismo seria uma espécie de heresia do mandeísmo, invertendo completamente as partes: o próprio
Jesus teria sido inicialmente discípulo de João Batista, e o epiteto de
Filho do Homem seria explicado pelo mito iraniano e mandeu do Homem Primitivo.
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No entanto, críticas posteriores (Lietzmann, Burkitt) demonstraram que o mandeísmo é atestado somente no V ou VII século, dependente da tradição evangélica, do marcionismo e do maniqueísmo, não podendo servir como chave para o enigma gnóstico.
A descoberta de Medinet-Madi e as perspectivas futuras
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A descoberta em 1930, em Medinet-Madi (Fayum), de uma biblioteca do IV século contendo escritos maniqueus em copta ainda inéditos (Carl Schmidt e Hans Jakob Polotsky) faz esperar uma revolução no conhecimento dos movimentos religiosos da Ásia ocidental.
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O maniqueísmo é uma gnose nascida em parte dos gnosticismos mencionados pelos heresió
logos, e pode-se estar diante de uma virada decisiva na história do problema do gnosticismo.