-
Menandro é apresentado por Justino como um dos três principais hereges ao lado de Simão e
Marcion, possuindo ideias próprias que diferem das de Simão.
-
De acordo com
Irineu, Menandro parece combinar elementos de Paulo (sobre os
anjos que dominam o mundo) com elementos de João (sobre vencer o mundo e a vida eterna já presente).
-
A ideia de que o verdadeiro Deus é desconhecido por todos, atribuída a Simão, aproxima-se mais de João do que de Paulo, pois João afirma explicitamente que o mundo e os judeus não conhecem a Deus.
-
Menandro provavelmente conhecia os escritos joaninos ou o ensino oral do autor joanino, o que situa sua doutrina nas últimas décadas do primeiro século.
-
Diferentemente dos paulinistas ligados às comunidades cristãs, os paulinistas derivados da comunidade de Simão não tinham preconceito contra o
Evangelho de João, sendo provavelmente os primeiros a aceitá-lo e usá-lo.
-
Saturnilo e Basilides, discípulos de Menandro, dependem de João ao falarem da “imagem luminosa” e da sucessão de seres divinos baseada no Prólogo Joanino.
-
Cullmann e Meeks sugerem que o círculo joanino foi ampliado pela recepção de convertidos samaritanos, indicando possíveis vínculos entre o autor joanino e a escola samaritana de Antioquia.
-
A atitude do Quarto
Evangelho em relação aos samaritanos é surpreendentemente favorável, mostrando
Jesus pedindo bebida a uma samaritana, convertendo muitos numa vila da Samária e refugiando-se numa cidade samaritana.
-
Diz-se no
Evangelho que “os campos estão brancos para a colheita” (4:35) e que os discípulos colhem o que outros semearam, indicando que os samaritanos estavam mais dispostos a receber a verdade do que os judeus.
-
O capítulo 4 retrata os samaritanos de forma mais favorável do que o capítulo 5 retrata os judeus, diferindo completamente do sentimento expresso em
Mateus 10:5.
-
H. Odeberg sugere que o capítulo 4 visa um círculo composto por samaritanos, e Bowman afirma que o evangelista quis apresentar a mensagem cristã numa forma aceitável aos samaritanos, como uma ponte entre samaritanos e judeus em Cristo.
-
O interesse pela Samária sugere que o evangelista teve vínculos com pessoas daquele país, possivelmente membros da comunidade fundada por Simão, tanto mais livremente quanto provavelmente estava fora da comunhão das próprias igrejas.
-
O pseudo-Clementino retrata a escola de Simão como derivada de João Batista, e uma tradição preservada por Eusébio afirma que João Batista foi enterrado em Sebaste.
-
A hipótese de que o autor joanino devesse ideias a Simão ou a Menandro é problemática, pois a ideia da Ennoia criadora (importante para Menandro) não se encontra em João, onde é o
Logos quem cria.
-
A ideia de ressurreição presente e vida eterna, presente tanto em Menandro quanto em João, parece tão ligada à alegria do
Evangelho joanino que dificilmente pode ser considerada emprestada.
-
A beleza da obra joanina indica que o autor inventa suas próprias ideias em vez de costurar um texto de remendos, ao passo que os samaritanos, se tivessem criado teologia tão poderosa, teriam deixado obras igualmente belas.
-
A ideia de um “profeta que há de vir”, que liga o
Evangelho joanino a um tema samaritano e alexandrino, não parece ter existido em Simão ou em sua escola, inclinando-se a preferir uma origem alexandrina.
-
Os paralelos com a literatura mandeia são mais provavelmente explicados pela influência do Quarto
Evangelho sobre o mandeísmo do que o contrário, pois a hipótese de a terminologia mandeia ser anterior à joanina baseia-se em argumentos frágeis.
-
Conclui-se que os vínculos entre o Quarto
Evangelho e as ideias atribuídas a Menandro são melhor explicados pela influência da doutrina joanina sobre Menandro do que vice-versa.
-
Irineu afirma que Menandro reivindicava ser o enviado, o Salvador, e que o batismo em seu nome dava vida eterna, mas Justino, anterior, nada diz sobre isso.
-
Justino fala de homens que “pretendiam ser deuses” pensando principalmente em Simão, e não há evidência de que Menandro tenha reivindicado ser deus ou Deus.
-
Se Menandro se atribuísse o papel de Cristo, sua religião não seria cristianismo, mas “menandrianismo”, o que contrasta com o fato de seus discípulos Saturnilo e Basilides considerarem Cristo o Salvador.
-
A expressão “batismo de Menandro” pode ter sido entendida primeiro como o batismo dado na comunidade de Menandro (diferindo apenas por ser numa comunidade cismática e não incluir a transmissão do Espírito), e depois interpretada como batismo em nome do próprio Menandro.
-
Se Saturnilo e Basilides tivessem sido batizados em nome de Menandro e depois convertidos a Cristo, deveria haver traços de polêmica contra Menandro em suas doutrinas, mas não se encontra nada disso nos relatos dos heresió
logos.
-
A acusação de magia contra Menandro seria natural por ele pertencer à comunidade de Simão, e a promessa de imortalidade poderia facilmente ser transformada em magia.
-
A afirmação de
Irineu de que Menandro acreditava que o mundo foi feito pelos
anjos é questionável, pois Justino não atribui a Simão ou Menandro uma doutrina herética da criação, sendo
Marcion quem introduziu tal doutrina.
-
Tertuliano atribui a Menandro a teoria de que o corpo humano (não o mundo) foi criado pelos
anjos, teoria que também se encontra em Saturnilo e que pode derivar de
Filon ou do judaísmo helenístico.
-
Essa teoria implica uma forte desvalorização do corpo e vincula o cristianismo de Menandro a certas correntes da filosofia grega, possivelmente inspirada pelo plural em Gênesis (“Façamos o homem”).
-
Menandro parece estar num ponto de virada: seus
anjos são criadores do corpo humano (como em
Filon) mas não necessariamente do mundo, e Deus permanece o verdadeiro Criador, embora em Antioquia o Deus do
Antigo Testamento começasse a ser descido do nível supremo aos olhos de certos cristãos.