BIBLIOTECA DE NAG HAMMADI: inglês; francês (pdf)
MEYER, Marvin W. The Nag Hammadi Scriptures: The Revised and Updated Translation of Sacred Gnostic Texts Complete in One Volume. London: HarperCollins Publishers, 2009.
The Gnostic Scriptures. London: Yale University Press, 2021.
A Realidade dos Governantes (“Hipóstase dos Arcontes”) narra o mito gnóstico, desde a criação de Ialdabaoth até Noé e o dilúvio, e conclui com uma previsão da vinda final do salvador, da destruição dos poderes demoníacos e da vitória dos gnósticos. Na primeira metade da obra, o enredo se entrelaça com o texto do Gênesis na versão grega da Septuaginta, chamando tacitamente a atenção para as discrepâncias entre o mito e as escrituras canônicas. De especial importância é um relato incomum da rebelião de Sabaōth contra seu pai satânico, Ialdabaōth, e sua eventual ascensão como senhor do sétimo céu, ou seja, como o deus de Israel (?). Etimologias eruditas e trocadilhos com nomes semíticos sugerem um contato próximo com um meio judaico ou judaico-cristão, apesar da intenção antijudaica do mito. Com exceção do parágrafo inicial, nenhum elemento claramente característico do cristianismo não gnóstico ocorre na obra. A perspectiva teológica do autor enfatiza a atividade da providência divina (“a vontade do pai”) mesmo nas ações dos governantes demoníacos, provavelmente alterando assim, em certa medida, a intenção original do mito gnóstico.
GARCÍA BAZÁN, Francisco. Gnosis: la esencia del dualismo gnóstico
Também faz parte do Códice II A Essência dos Arcontes, que, como o título indica, trata da natureza própria dos poderes que oprimem o espiritual. O relato apresentado para atingir tal objetivo apresenta grande semelhança literal com o mito dos setianos-ofitas de Irineu (Adv. Haer. I, 30,1-14). Samael (o deus dos cegos) pronuncia a frase presunçosa de Is. 46,9 aplicada a si mesmo e constrói a ordem inferior à imagem da superior, com o que o poder de pistis-Sofia chegou até o Abismo. A Incorruptibilidade gritou a Samael seu erro e mais tarde se refletiu nas águas. Os poderes se apaixonaram por ela, embora não pudessem alcançá-la. Os poderes determinam, então, criar um homem à imagem da Incorruptibilidade. Formam, assim, um homem segundo o corpo deles e a imagem celestial, pois acreditam que assim atrairão a co-imagem superior, ignorando o que é a potência divina. O demiurgo então soprou sobre o homem dos poderes e este nasceu como psíquico, mas o Espírito o viu e veio da terra Adamantina, assim ele ganhou vida. Mais tarde, trouxe-lhe os animais para que lhes desse nome, colocou-o no paraíso e deu-lhe o mandamento de Gênesis 2,16-17. Depois, lançou um sono sobre ele.
A mulher, no entanto, continuava sendo pneumática. Os poderes se apaixonariam por ela, mas não conseguiriam manchá-la. Em seguida, vem a serpente como Instrutora; graças ao seu ensinamento, eles comeram, conscientes, envergonharam-se de sua aparência carnal e o demiurgo os expulsou do paraíso com uma grande maldição. Nascem então filhos de Adão e Eva e os homens vão se tornando melhores, por isso sobrevém o dilúvio. Mas diante dele Norea pede ajuda e desce Eleleth, uma das quatro luminárias celestiais. Aqui se interrompe o relato ofítico diante de uma nova pergunta sobre os poderes (141,33; 142,2), semelhante à do início do documento. A resposta, nesta ocasião, tem a ver com a queda de Sofia, que quis criar um mundo sem a colaboração de seu par. O resultado dessa ação foi uma sombra que se tornou matéria, e a forma é uma obra na matéria. Samael e sua geração. Sabaoth se arrepende, mas vê Sofia, sente inveja e assim surgem os poderes inferiores. Estes, no entanto, são impotentes contra os filhos da Luz. E todas as coisas constituem um reflexo que se desenvolve de acordo com o desígnio do Pai do Todo. O documento, portanto, oferece dois momentos que são dois níveis expositivos sobre o mesmo tema: a explicação da escravidão do puro. A primeira resposta é por meio do mito mais arcaico (ofítico) e a segunda, uma exposição mais recente e analítica (valentiniana).