Basílio retoma o raciocínio de Atanásio contra Eunômio, que diferenciava a natureza do Pai ingênito da do Filho gerado e posterior.
Afirma-se que o Filho é imagem gerada e resplendor da glória de Deus, não como qualidade, mas como substância viva e atuante.
A glória de Deus resplandece totalmente no Filho, sendo tolice dizer que a glória divina não tem resplendor ou que a sabedoria nem sempre estava com Deus.
Refuta-se Eunômio: o fato de o Filho ter sido gerado não implica que ele não existia; ele sempre é e está com o Pai.
A geração do Filho não significa uma passagem da eternidade ao tempo, pois o ser do Verbo é eterno e seu “estar com o Pai” não é ingênito.
Basílio distingue entre a substância divina e as propriedades distintivas do Ingênito e do Engendrado.
O Pai não pode ser conhecido sem o Filho, pois se conhece Deus, que é luz, na luz do Verbo.
A diferença entre o ingênito e o engendrado não é quantitativa (como entre luz maior e menor), pois isso permitiria que um se tornasse o outro.
A distância entre eles é a irredutibilidade das propriedades características: a divindade é comum, mas a paternidade e a filiação são propriedades.
Como luz e luz, não há contrariedade entre Pai e Filho; como ingênito e engendrado, eles são considerados sob o aspecto da antítese.
A impiedade de Eunômio consiste em transferir para a substância a antítese das propriedades, enquanto na substância divina não há contrariedade.
A analogia fundamental permanece: a luz é inseparável de seu resplendor, e a contemplação do Pai pelo Filho é inseparável do Espírito no qual o Filho é visto.
A contemplação da beleza da imagem do Deus invisível seria impossível sem a força iluminadora do Espírito Santo.
O Espírito de conhecimento é inseparável, dando em si mesmo a força de ver a imagem.
Cita-se: “Ninguém conhece o Pão senão o Filho” e “Ninguém pode dizer: Jesus é Senhor, senão no Espírito Santo”.
Afirma-se que não é dito “pelo Espírito”, mas “no Espírito”, e que “Deus é Espírito, e é necessário adorá-lo no Espírito e na verdade”.
Conclui-se que, no Salmo: “Na tua luz, veremos a luz”, entende-se: na iluminação do Espírito, veremos a verdadeira luz que é o Verbo.
“NA TUA LUZ”
Basílio estabelece um paralelo entre as expressões “na luz” e “no Espírito” por meio de três citações bíblicas.
João 4:24: “Deus é Espírito, e é necessário adorá-lo no Espírito e na verdade”.
O Espírito é apresentado como o lugar e o meio da iluminação, da confissão da senhoria de Cristo, da adoração e da manifestação da glória do Monogênito.
A iluminação da alma ou do olhar espiritual pelo Espírito é inseparável da santificação, conforme a analogia do sol.
O Paracleto, como um sol que toma um olho puríssimo, mostra em si mesmo a imagem do invisível.
Na contemplação bem-aventurada da imagem, vê-se a beleza indizível do Arquétipo.
O Espírito brilha nos que se purificaram, tornando-os espirituais pela comunhão com ele.
As almas que portam o Espírito tornam-se espirituais e refletem a graça sobre os outros, como corpos límpidos e transparentes que refletem o brilho de um raio.
A inseparabilidade da contemplação do Pai no Filho e do Filho no Espírito leva logicamente à adoração do próprio Espírito.
Não se pode contemplar a imagem de Deus sem o iluminamento do Espírito.
A divindade do Espírito é indicada pelo fato de ele mostrar em si mesmo a divindade do Senhor, o que não seria possível se ele não fosse Deus.
O Espírito é o “lugar” da verdadeira adoração, conforme a interpretação de Basílio para a teofania do Êxodo e a visão de Jacó.
Cita-se: “Eis um lugar perto de mim; instala-te sobre a rocha”, interpretado como a contemplação no Espírito.
Moisés, ao chegar a esse lugar, pôde ver distintamente Deus aparecer-lhe.
“Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai no Espírito e na verdade”.
Jacó viu este lugar e exclamou: “O Senhor está neste lugar”.
O Espírito é verdadeiramente o lugar dos santos, e o santo é um lugar próprio para o Espírito, pois se oferece para habitar com Deus e se chama seu templo.
A confissão da senhoria de Cristo é feita no Espírito, e o mesmo vale para a confissão da paternidade do Pai.
