Gnosticismo

Francisco García Bazán. GNOSIS: la esencia del dualismo. Madrid: Editorial Trotta, 1997.

DEFINIÇÃO DO GNOSTICISMO

O enfoque fenomenológico é considerado o método mais completo para abordar uma definição do gnosticismo, pois permite que o fenômeno se dê em sua pureza fáctica e revele o que é.

O Colóquio de Messina (1966) estabeleceu definições precisas para os termos gnosis, gnosticismo, pregnosticismo, protognosticismo, gnóstico e gnostizante, buscando um consenso cientificamente válido.

O gnosticismo é uma concepção religiosa profunda, um modo de compreensão da relação homem-Deus de tendência mística e enfoque metafísico, que sublinha a nota doutrinal em detrimento dos aspectos ético e ritual.

GNOSIS

O gnóstico é o que possui a gnosis, um conhecimento que escapa aos normais análises racionalistas e cujo correlato é o Si-Mesmo: a intimidade infinita ou espiritual da pessoa, que é o verdadeiro e simples.

A gnosis tem sido definida corretamente como conhecimento salvador, encerrando em si quanto possa saber-se e dizer-se sobre a realidade, conforme consignado nos próprios documentos gnósticos.

O MITO GNÓSTICO

O gnóstico deve expressar a gnosis, e devido à alta e nova qualidade da experiência espiritual que o inspira, sente-se forçado a lançar mão de quantos elementos lhe possam ser eficazes para manifestar sua insólita percepção religiosa, encerrando dois elementos simultâneos e complementares: o mito e o discurso.

DIVINDADE SUPREMA

O Deus gnóstico é uma divindade transcendente cuja transcendência se define por sua total estranheidade e incompreensibilidade a respeito do mundo, estando mais além da existência e da essência, sendo um deus desconhecido.

PLEROMA

Pleroma é a realidade ou universo saído imediatamente das mãos de Deus, a manifestação da Divindade transcendente que precede toda manifestação visível e perecível, constituindo tanto a plenitude de Deus como o que plenifica ou dá realidade aos seres cambiantes do cosmos.

QUEDA PLEROMÁTICA

O gnóstico concebe ontologicamente a realidade como uma totalidade constituída por três planos superpostos: Deus Pai ou Divindade Suprema, Deus Filho ou mundo espiritual e mundo psico-físico ou perecível, percebendo que o cosmos psico-físico não cumpre devidamente sua função de ser um reflexo do cosmos espiritual.

DEMIURGO

À cabeça do universo caótico há um ser que o personifica e dirige, o foco que concentra a totalidade das forças do erro que dão sua organização a esse caos estável, sendo a mais alta representação invisível desse cosmos caído o Deus no qual creem os homens desse cosmos.

PNEUMA NO MUNDO

Quando alguém, livre das ataduras inferiores, determina-se totalmente pela verdadeira sabedoria, esse homem intui, fala e age segundo o aspecto real da sabedoria, mirando pneumaticamente e não psíquica e carnalmente, sendo tais homens os menos entre os homens.

SALVADOR

Quem busca o caminho da gnosis não se sente só, pois quem verdadeiramente é capaz de reincorporar ou endireitar o cosmos e colocar cada realidade em seu justo lugar é o que conhece verdadeiramente, o gnóstico, e quem dotado de semelhante sabedoria cumpre tal tarefa manifesta múltiplas virtualidades.

DUALISMO

O gnóstico, devido à atitude fundamental que o enfrenta com o mundo, tem que ser um dualista, não no sentido de um dualismo de princípios, mas sim de um dualismo que expressa a rejeição de um mundo que em si mesmo se encontra irremissivelmente perdido.

RETORNO

O reencontro consigo mesmo, uma vez cumprido, é o Si-Mesmo eterno e imutável, a recuperação da Realidade como um reingresso naquilo de que o homem se afastou, a volta ao ponto de partida verdadeiro, realizado segundo uma dupla perspectiva: individual e coletiva.