Na releitura valentiniana, a causa da transgressão de Sophia muda: a paixão que a move é a busca do
Pai, pois ela quer compreender sua grandeza — e segundo Ptolomeu, encontrando-se na impotência por ter se proposto uma empresa impossível, em grande travaglio pela grandeza da profundidade e pela imperscrutabilidade do
Pai e pelo amor por ele, tensa sempre para a frente pela sua doçura, ela teria sido por fim absorvida e dissolvida na substância universal, se não tivesse intervindo Horos — o Limite — posto pelo
Pai como guarda de sua imperscrutabilidade.
-
Um vago sabor de conflito edípico constitui o fundo inevitável das relações parentais em que está imersa a vicissitude de Sophia: o desejo de imitar o
Pai oculta, como indica o motivo do ascender em direção ao Abismo e a correlata censura do Limite, uma libido de conjoignement; o produto de seu pecado não pode ser senão um aborto.
-
Graças à intervenção de Horos, Sophia deposita sua enthymesis ou intenção — destinada a tornar-se a Sophia extrapleromatica —, e sua conversão permite que o Unigenito emita a syzígia Cristo-
Espírito Santo; Cristo ensina aos éons a natureza da syzígia e a incognoscibilidade do ingenerado, e o
Espírito Santo os ilumina formando-os definitivamente na gnose do
Pai e introduzindo-os no verdadeiro repouso.
-
A vida do pleroma é guiada por um duplo movimento de expansão e contração, de diástole e sístole: no momento centrífugo, o Anthropos primigenio se expande revelando a riqueza interior do projeto divino; o ponto de chegada — a expulsão do pleroma da substância espiritual mais amorfa — coincide com a projeção da dimensão feminina de Deus no vazio do kenoma; o movimento oposto de natureza masculina tenderá ao retorno à unidade, em que o Andrógino arquetípico poderá repousar em si mesmo, estável e calmo para a eternidade.
-
As vicissitudes pleromaticas da Sophia valentiniana constituem o modelo exemplar da vicissitude do próprio gnóstico: nelas ele encontra miticamente fundados e dramaticamente representados aqueles processos interiores de conversão que o tornaram disponível ao anúncio da revelação e à comunicação da gnose.