Na Aurora Nascente, aplicando o esquema trinitário à natureza,
Boehme fala de três pessoas, resultando numa confusão entre a teologia dogmática e uma teologia simbólica baseada na filosofia da natureza.
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A estrutura ternária será uma constante na obra de
Boehme, com o Espírito de Deus (Ternarius Sanctus) irradiando na natureza.
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Mais tarde,
Boehme aplicará a noção de pessoa apenas ao Deus manifestado no Cristo.
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A distinção das pessoas divinas se faz essencialmente entre o Pai e o Filho.
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O Filho é o sol (a luz), e o fogo que gera a luz é o Pai que gera seu Filho.
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O Pai e o Filho são um só e mesmo Deus, mas são duas pessoas distintas, pois as trevas não apreendem a luz, e o Filho transcende o Pai como o sol transcende as estrelas que o geraram.
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O Pai e o Filho são unidos porque não podem ser um sem o outro, mas nenhuma das duas pessoas apreende a outra.
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O Pai que gera a luz é uma Mãe, a natureza vista como uma mulher em trabalho de parto para dar à luz o sol.
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O corpo do mundo todo é apropriado ao Pai, e a luz é o Filho e o Espírito.
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O Filió é milhares de vezes maior que o Pai, revelando uma inferioridade do Pai traída por sua maternidade.
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A lei que rege a natureza humana é aplicada a Deus: Deus nasce do Pai como a alma nasce do corpo.
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O arquétipo de todos os corpos é a força saturniana que solidifica a liquidez original, e Deus não pode nascer sem um corpo, sendo Saturno identificado ao Pai tenebroso.
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Sem o Pai, o Filho não existiria, mas sem o Filho, o Pai é um vale obscuro, um abismo tenebroso.
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O Pai sem o Filho é a Eternidade em si mesma sem a manifestação do Deus de luz, e também o nosso corpo terrestre entenebrecido.
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O Pai é nossa natureza sob o aspecto do fogo obscuro que é o ventre onde a luz se gera.
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A concepção de
Paracelso, que apropria a natureza ao Pai e a sobrenatureza ao Filho, é encontrada no simbolismo da Aurora Nascente.
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O spiritus mundi é o Espírito septiforme no nível da alma do nosso mundo, uma modalidade do Verbo criado na qual Deus se torna semelhante à criatura.
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O Verbo criado não é Deus em sentido estrito, mas é Deus em relação à realidade que dele emana.
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O spiritus mundi é o Deus do nosso mundo, seu Pai, que o cria e forma continuamente, confundindo-se com ele.
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O criador e sua criação são um, sendo o demiurgo a imagem da realidade criada, o espelho no qual ela está contida.
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Deus produz seu Verbo criado em dois níveis: o do mundo angélico e o do nosso mundo.
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É pela noção de Pai celestial que se define o primeiro plano, distinguindo-se do Pai da natureza (que se identifica a ela), sendo que o mundo de cima e o mundo de baixo se correspondem.
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O mundo criado é a Palavra proferida, e o astrum (princípio do nosso universo) é esta Palavra, que é como a letra em relação ao espírito.
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Na letra, o espírito permanece ativo, e o Verbo proferido se reexprime na criação.
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O homem é um Verbo criado que reexpressa o Verbo divino, sendo a natureza um símbolo e o homem o símbolo de todos os símbolos.
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A noção-chave na Aurora Nascente é a de um Deus que reveste uma forma criada no corpo do mundo.
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A alma do mundo não é Deus, mas é o Espírito deste mundo, apresentada sob um aspecto negativo e dual, representando a dualidade do bem e do mal.
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O spiritus mundi é um Deus de dupla face: sob o aspecto do mal, o Deus terrível; sob o aspecto do bem, o Deus misericordioso.
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A dualidade do bem e do mal se reflete no duplo aspecto do Verbo criado.
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Os mesmos espíritos (qualidades ativas) regem os dois mundos, o de cima e o de baixo.
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O ser é um tecido de qualidades sensíveis e o sensorium que as objetiva, não havendo separação entre o sensível e o inteligível em nenhum nível do ser.
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As qualidades sensíveis representadas pelos espíritos siderais no mundo de baixo são as mesmas do mundo de cima (Pai celestial), mas lá elas aparecem apenas sob seu aspecto benéfico, em harmonia.
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No pleroma divino, cada qualidade não age separadamente; a perfeição do ser está na plenitude harmoniosa do setenário.
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No mundo divino, as qualidades se temperam mutuamente, e a consonância é luminosa, enquanto as trevas são fruto de uma natureza dissonante.
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A dualidade existe latente no mundo do Pai celestial (como quente e frio, amargura e aspereza), mas as raízes da cólera se encontram particularmente na aspereza e na amargura.
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O Pai celestial e o Pai da natureza são cada um à imagem do mundo que lhes é correspondente.
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Posteriormente, o Verbo proferido será a natureza em dois planos: o mundo divino da primeira criação (anjos) e o plano do spiritus mundi (Pai da natureza).
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O Pai celestial se tornará um Deus oculto, um símbolo de trevas, e apenas o Filho será o Deus de luz.
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A natureza, quando cumprida, será o corpo de Deus representado por sua Sabedoria.
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Representado por sua Sabedoria, Deus será apenas o Deus de luz e amor, e as trevas serão retiradas.
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No nível do Verbo criado (natureza), a luz e as trevas alternarão.
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Apenas a Sabedoria escapa a esta dualidade, manifestando a unidade de Deus, que se afirma na plenitude da luz separada das trevas.
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A unidade de Deus não é uma totalidade que reúne luz e trevas, mas resulta da separação entre elas.
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A separação entre luz e trevas, bem e mal, está na finalidade da economia divina.
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Fora da Sabedoria não há Deus manifestado, e fora da natureza não há plena revelação.
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Na Aurora Nascente, a filosofia da natureza torna-se uma teologia cósmica, que será posteriormente integrada numa teoria da manifestação divina onde a natureza se definirá por relação a uma verdadeira transcendência.