Justino, em obra antimarcionita hoje perdida, escreveu que antes da vinda do Senhor,
Satanás não se atrevia a blasfemar de Deus porque sua condenação estava entre
parábolas e alegorias, mas depois da vinda do Senhor, ele a aprendeu claramente.
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Justino afirmou: “Antes da (primeira) vinda do Senhor nunca se atreveu
Satanás a blasfemar de Deus; como quem ainda ignorava sua (própria) condenação, por se encontrar (esta) entre
parábolas e alegorias.”
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Justino alude a Isaías 14,12ss (“Como caíste do céu, estrela rutilante…”) como uma parábola em forma trágica que representava o
diabo pela pessoa do rei da Assíria, e a Gênesis 3,14 e Isaías 27,1 sobre a condenação da serpente.
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A razão fundamental pela qual o
diabo não entendeu sua condenação nas
parábolas do AT não foi a obscuridade, mas sua má disposição, pois não há pior surdo do que aquele que não quer ouvir.
Entre o Antigo e o Novo Testamento, a diferença está entre o vaticínio e seu cumprimento, sendo Cristo o centro único, ensinado mediante tipos e
parábolas no AT e conhecido em sua pessoa no NT.
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Irineu afirma: “Si quis igitur legit de Christo… inveniet in illis… ‘thesaurum absconditum in agro’ (Mt 13,44), hoc est in mundo, absconditum in Scripturis, quia significabatur per typos et parabolas.”
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O conhecimento divino antes da vinda do Verbo era muito real, mas poucos o tinham (patriarcas e profetas), e somente após o cumprimento em Cristo as profecias têm declaração exatíssima.
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A leitura judaica da Lei e dos Profetas é como uma fábula, porque eles não possuem a chave dos mistérios e rejeitam positivamente a vinda do
Filho de Deus em carne, enquanto a leitura cristã revela o tesouro escondido no campo.
Não foi a forma de parábola que impediu os judeus de entender, pois
Jesus ensinou a mesma coisa em parábola e sem ela, e mesmo assim não logrou melhor fruto, devido à má vontade dos ouvintes.
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Mais de uma vez, os fariseus e sumos sacerdotes, ouvindo as
parábolas de
Jesus, compreenderam que ele falava deles, como na parábola dos maus vinhateiros, mas não quiseram acolher em fé o que lhes era imposto por força.
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O Salvador ensinava às vezes em parábola e outras vezes sem ela, com evidência, como no caso da parábola da figueira (Lc 13,7) e suas palavras sobre Jerusalém (Mt 23,37-38), e ainda assim não conseguia melhor fruto.
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O mistério da eficácia nas
parábolas não reside na forma do pensamento, mas no fato de que exige do homem uma resposta livre e humilde, que o indivíduo pode denegar.
ACOTAÇÃO VALENTINIANA
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Para os
valentinianos, o Salvador ensinava aos apóstolos separadamente (kata monas) em três modos: em tipos e mistérios, em
parábolas e enigmas, e clara e desnudamente, todos tendo por objeto os mistérios espirituais da gnose.
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O
valentiniano destaca o triplo ensinamento do Salvador aos apóstolos: primeiro em tipos e mistérios (typikos kai mystikos), segundo em
parábolas e enigmas (parabolikos kai enigmenos), terceiro clara e desnudamente (saros kai gymnos).
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Estas três séries de ensinos não diferiam propriamente em conteúdo, todas tendo por objeto os mistérios espirituais da gnose, mas sim em método: a via típica a partir das realidades sensíveis, a parabólica a partir da lei antiga, e a imediata por revelação direta.
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Para justificar tradições secretas, os gnósticos se acolhiam a versículos como Marcos 4,10 (“kai hote egeneto kata monas, eroton auton hoi peri auton syn tois dodeka tas parabolas”) e às revelações dos dezoito meses gloriosos do Salvador ressuscitado.
ATITUDE DE IRINEU
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Um abismo separa Irineu da ideologia valentiniana, pois para ele o conteúdo último das
parábolas deve ser buscado nos mistérios do Verbo feito carne e na economia humana de Deus, não no pleroma dos eones.
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Contra os docetas, que atribuíam ao Salvador uma existência falaz e enganosa, Irineu afirma que a Verdade (o Senhor) não mentia, nem seus discípulos agiam com hipocrisia, adotando um método que aos bem dispostos induzia ao conhecimento e aos incrédulos à maior cegueira.
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Os docetas, como nos Atos de João (“verbo illusi cuncta, et non sum illusus in totum”), passavam da falácia nos fatos ao engano nas palavras, sugerindo que o Senhor induzia positivamente ao erro.
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Irineu afirma que a Verdade, sendo o Senhor, não mentia (“Veritas ergo Dominus noster existens, non mentiebatur”) e que nem ele nem seus discípulos agiam com hipocrisia, adaptando a doutrina conforme a capacidade do ouvinte.
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O Salvador adotou um método que, às mesmas expressões divinas, agia em bem sobre os bons e em mal sobre os maus, como a chuva que na terra boa dá fruto e na má dá espinhos, ou o sol que amolece a cera e endurece o barro.
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A exegese irineana das
parábolas é sempre harmônica, conduz diretamente à sua teologia dogmática, e busca descobrir o tesouro doutrinal arraigado na tradição eclesiástica, nunca se limitando a uma interpretação meramente moral.
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O método parabólico, com sua dificuldade, solicita no crente uma fé operosa e no teólogo uma busca humilde e iluminada, de maior mérito que a simples aceitação de um magistério claro.
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Irineu jamais resvala para uma exegese moralizante ao estilo de São
Crisóstomo, buscando sempre o conteúdo dogmático digno do Salvador e arraigado na tradição eclesiástica.
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A exegese irineana das
parábolas, embora fragmentária, é sempre harmônica e restituível, perfilando uma doutrina homogênea de coerência absoluta, e qualquer alusão a elas encobre um toque dogmático precioso e às vezes genial.