O Salvador desce em quem não lhe resiste, como o
Filho não resiste ao
Pai, pois um filho confia e necessita do pai e não o contrário; ouvindo a Palavra e pelo conhecimento que ela engendra, vive-se a Vida e as opressões desaparecem, o ouvir muda em falar e o sono em vigília, manifestando-se o Reino.
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É mais difícil o retorno ao Reino do que o descenso à impureza do homem de luz; se o Salvador desceu para atendê-los, agora devem ser ativos para seguir sua ascensão.
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São invejáveis os que não precisam da mediação do
Filho — sabem que o Reino lhes é próprio, como aos cidadãos a sua cidade.
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A alma deseja salvar-se, mas o espírito é quem salva; salvos ambos, o corpo não peca, pois o espírito vivifica a alma e o corpo a mata, autodestruindo-se ela; o pecado da alma não será perdoado nem os revestidos de carne se salvarão, pois são poucos os que encontram o Reino.
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O Reino é como uma espiga que amadurece, expande o fruto e enche o campo para o ano vindouro; quem conhece descobre em si a espiga de vida que deve colher; a presença sensível do Senhor ou seu recordar são acessórios — inclusive não tê-lo conhecido como Salvador.
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Pedro vacila e o Senhor ratifica: a fé nele e em sua revelação não salvam, mas o conhecê-lo; a quem descubra o Reino, nem o
Pai poderá excluir, pois possuída a gnose, não se perde.
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Ao ascender num carro espiritual, despojado de carne e psique, o Senhor se revestirá de espírito; são eminentemente
bem-aventurados os que pregaram a boa notícia antes do descenso do
Filho, pois possuíam sua proclamação antecipada no
Pai.
O Senhor parte; Tiago e Pedro participam gnosticamente da ascensão celestial por graus, mas quando o espírito chega à Grandeza nada podem ver nem escuchar, por falta de preparação mais elevada, e a visão gnóstica se conclui nesse instante.
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Interrogados pelos demais discípulos, confirmam a ascensão, a promessa da Vida e o anúncio de novos rebentos a serem amados para que se salvem; os discípulos creem na revelação mas se irritam com a notícia dos que hão de vir, e Tiago os envia a lugares diferentes, dirigindo-se ele mesmo a Jerusalém para pedir fazer parte dos amados que se manifestarão.
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Tiago roga que a nova geração cresça a partir do destinatário da carta, para que ele próprio possa salvar-se.
Originalidade e Data do Escrito
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O Apócrifo ou Carta Esotérica de Tiago encerra a doutrina gnóstica essencial e fornece indícios sobre a existência de uma comunidade gnóstica cuja superioridade cristã é reconhecida pela orientação jacobita — mais compreensiva que a petrina —, fundada no conhecimento que revela a natureza pneumática do Salvador e não na simples proximidade histórica.
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Essa tese entra em fricção com o conceito eclesiástico de tradição, baseado na Escritura, na profecia e na tradição apostólica, e favorece a da tradição secreta baseada na sucessão dos eleitos, que é o marco obrigatório da exegese espiritual.
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A afirmação de que o
evangelho é a mensagem do advento do Reino — como enuncia o início de Marcos —, o uso do gênero do diálogo em relação à tradição dos ditos do Senhor para expor a doutrina esotérica, presente em outros textos gnósticos antigos como o
Evangelho de Tomé e o Diálogo do Salvador, e em João, sugere que a redação do escrito é anterior a meados do século II.