SER E ESSÊNCIA

GILSON, Étienne. L’être et l’essence. 3. éd., 3. tirage ed. Paris: Vrin, 1994.

As dificuldades da metafísica derivam da substituição do ser, como princípio primeiro, por aspectos particulares estudados pelas ciências naturais, o que levanta o paradoxo de que tantos filósofos, inclusive os maiores, se desviem justamente do princípio que deveria ser evidente.

O ser é o que é, mas as dificuldades começam quando se busca definir o sentido do verbo “é”, pois a existência não é representável por conceito nem dentro de conceito algum.

Kant reconheceu também o aspecto existencial do problema, admitindo que as ordens do real e do possível são incomensuráveis, de modo que a existência não é um atributo entre outros, mas o próprio ato pelo qual uma coisa e todos os seus atributos se afirmam como reais.

A raiz dos paradoxos que afligem o uso filosófico da noção de ser está na neutralidade existencial de todos os conceitos, pois nossa representação conceitual do real é congenitamente cega à existência, e isso vale inclusive para o próprio conceito de “ser”.

A obra de Émile Meyerson fornece a epígrafe do livro porque sua demonstração irrefutável identifica uma ilusão que é a própria vida da ciência, ao passo que essa mesma ilusão representa a morte da metafísica.

A metafísica parte de palavras da língua comum, não de termos técnicos, e se pergunta se essas palavras exprimem ou não um conhecimento real, o que não é uma reflexão sobre palavras vazias, mas sobre as condições de possibilidade da própria linguagem.

A objeção de que a metafísica seria dependente de uma língua particular não invalida seu alcance, pois investigações distintas sobre diversas famílias linguísticas podem se completar mutuamente e produzir conclusões de abrangência verdadeiramente geral.

A linguagem, por sua função prática e histórica, dobra o sentido das palavras em direções inesperadas e irracionais, de modo que a reflexão metafísica deve necessariamente assumir a forma de uma crítica da linguagem para dissociar os elementos de conhecimento filosófico que ela possa conter.

A palavra “ser” sofre de uma ambiguidade estrutural entre seu uso verbal e seu uso nominal, ambiguidade que não afeta todas as línguas da mesma forma e que gerou, em francês e em inglês, soluções distintas para distinguir o ato de ser da coisa que é.

O neologismo “étant” — ente — proposto no século XVII para traduzir com exatidão o latim ens não prevaleceu no uso filosófico francês, o que gerou a anfibologia duradoura da palavra “ser”, que oscila entre designar o ato de ser e designar a coisa que é.

A tendência natural do intelecto é pensar o ser pelo prisma daquilo que a coisa é, e não pelo fato bruto de que ela seja, o que leva à confusão entre ser e ente, entre o ato de ser e a coisa que é.

Em francês, o verbo “existir” foi encarregado de expressar o puro fato de ser, função que o verbo “ser” progressivamente deixou de exercer, e o mesmo fenômeno, de forma menos nítida, ocorre em inglês com fórmulas do tipo “God is, or exists”.

O verbo latino exsistere — composto de ex e sisto — significava originalmente menos o fato de ser do que a referência a uma origem, e os escolásticos o entenderam como “subsistir a partir de outro”, sentido bem distinto do uso moderno que o faz equivaler simplesmente a “ser”.

No século XVII, existentia já se havia especializado na significação do puro fato de ser, e Descartes empregou “existir” simplesmente como equivalente de “ser”, o que se confirma pelo próprio título de suas Meditações e pela Terceira Meditação, “De Deus, que ele existe”.

O deslize de sentido que transforma existere em simples substituto de esse se explica pelo fato de que, na experiência sensível, todos os seres conhecidos alcançam o ser em virtude de certa origem, tornando a existência o único modo de ser de que temos experiência direta.

O Dicionário de Littré atesta uma desvalorização do verbo “ser” em proveito de “existir”, ao declarar que o sentido próprio e primitivo de “ser” é o de ligar o atributo ao sujeito, e não o de significar a existência.

Os existencialismos contemporâneos tentam dissociar novamente as noções de ser e existência — que o francês clássico havia fundido desde o século XVII — mas introduzem nova confusão ao tomar a existência como modo de ser ligado à duração e à origem, e não como o puro fato de ser.

O existencialismo elimina o ato de ser da metafísica ao essencializá-lo — seja pela confusão do ser com o ente, seja pela confusão do ser com o modo de ser próprio ao devir —, e sua contribuição legítima seria uma fenomenologia do ente, não uma metafísica do ser.

O nome “essência” deriva do latim essentia — neologismo que Sêneca considerava indispensável para traduzir o grego correspondente, e que Santo Agostinho ainda reconhecia como estranho à língua antiga — e designou originalmente o ser atual, mas progressivamente passou a designar aquilo que faz uma coisa ser o que ela é, dissociando-se assim do puro ato de ser.

As variações da linguagem metafísica em torno de “essência”, “existência” e “ser” traduzem as variações reais do pensamento em seu esforço para definir a natureza do objeto, e o uso que cada filósofo faz dessas palavras é suficiente para situar sua filosofia.

A via proposta é a do “ser e da essência”, em que “ser” designa ao mesmo tempo o ente — a essência concretamente atualizada pelo ato de ser — e o próprio ato de ser que a essência especifica e do qual a existência manifesta no tempo a fecundidade, reservando-se ao existencialismo o direito legítimo sobre o termo “existência” tal como o legou o gênio de Kierkegaard.