Há convergência de indícios que sustentam a identidade entre os dois personagens chamados Ptolemeu — o mestre da mulher em Justino e o mestre
valentiniano autor da carta a Flora: nome, função docente, época, lugar e relação de ensino privado com uma dama de elevada condição social coincidem, e o tema central da carta — o divórcio segundo as leis do
Antigo Testamento — corresponde precisamente à situação descrita em Justino 2.2.
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O Ptolemeu
valentiniano viveu em Roma no século II; o nome aparece apenas 13 vezes no CIL 6
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H. Langerbeck (“Aufsätze,” 174) considera que Ptolemeu pode ter chegado a Roma com
Valentino já na década de 130
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Sobre a tese de identidade, cf. G. Lüdemann, “Zur Geschichte,” 101 e ss., n. 41, com bibliografia desde Harnack
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O terminus ad quem para a atividade de Ptolemeu é a redação do Adversus Haereses de
Ireneu
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O tema do divórcio ocupa posição inicial na carta (Panarion 33.4.4–10), antes mesmo da discussão teórica em 33.5
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O reconhecimento de Ptolemeu por Justino como mestre cristão não contradiz a identificação valentiniana: nas Apologias 1 e 2, especialmente em 1.26, Justino ainda não classifica os
valentinianos como hereges; apenas cerca de dez anos depois, no Diálogo com Trifão 35.5 e ss., os combate como tais
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Ptolemeu aborda a questão do divórcio de modo a justificá-lo como concessão à fraqueza humana: a lei divina o proíbe, mas Moisés o permitiu para evitar mal maior, preferindo o divórcio à corrupção resultante de uma união forçada e torturante.
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A passagem central da carta formula que Moisés “quis pôr fim a essa relação infeliz na qual eles [o casal separado] viviam e pelo qual corriam o risco de se corromper; por conta própria, deu-lhes um segundo mandamento sobre o divórcio, a fim de trocar, por necessidade, um mal maior por um menor” (Panarion 33.4.7 e ss.)
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O divórcio aparece como preferível a ser “forçado, por um casamento torturante, à injustiça e à maldade, do que poderia resultar completa corrupção” (Panarion 33.4.9)
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A lei divina é apresentada em oposição ao permissivo mosaico, sendo este último justificado pela debilidade (astheneia) humana (Panarion 33.4.6)
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Embora Ptolemeu não retire conclusões práticas diretas de sua exposição teórica sobre as leis bíblicas do divórcio, a mulher de Justino 2.2 efetivamente tomou a decisão de se divorciar após longa paciência — o que, se a identidade for confirmada, esclarece o papel de Ptolemeu no caso e torna compreensível a fúria do marido contra ele.
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A carta a Flora é descrita como excessivamente cautelosa em suas conclusões práticas
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A correspondência entre a exposição teórica da carta e a situação concreta narrada em Justino 2.2 reforça a hipótese de identidade
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Se a identidade entre Flora e a mulher de Justino 2.2 for confirmada, emerge um dado sociocultural adicional: Ptolemeu pressupõe em Flora elevada capacidade reflexiva, pois ela já havia por conta própria identificado as divergentes interpretações cristãs sobre o
Antigo Testamento e a contraditoriedade dos ensinamentos — revelando-se uma mulher culta e intelectualmente engajada.
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Caso a identidade não se confirme — hipótese considerada improvável —, Flora, destinatária da carta valentiniana, constitui por si só testemunho de mais uma dama romana de considerável condição social no ambiente cristão do século II.
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A hipótese de não-identidade é avaliada como improvável, mas não descartada
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Em qualquer caso, Flora representa uma mulher romana de status elevado no contexto do cristianismo romano do século II