Reincorporações

ANTONIO ORBECRISTOLOGIA GNÓSTICA

CAPÍTULO 34: ASCENSÃO E REINCORPORAÇÕES

A ascensão de Cristo, conforme determinadas famílias gnósticas, põe termo à metensomatose (reincorporação ou transmigração das almas de um corpo a outro), fenômeno que muitos filósofos e povos antigos admitiam e que os gnósticos justificavam com base em passagens escriturísticas.

Os simonianos simpatizaram com a reincorporação, ensinando que Ennoia (a primeira ideia pessoal do Deus supremo) andou errante de um corpo a outro de mulher, reaparecendo na Helena de Troia séculos antes de Simão a encontrar em sua homônima de Tiro.

Segundo Carpócrates, as almas devem experimentar tudo (in omni vita et in omni actu fieri) antes de se elevarem ao Deus supremo, e, como na prática são necessárias várias vidas para agotar as experiências, daí a necessidade da reincorporação até que o último quadrante seja pago.

Basílides e seus discípulos também ensinaram a reincorporação, recorrendo a passagens como Romanos 7,9a (“eu vivia outrora sem lei”) e Deuteronômio 5:9 (“Deus paga até a terceira e quarta geração aos incrédulos”) para demonstrar a preexistência da alma em corpos bestiais e a necessidade das reencarnações como castigo.

Os docetas de Hipólito descrevem o demiurgo como um “deus ígneo” (ho pyroeides theos) que, tendo por essência as trevas, estava sempre insultando os caracteres eternos de luz divina, causando grande desconcierto entre as almas até a aparição do Salvador.

Os ofitas de Irineu explicam o término da metensomatose por meio da “sessio a dextris” do Cristo animal à direita de seu pai Jaldabaote, que lhe permite receber as almas santas e enervar o demiurgo.

A “Pistis Sophia” (provavelmente os ofitas de Irineu) desenvolve uma exegese detalhada de Mateus 5:25-26 para explicar o processo da reincorporação após a vinda de Cristo, mas sob o controle da Virgem da luz.

Os basilidianos e os valentinianos oferecem duas interpretações distintas de Deuteronômio 5:9 para explicar a sorte dos homens antes do advento de Jesus, recorrendo respectivamente às reencarnações e aos “três lugares sinistros”.

A conclusão do capítulo estabelece que, ao sentar-se à direita de Iahweh, Cristo (animal) inaugura um novo regime durante o Novo Testamento, contrário ao que imperava até então, terminando com a “reincorporação” e liberando do “ciclo da geração” todos os que creram no Evangelho de Jesus.