O segundo texto que desempenhou um papel essencial na emergência da cabala é o Livro da Claridade — Sefer ha-Bahir —, cuja história redacional, estudada sobretudo por Daniel Abrams, revela não um livro único e estável, mas um corpus em processo incessante de acréscimo e reedição.
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Daniel Abrams: The Book Bahir, An Edition Based on the Earliest Manuscripts, with an introduction by Moshe Idel, Cherub Press, Los Angeles, 1994.
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O Livro da Claridade circulou inicialmente entre os pietistas judeu-alemães, onde sofreu um processo de acréscimo e edição incessante — com adições de glosas e variantes, reorganização de parágrafos —, antes de alcançar os cabalistas do sul da França e do norte da península ibérica, que prosseguiram esse trabalho.
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Constituído de uma série de 150 ou 200 fragmentos conforme a edição, apresenta-se como obra de um mestre do fim da Antiguidade, R. Nehounia ben Haqanah (século II).
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Os expostos, sempre breves, enigmáticos e paradoxais, não oferecem ao leitor nenhum ponto de apoio; as imagens, de feição frequentemente mítica, sucedem às exegeses ousadas que evocam o estilo do Midrach rabínico antigo, mas deles se distinguem por remeterem todas de modo alusivo a um pano de fundo muito estruturado — o mundo divino e os múltiplos canais que o ligam aos planos inferiores do universo.
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Os temas abordados no Bahir são variados: além de uma apresentação sistemática das sefirot do Livro da Criação e dos símbolos a elas associados, o texto desenvolve concepções sobre a reencarnação, o destino do justo infeliz e do ímpio feliz, a figura e o nome do Messias, a organização do mundo dos anjos, a dimensão feminina da divindade — a Chekiná ou presença —, a correspondência entre os órgãos do corpo humano e as sefirot, o lugar do mal na arquitetura do cosmos, o significado místico de práticas rituais e de festas anuais, e a situação de Israel entre as setenta e duas nações diante dos arcanjos celestes que as governam.
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Uma prática exegética do Bahir exercerá influência determinante sobre a cabala posterior: cada personagem bíblico importante é associado a uma sefirá particular — forma nova de
tipologia que transforma a história sagrada em narrativa críptica dos processos que se desenrolam no mundo divino, constituindo uma componente essencial da cabala teosófica.
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O par masculino/feminino ocupa lugar preponderante no Bahir — tanto como designação da estrutura dual do mundo divino quanto como forma final da unificação das potências divinas —, prolongando uma tendência já presente no Livro da Criação, onde todas as realidades eram reduzidas a dois princípios universais.
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As expressões de tipo mítico do Bahir levaram Gershom Scholem a sugerir que o conteúdo do livro devia sua origem, ao menos em parte, a alguma corrente antiga de um gnosticismo judeu que ele via atuando por trás das figuras ousadas do mundo divino, às vezes muito distantes dos estereótipos do monoteísmo judaico ortodoxo.
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Moshé Idel demonstrou a afinidade de certas concepções do Bahir com motivos presentes em alguns manuscritos encontrados em Qumrã — cf. “O problema da pesquisa das fontes do livro Bahir” (em hebraico), Jerusalem Studies in Jewish Thought, vol. VI (III—IV), Jerusalém, 1987, p. 55—72; e Elliot Wolfson mostrou que imagens do Bahir se encontram também em fontes judeu-cristãs do fim da Antiguidade — cf. “The Tree That is All: Jewish-Christian Roots of a Kabbalistic Symbol in Sefer ha-Bahir”, Journal of Jewish Thought and Philosophy, n. 3, 1993, p. 31—76 —, mas nada veio sustentar a hipótese de Scholem.
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O Bahir teria antes bebido sua matéria em fontes subterrâneas mantidas voluntariamente à margem das obras literárias clássicas e canônicas do judaísmo tardio — fontes que alimentaram tanto correntes pouco zelosas da ortodoxia judaica, como o judeo-cristianismo primitivo, quanto correntes místicas representadas em certos manuscritos do mar Morto.