Atesta-se que confessar o Cristo e negar Deus, ou invocar Deus e rejeitar o Filho, ou recusar o Espírito torna a fé vazia.
Não se pode crer no Filho sem crer no Espírito, nem no Pai sem crer no Filho.
Ninguém pode dizer “Jesus é Senhor” senão no Espírito Santo, e ninguém jamais viu a Deus, mas o Filho Unigênito o deu a conhecer.
Quem não adora no Espírito Santo está excluído da verdadeira adoração, pois não se pode adorar o Filho nem invocar o Pai senão no Espírito.
AS DUAS GLÓRIAS
O possessivo “tua” em “na tua luz” indica, analogicamente, a relação do Espírito com o Cristo, pois o Espírito é o “Espírito de Cristo”.
O Espírito procede de Deus (ek tou theou proelthon), mas não por modo de geração como o Filho, e sim como Soprar da boca de Deus.
A boca não é um membro corporal, e o sopro é uma substância vivente, senhora da santificação.
A maneira de existir do Espírito é indizível, embora sua parentela com Deus seja manifesta.
O Espírito é o único que glorifica dignamente o Senhor, não como a criação, mas como Espírito da verdade e da sabedoria.
Como Paracleto, ele traz em si a marca da bondade do Paracleto que o enviou e manifesta em sua própria dignidade a majestade daquele de quem procede.
O Espírito mostra, faz resplandecer e manifesta em si mesmo a glória do Monogênito e a divindade do Senhor.
Em 26,64 e 18,47, diz-se que o Espírito Santo “mostra em si mesmo” a glória do Monogênito.
Em 18,46, diz-se que o Espírito “faz resplandecer em si mesmo” a verdade, “revela” o Cristo e “manifesta” aquele de quem procede.
O “Paracleto que o enviou” é o Cristo, enquanto “aquele de quem procede” é o Pai.
Há uma glória natural, como a luz é glória do sol, e uma glória que vem de fora, oferecida livremente aos dignos.
A glória natural é aquela pela qual o Espírito glorifica a majestade do Pai e traz em si a marca do Filho, ao qual está intimamente unido por natureza.
A glória que vem de fora pode ser servil (prestada pela criação) ou familiar (prestada pelo Espírito).
O Filho glorificou o Pai e é glorificado por ele, assim como o Paracleto glorifica o Filho.
O Espírito é glorificado por sua comunhão com o Pai e o Filho, correspondendo às duas doxologias litúrgicas (“pelo Filho no Espírito” e “com o Filho e com o Espírito”).
A VISÃO DA LUZ DIVINA NA LUZ DO ESPÍRITO
O “exercício dos olhos do coração” começa pela iluminação batismal e pelo caminho da ciência de Deus.
O batismo é um batismo no Espírito, que transforma o batizado em filho da luz.
Pelo Espírito Santo vêm o restabelecimento no paraíso, a subida ao reino dos céus, o retorno à adoção filial e a confiança para chamar Deus de Pai.
O Espírito dá a participar da graça de Cristo, a chamar-se filho da luz e a ter parte na glória eterna.
A visão atual é uma visão “em espelho” da luz divina, que se verá face a face na glória.
A metáfora dos “reflexos na água” e a “caverna” platônica são usadas para mostrar a passagem gradual das sombras e tipos do Antigo Testamento à verdade revelada.
O exercício dos olhos do coração é necessário porque o homem carnal, que não exercitou a parte alta de sua alma (Noûs), não consegue erguer os olhos para a luz espiritual.
Esse exercício supõe a purificação da vida e a pureza do coração para aceder à contemplação dos altos mistérios do Espírito.
A “conversão para o Senhor”, que é o Espírito, permite a passagem da letra ao espírito na interpretação das Escrituras.
Aplica-se a 2 Coríntios 3:14-18 em sentido pneumatológico, identificando o “Senhor” com o Espírito.
Quem se aplica apenas ao sentido literal tem o coração coberto por um véu, como a interpretação judaica da letra.
Com a vinda do Cristo, a Lei e os Profetas calam-se diante da Verdade, como o sol ao aparecer.
Aquele que se converte ao Senhor remove o véu da letra, assim como Moisés tirava o véu quando falava com Deus.
A conversão ao Espírito produz a iluminação do coração pela verdade que vem do Espírito e a transformação de glória em glória pelo Espírito.
“A LUZ”
A “luz” no De Spiritu Sancto possui tanto um caráter hipostático quanto designa a natureza divina comum às hipóstases.