ANTONIO ORBE — ANTROPOLOGIA DE SÃO IRINEU
CAPÍTULO XIV: A MORTE
A análise da morte como efeito do pecado de Adão parte da questão sobre se o homem foi criado mortal ou imortal, questão formulada por Teófilo de Antioquia em termos que negam ambos os extremos.
-
Cita-se Teófilo de Antioquia (Ad Autolycum II 24): “O homem foi criado intermedio, não de todo mortal nem absolutamente imortal (oute thnetos holoscherós oute athanatos to katholou), mas capaz de um e de outro; assim como seu lugar, o Paraíso, mirando a sua formosura, é intermedio entre o mundo e o céu”.
-
Cita-se Teófilo de Antioquia (Ad Autolycum II 27): “Se desde o princípio lhe houvessem criado imortal, teria sido feito deus; e, por sua vez, se lhe houvessem criado mortal, teria parecido ser Deus a causa de sua morte. Logo não o fez (Deus) mortal nem imortal, senão – como anteriormente se disse – capaz de um e de outro. E dessa forma, se o homem se inclinava à imortalidade, guardando o mandamento de Deus, receberia dele como galardão a imortalidade e chegaria a ser deus; mas se tornava às coisas da morte, desobedecendo a Deus, seria para si mesmo a causa de sua morte. Porque Deus fez o homem livre e senhor de seus atos”.
-
Para Teófilo, o imortal equivale ao divino, e um homem criado imortal seria um homem feito deus, dotado da qualidade de Deus, enquanto o mortal vale tanto como material e corruptível, abocado à corrupção e morte igual que os animais.
-
O
anthropos histórico veio das mãos de Deus capaz de se fazer deus (imortal), em corpo e alma, chegando-se a Ele, ou de se corromper chegando-se à matéria, sendo a decisão a mercê do indivíduo, livre e senhor de seus atos.
-
O acesso do homem à imortalidade não se deve à só liberdade ou ao simples exercício das faculdades físicas, mas requer um elemento divino, “o impulso de adianto” que Deus imprime em Adão ao encumbrá-lo ao Paraíso para que livremente – mas ajudado com o dom interno – suba ao céu.
Nemesio de Emesa apresenta a doutrina dos hebreus sobre o homem como nem mortal nem imortal no princípio, mas no meio de ambas as naturezas.
-
Cita-se Nemesio de Emesa (De natura hominis 1 § 32-33): “Os hebreus confessam que o homem no princípio nem mortal nem imortal foi feito manifestamente, mas no meio de ambas as naturezas de tal sorte que, se tivesse imitado as paixões corporais, incorreria nas permutações corporais; se tivesse meditado os bens da alma, seria agraciado com a imortalidade”.
-
Segundo Nemesio, se Deus no princípio o tivesse feito mortal, de maneira nenhuma o condenaria à morte quando pecasse (pois ninguém molesta o mortal com a mortalidade), e se o tivesse feito imortal, não o criaria necessitado de alimento (pois nenhum dos imortais carece de alimento corporal).
-
Metódio de Olimpo (Symposium III 7,67-68) ensina que o homem, equidistante de ambos os extremos, não é em si justiça nem injustiça, mas, plantado no meio da incorruptela e da corrupção, segundo se incline a um ou outro dos extremos, adota sua natureza de acordo com a tendência dominante.
-
Moisés Bar Cepha (De paradiso III c.5) distingue três sentenças: uns negam que Adão foi criado mortal por natureza, outros querem que foi feito mortal e imortal por natureza (referindo a imortalidade ao alma e a mortalidade ao corpo), e outros afirmam que não foi criado nem mortal nem imortal por natureza, mas em condição média.
Fílon de Alexandria distingue claramente duas classes de morte: a morte comum (física, separação da alma do corpo) e a morte por excelência (particular, característica da alma, que é a corrupção da virtude e a aquisição do vício).
-
Em
Gênesis 2:17 (“O dia em que comerdes dele, com morte morrereis”), Deus ameaça o homem com a segunda morte, própria da alma, na qual Adão incorreu com o pecado; não com a primeira, que
Fílon denomina morte natural.
