A unidade entre figuras tão diversas se funda no chamado de Cristo e no amor de Jesus, que as reúne e une a todos nEle.
Figuras como Antão, o Grande, Isaac de Nínive, os carmelitas espanhóis e Edith Stein estão separados pelo tempo e espaço, mas ligados pelo mesmo chamado.
Aprender a língua deles é uma forma de conviver com uma proximidade maior do que a do tempo ou do espaço.
I — DISTÂNCIA E COMUNHÃO
A comunhão dos santos não conhece fronteiras de tempo, espaço, vida ou morte, pois Cristo está vivo e é nEle que se comunga com seus membros.
O Espírito sopra onde quer, e os homens que Ele toma para torná-los santos tornam-se fontes de vida no Espírito.
Não se trata de fazer “mística comparada” ou “ecumenismo”, mas de buscar a água viva e contemplar Jesus com os olhos de seus amigos.
É no mistério da adoção filial, da santidade da Igreja e da fé no único Senhor Jesus Cristo que se pode comungar com esses irmãos que são ícones viventes de Cristo.
A sequela Christi é um chamado pessoal, como quando Antão ouviu na igreja a palavra do Evangelho: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá aos pobres e segue-me”.
Os santos leram ou ouviram o Evangelho na simplicidade da escuta, onde a palavra não é uma letra morta, mas uma Pessoa viva, o Verbo da vida.
Uma “Voz do alto” perguntou a Antão: “Para onde vais, Antão, e por quê?”, e depois indicou: “Vai para o deserto interior”.
As figuras escolhidas são de monges ou solitários, unidos pelo mesmo chamado à solidão e pela certeza de que é no deserto que Deus fala ao coração da criatura.
A reaproximação entre Oriente e Ocidente, ontem e hoje, não deve obedecer ao desejo de classificação dos gêneros e espiritualidades, mas ao amor que une as tradições.
Não se deve separar o que foi dado a viver no amor de Cristo, pois é na unidade do amor do Pai e do Filho que toda unidade e todo amor são recebidos e fundados.
Os cristãos de hoje precisam comungar das fontes espirituais que vivificaram e ainda vivificarão sua história, marcada por tantas rupturas e guerras, como Auschwitz resume toda a horreção.
A vida do Espírito circula por toda parte, pois é a vida do Crucificado-Ressuscitado.
O MISTÉRIO DE JESUS ESTÁ NO CORAÇÃO DESTE LIVRO
A Transfiguração e a Cruz constituem o eixo do mundo, a chave de interpretação das Escrituras e o caminho da sabedoria cristã.
A anunciação profética da Paixão no esplendor da Transfiguração fundamenta o chamado a tomar a cruz e seguir a Cristo.
A cruz é o eixo do mundo: por ela Antão expulsa os demônios, Isaac obtém o repouso da contemplação hesicasta, e João da Cruz e Edith Stein colocam a cruz no centro de suas vidas.
A Transfiguração é o avesso de Getsêmani: a mesma santa Face, brilhante como o sol no Tabor, cobriu-se com suores de sangue na agonia.
É na contemplação dos mistérios da vida de Cristo e nos sete Concílios ecumênicos que se deve buscar a unidade das Igrejas do Oriente e do Ocidente.
Cristo é o verdadeiro Oriente, e a oposição entre Oriente e Ocidente não pode se absolutizar no domínio eclesial.
É somente na relação com o único Oriente sem declínio que as Igrejas do Oriente e do Ocidente podem se compreender e comungar.
O mistério da Epifania do Sol Nascente é o mistério da dupla anunciação da salvação a Israel e aos pagãos, como os Magos vindos do Oriente.
A luz do Verbo e a Trindade: Jesus é “a luz verdadeira que ilumina todo homem que vem ao mundo”, e também “Luz nascida da Luz”.
Atanásio defendeu no Concílio de Niceia a consubstancialidade do Pai e do Filho, “Luz nascida da Luz”.
Basílio de Cesareia aplicou à relação do Pai e do Filho a frase do Salmo 35,10: “Na tua luz veremos a luz”.
Gregório de Nazianzo oferece uma imagem fulgurante do jogo de luz no seio da Trindade: um raio de sol refletido na água em movimento sobre um muro.
A confissão do mistério da Trindade é a confissão batismal.
O Espírito é iluminador: fonte de santificação, luz inteligível que purifica o coração e o abrasa com uma toque que é ao mesmo tempo fogo e bálsamo.
É o Espírito que ilumina a beleza do rosto de Jesus, Imagem da indizível beleza do Pai.
É no Espírito que se diz: “Abba! Pai!” e “Jesus é Senhor!”, e a oração de Jesus é envolvida pelo Espírito.
