Biblioteca de Nag Hammadi: The Three Steles of Seth; Les Trois Stèles de Seth
GARCÍA BAZÁN, Francisco. Gnosis: la esencia del dualismo gnóstico
O original é composto por três hinos que Seth, o pai da linhagem dos homens espirituais, lhes transmitiu. Trata-se de três louvores ao nous não pronunciado. No primeiro, ele é honrado como o Homem, o Auto-gerado e o Hestós, de quem provêm os Eons, aos quais ele subjaz como unidade e a quem apenas os perfeitos conhecem (118,24-121,17). No segundo hino, ele é glorificado como Barbelo e primeiro resplendor do Pai invisível e inessencial. Assim, é a primeira Mônada e cabeça dos Eons ( = Eon por excelência) e, por isso, tripla possibilidade de ser, vida e conhecimento que se revela nos Eons pleromáticos (121,18-124,15). Finalmente, no terceiro hino, ele é cantado da mesma forma como o Espírito cujo conhecimento realmente salva e a quem é difícil dar um nome, uma vez que cabe ao Pai nomeá-lo. Este é o seio silencioso no qual é necessário entrar para se tornar perfeito; a partir dele, é necessário dar graças descendo através dos Eons e, a partir destes, descer entre os perfeitos para derramar essa bênção neste terceiro nível. Esta é a razão pela qual, segundo este escrito, o caminho ascendente e o descendente são o mesmo (124,16-127,27).
Tradução de P. Claude, in BCNH, n.° 8, 1983.
Para este tratado, como para Zostriano e o Alógeno, Deus tem tripla natureza: ele é Existência, Vida e Espírito. O texto propõe três “estelas” para comemorar essa tripla natureza. Parece que a ideia da estela deriva de lenda judaica relativa à descendência de Set. Segundo Flávio Josefo, com efeito, Set foi o antepassado por meio do qual a primeira revelação de Deus, feita a Adão, foi transmitida ao mundo: o midraxe de Gênesis 4,25 e 5,3-8 faz dos descendentes de Set astrólogos que sabiam que haviam ocorrido dois cataclismos, um de fogo e outro de água; então, eles escreveram seus conhecimentos em duas estelas, uma de tijolo para escapar do fogo e outra de pedra para subtraí-la à água.
O fio central das três estelas é o seguinte: Dositeu, detentor da revelação de Set, descreve, sob a forma de prece hínica, a ascensão progressiva do extático através dos três níveis da natureza divina.
O fim do texto precisa que o caminho da ascensão é o mesmo da descida.
A primeira estela (p. 118,15-121,17) avança interessante evocação dos quatro tipos de seres que manifestam o Autógeno: o do mediador, o do mediador identificado com o fogo, o dos Setianos primitivos e o dos setianos atualmente na deficiência:
Tu és misericórdia e tu és alguém de outro tipo — e ele está estabelecido sobre outro tipo. Agora, no entanto, tu és alguém de outro tipo e ele está estabelecido sobre outro tipo. “Tu és alguém de outro tipo” quer dizer “tu não és (semelhante); “tu és misericórdia” quer dizer ”(tu) és eterno“; “tu estás estabelecido sobre um tipo” quer dizer “foste tu quem fez com que todos eles crescessem”; “por minha semente” quer dizer “és tu quem sabe que ele está estabelecido no criado”; “aqueles saíram de outras gerações” quer dizer “eles não são semelhantes” e “eles estão estabelecidos sobre outras gerações” quer dizer “eles estão estabelecidos na Vida” (p. 119,34-120,15).
A segunda estela (p. 121,20-124,14) é consagrada a Barbela, aquela que viu o Preexistente e gera os verdadeiros existentes. As p. 123,2-124,1 a exaltam de modo litânico:
E tu saíste em sua direção e, por seu intermédio, tu te dispersas (entre eles) e te tornas o Primeiro Revelado, Grande (Intelecto) macho. O Deus-Pai, ó Filho-Deus! ó Gerador de quantidade segundo a divisão de todos os verdadeiros existentes. Tu revelaste a todos uma palavra e tu manténs a todos sem colocá-los no mundo (e) em eternidade indestrutível. Através de ti chegou até nós a Salvação: de ti provém a Salvação, tu és Sabedoria de Gnose. Tu és a Verdade: a Vida vem através de ti, de ti provém a Vida. O Intelecto vem através de ti, tu és o Intelecto, tu és o mundo da Verdade. Tu és a Tríplice Força, tu que és triplicemente duplo, na verdade tu és duplo três vezes. Ó Eão dos Eões, somente tu vês puramente os primeiros eternos e os incriados. E as primeiras divisões foram tais que tu te dividiste. Reúne-nos tal como foste reunido. Ensina-nos (o) que tu vês. Dá-nos força para que sejamos salvos para a Vida Eterna.
A terceira estela (p. 124,17-126,17) é consagrada à hipóstase suprema, o Incriado. Eis o início da estela, com a alegria do êxtase:
Nós nos rejubilamos! Nós nos rejubilamos! Nós nos rejubilamos! Nós vimos! Nós vimos! Nós vimos aquele que é o Preexistente real, que existe realmente, que é o Pré-eterno (p. 124,17-21).
O texto termina com uma exortação final (p. 127,21-26):
Sabei portanto, todos os vivos, que haveis chegado ao fim e, vós próprios, haveis recebido os Ilimitados em ensinamento. Maravilhai-vos da verdade que está neles e nesta revelação.
Este texto transmite sob forma litúrgica alguns elementos filosóficos do neoplatonismo e da exegese judaica inter-testamentária. Sua elaboração pode ser situada em torno de meados do século III. O próprio Dositeu, apresentado como intermediário da revelação, é conhecido como fundador algo lendário de corrente gnóstica, nas pegadas do “samaritano” Simão, o Mago.
O Códice VII conclui com admirável nota do escriba (p. 127,28-32), impregnada com o fervor desses humildes empreendedores da transmissão escrita:
Este livro é um bem paternal. Foi o filho quem o escreveu. Abençoa-me, Pai! Eu te abençoo, Pai, em paz! Amém.
MEYER, Marvin W. The Nag Hammadi Scriptures: The Revised and Updated Translation of Sacred Gnostic Texts Complete in One Volume. London: HarperCollins Publishers, 2009.