-
Fílon acrescenta uma terceira morte, a do filósofo ou asceta, ou “morte pela virtude”, que tem lugar quando a alma, não obstante perseverar unida ao corpo, se aparta dos desejos e paixões carnais.
-
Taciano (Ad graecos 14) distingue três categorias de morte: a morte fácil dos que possuem corpo (comum ou natural), a morte dos que vivem mal e induzem outros ao mesmo (própria dos demônios), e a morte imortal (ou imortalidade com pena) comum aos demônios e aos homens seus sequazes após a condenação.
-
Cita-se
Taciano (Ad graecos 13): “Não é, ó gregos!, nossa alma imortal por si mesma, senão mortal; mas capaz é também de não morrer. Morre com efeito e se dissolve com o corpo se não conhece a verdade; mas ressuscita de novo com o corpo na consumação do tempo, para receber, por castigo, a morte na imortalidade. E, a vez, não morre, por mais que com o corpo se dissolva, se adquiriu conhecimento de Deus. Pois de si a alma é trevas, e nada luminoso há nela… Por isso, quando vive só (sem o espírito), se inclina para baixo à matéria, morrendo juntamente com a carne; mas formando par com o Espírito de Deus, já não carece de ajuda e se levanta às regiões para onde o espírito a guia”.
Para Taciano, a morte corpórea apenas lhe merece atenção, atribuindo à alma – não só ao homem – a mortalidade, por sua espontânea inclinação à matéria e paixões, como se a permanência no ser dependesse de sua conduta com o espírito e com a carne.
-
Taciano descreve o pecado original como perda da comunhão da alma com o Espírito, e a transgressão de Adão como separação (morte) entre o Espírito, vida da alma, e o homem por Ele alentado.
-
Adão rejeitou a imortalidade condicionada ao seguimento do
Espírito Santo, seu consorte invisível, enquanto os homens, com sua morte pela fé, venceram o thanatos (morte ao mundo mediante a fé).
-
Taciano chega a quatro espécies de morte: natural (dissolução do composto), moral (vida de vício, aplicável a demônios e homens, incluindo o pecado primeiro como separação do Espírito), ascética (morte ao mundo pela fé ou mediante a vida virtuosa), e imortal (condenação eterna comum a demônios e homens que os imitam).
Justino Mártir conhece sobretudo a morte comum (separação entre o corpo e a alma), e sob o nome de “morte” indica também a sequela do pecado como realidade física enquanto efeito da transgressão de Adão.
-
Justino ensina que os profetas anunciaram que Cristo evocará os corpos de todos os homens, vestirá com incorrupção aos dos dignos e enviará ao fogo eterno em sentimento eterno (en aisthesei aionia) aos dos injustos em companhia dos malignos demônios.
-
Cita-se Justino Mártir (1 Apologia 18,3): “Ainda depois da morte conservam os nascidos o sentimento (
aisthesis) ou a consciência. A morte não termina em anestesia (eis anaischésian)”.
-
Justino desconhece outra morte no homem fora da corpórea do composto, e só por via implícita e sem o termo thanatos se avém à existência indefinida das almas reprovas, a média distância entre a phthora e a vida de Deus.
Orígenes enumera quatro mortes (separação do corpo da alma, separação da alma de Deus, o próprio autor da morte = diabo, e o lugar do inferno onde as almas eram detidas pela morte), sendo a morte natural indiferente e desejável até pelos condenados.
-
Orígenes nunca viu na morte física o remédio do pecado, o término das más ações, um signo da benignidade de Deus para o homem que o atalha no mal obrar; a vida em carne concebia-se como castigo de uma falta prévia e como disciplina para tornar ao primeiro estado.
-
San
Ambrósio ratifica a doutrina filoniana e origeniana das três mortes, diferenciando-se de
Orígenes ao exaltar a morte física como remédio do pecado, negando-se a ver nela uma pena ou castigo.