O Espírito une-se ao espírito numa união de amor, e intercede com gemidos inenarráveis.
Na “oração a Jesus”, reconhece-se pecador diante do amor vulnerável; na “oração abrasada”, sabe-se queimado pela glória do Deus vivo.
III — HESICASTA E CARMELO
Hesicasmo e Carmelo se aproximam pelo sentido do absoluto e da cruz, aproximando Isaac da Síria e João da Cruz.
Isaac da Síria, monge nestoriano do século VII, e João da Cruz, Doutor Místico da Igreja ocidental, são próximos pelo sentido do absoluto e da cruz.
A obra de Isaac influenciou a Rússia através da Filocalia russa e de Dostoiévski, que o cita em Os Irmãos Karamazov.
João da Cruz descreve duas noites principais para a alma atingir o estado de perfeição: a noite dos sentidos e a noite do espírito.
A primeira noite é a dos sentidos, a segunda a do espírito; a primeira diz respeito aos iniciantes, a segunda aos que progridem.
O itinerário inteiro da alma para Deus forma uma só noite, desde o começo até Deus mesmo, que pode ser considerado uma noite escura para a alma enquanto ela está nesta vida.
O avanço na noite escura segue as etapas da Paixão de Cristo, expressas pelos salmos da Paixão: “Salvai-me, Senhor, porque as águas me entraram até a alma”; “os que descem vivos ao inferno”; “Fui reduzido a nada e não soube”.
A imagem da noite encontra-se em Orígenes, mas a “noite” é o escurecimento da alma pelas paixões e tentações, não a escuridão da fé.
Orígenes descreve três vigílias da noite como as trevas das tentações, seguidas pela quarta vigília, quando o Filho de Deus vem para acalmar o mar.
A quarta vigília da noite poderia corresponder à “noite sossegada perto das alvoradas” do Cântico Espiritual, que empalidece à medida que Cristo, Sol Nascente, se aproxima.
Isaac da Síria descreve duas noites: uma cheia de desespero e medo, e outra de trevas lúgubres que chegam na hesíquia.
Na primeira noite, a esperança em Deus e a consolação da fé são completamente apagadas na alma, e conselha-se dormir ou não sair da cela.
Na segunda noite, quando o coração está “morto” e nenhuma palavra de súplica convém, deve-se permanecer prostrado com o rosto em terra perpetuamente.
As duas noites correspondem ao pratico (praktikos) e ao gnóstico (gnostikos): a apatheia é a flor da prática, e a theoria é o estabelecimento do espírito na oração espiritual.
A distinção entre purificações ativas e passivas não é clara na espiritualidade oriental, pois a provação e a tentação se chamam pelo mesmo nome grego (peirasmos).
Evágre afirma que o demônio é terrivelmente ciumento do homem que ora e emprega todos os meios para fazê-lo falhar.
Segundo Diadocho de Fotice, o demônio da acédia leva a alma, por excesso de tristeza, à falta de esperança e de fé.
O crescimento da vida teologal (fé, esperança e caridade) é o sinal da vida no Espírito.
A influência de Evágre no Oriente e de Orígenes e do Pseudo-Dionísio no Ocidente marca as diferenças entre as duas tradições espirituais.
Autores gregos como Orígenes e o Pseudo-Dionísio marcaram mais o Ocidente que o Oriente por meio de traduções latinas.
O Cântico Espiritual de João da Cruz ecoa tanto os Comentários ao Cântico dos Cânticos quanto a Teologia Mística do Pseudo-Dionísio.
IV — A MODERNIDADE: A DESCIDA AO INFERNO
A modernidade dividiu o Ocidente por causa do “drama do humanismo ateu” e separou o mundo ocidental racionalista e técnico do mundo oriental, mas há uma experiência espiritual comum: a descida ao inferno.
O inferno dos campos de morte mudou a representação do inferno: a morte vem do céu por asfixia antes que os fornos crematórios reduzam os corpos a cinzas.
Deus chama seus santos a viver, no martírio de suas almas ou corpos, os despedaçamentos da Igreja e do mundo.
Duas figuras testemunham essa experiência comum de descida ao inferno: Teresa de Lisieux e Silouan, o Athonita.
Teresa de Lisieux queria “sentar-se à mesa dos pecadores” e falava do céu com todas as suas forças, embora pensasse não acreditar mais em nada.
Silouan, o Athonita, ouviu de Cristo: “Mantém tua alma no inferno e não desesperes”, e canta as Lamentações de Adão expulso do paraíso.
O “humilde Espírito Santo” ensina a ambos a única via de Cristo que venceu os assaltos demoníacos: a humildade e a pequenez da infância.