-
Cita-se
Ambrósio (De bono mortis 2,3): “Três são os gêneros da morte: uma morte do pecado… outra morte mística, quando alguém morre ao pecado e vive a Deus… a terceira morte é pela qual cumprimos o curso desta vida, isto é, a separação da alma e do corpo. Advertimos, pois, que uma morte é má (se morrermos pelos pecados), outra morte é boa (pela qual quem foi morto foi justificado do pecado), a terceira morte é média (pois parece boa aos justos e temível aos muitos)”.
Marción e os marcionitas atribuíam a morte física ao delito (ao diabo e à imprevisão do demiurgo), ensinando também que o corpo, como matéria, não se pode salvar.
-
Para os marcionitas, o demiurgo reina mediante o pecado e a morte, enquanto Cristo reina mediante a justiça e a vida; a lei mata, enquanto o Espírito vivifica.
-
Cristo triunfou da morte mediante a própria morte em cruz, e a morte eterna a que o demiurgo havia condenado Adão foi vencida por Cristo, que arrancou ao demiurgo as almas dos defuntos que quiseram segui-lo.
-
O castigo do pecado de Adão para os marcionitas seria a “morte imortal”, a perseverança da
psyche no fogo ou castigo eterno, conforme a ideia de saúde privativa das almas, não interessando o corpo ao Salvador nem ao demiurgo.
Os valentinianos conceberam um “reino da morte” desde o pecado de Adão até a vinda de Cristo, sendo necessário que o Filho de Deus viesse em forma espiritual e animal para salvar, tirando do império da morte, as duas igrejas (espiritual e psíquica) reduzidas por ela a cativeiro.
-
Cita-se os Excerpta ex Theodoto (58): “Depois do reinado da morte, que por um lado havia feito a grande e sedutora promessa, e por outro havia resultado, não obstante, um ministério de morte; havendo declinado todo arconte e divindade (intervir contra ela), o grande lutador,
Jesus Cristo, assumiu em Si virtualmente a Igreja – o elemento escolhido (espiritual) e o chamado (animal) – salvou e levantou aos que assumiu”.
-
Para os
valentinianos, há três raças de homens (hílicos, psíquicos, pneumáticos) com mortes diferentes segundo a natureza: o hílico se resolve em seus elementos pela corrupção física; o psíquico, por ser livre, tem aptidão para a fé e incorruptela ou para a incredulidade e corrupção segundo a própria eleição; o espírito não morre nem tem princípio de corrupção.
-
O
Evangelho segundo Filipe (§ 38) afirma que os dias em que Eva estava em Adão não havia morte; logo que ela se separou dele, sobreveio a morte; se de novo torna a ele e se ele a toma em si, não haverá já morte.
-
A separação entre Adão e Eva (o masculino e o feminino no andrógino) representa gnosticamente o paradigma do pecado e da morte: o homem (andrógino) morre quando se dualiza em Adão e Eva, ao pecar Eva contra Adão dentro do homem, separando-se a humanidade sensível da invisível.
-
A transgresão de Eva, origem da morte para seus filhos ao gerá-los em terra estranha, quer salvar a distância entre o reino da unidade (onde fica Adão = Cristo) e o da multiplicidade (onde cai Eva = Sofia, mãe dos viventes), pois só juntando o divino à matéria se multiplicam os homens divinos.
Para os valentinianos, o demiurgo, em castigo à desobediência de Adão, vestiu os primeiros pais com “túnicas de pele” (Gênesis 3:21), com os corpos carnais, sensíveis e crassos que hoje se conhecem, que testemunham a transgressão como um perpétuo sambenito.
-
A imposição das túnicas (corpos carnais) responde a um fim mais alto: por seu meio se enlaça o reino do Espírito com o da matéria, servindo o demiurgo (deus psíquico) de enlace entre Deus espírito e o mundo sensível, como quem semeia gérmens divinos no agro para multiplicar indivíduos.
-
A corrupção física do elemento hílico não procede da transgressão, sendo sequela de sua índole material; a morte moral do psíquico tampouco vem do delito, embora a carne ratifique a pugna entre os dois elementos com maior pujança que na hipótese da não-transgressão.