O problema do discurso místico é ser comunicado, e
Boehme, inspirado pelo Espírito Santo, vê-se obrigado a usar uma linguagem simbólica, pois todo conhecimento, inclusive a gnose mais perfeita, é simbólico.
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A inspiração divina não produz um saber pronto, mas auxilia a meditação sobre as maravilhas da criação.
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O conhecimento é recebido segundo as modalidades do próprio discurso simbólico.
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O Espírito fala ao inspirado a mesma linguagem que ele usará para escrever sua experiência.
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Os símbolos são a substância dessa linguagem, e é a natureza que os fornece.
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Todo símbolo é um corpo no qual o espírito se manifesta, e todo corpo representa um limite, pois jamais se apreende o Infinito senão na medida em que ele se manifesta em um corpo (a natureza).
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A natureza tem um começo, torna-se, é o tempo.
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O discurso humano, sucessivo e fragmentário, imita o ritmo da natureza e contém uma parte de impropriedade.
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Boehme acusa-se de discorrer sobre Deus como falaria o diabo, ao colocar as trevas antes da luz em sua descrição da vida divina.
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Para
Boehme, não existe conhecimento que o Espírito Santo comunique sem um suporte sensível, que é a natureza, e Deus cria a natureza justamente para se fazer conhecer.
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A inspiração ajuda o eleito a instruir-se meditando nas maravilhas da criação.
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O olhar do homem de desejo busca ver o interior das coisas, considerando a criação como um lugar de uma manifestação que a transcende.
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A revelação é o irradiamento do espírito através do corpo do símbolo.
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O sol é o símbolo supremo no macrocosmo, representando o Deus da nossa natureza, embora não seja o Deus supremo, que se esconde sob a aparência de sua luz.
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O sol é o coração do corpo cósmico, e a teoria de
Boehme é heliocêntrica no plano da teologia simbólica, ligada à tradição pitagórico-neoplatônica.
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O sol é distinto do corpo cósmico que ele ilumina, ilustrando uma transcendência relativa, mas luminosa.
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A luz do sol, símbolo da vida divina, é superior às estrelas que representam o corpo da natureza.
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Há uma aparente contradição: a luz do sol dá vida às estrelas, mas são as estrelas que dão à luz o sol, o que se esclarece pela analogia com a relação entre alma e corpo no composto humano.
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A alma faz viver o corpo, mas o corpo produz a alma; é por ele que a alma existe e nele que ela se gera.
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Da mesma forma, Deus comunica a vida à natureza angélica, mas nasce nela; a natureza é a mãe de Deus, e Maria é a primeira a cumprir essa finalidade.
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O corpo formado pelos planetas tem a sutileza da alma; é um fogo onde a luz se gera, sendo a alma do mundo (spiritus mundi).
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A alma do mundo (planetas + sol) não deve ser confundida com a alma eterna nem com a Sabedoria.
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O sol é superior ao spiritus mundi, estando mais próximo da realidade suprema que reside no centro de toda vida, de onde a vida divina irradia por graus, exteriorizando-se e alienando-se.
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O mesmo corpo (o céu) é corpo em relação ao sol e alma em relação à terra.
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As noções de espírito, alma e corpo são definidas pela alternância dos planos.
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O espírito pode ser superior à alma, mas a palavra também se aplica a um corpo sutil (um espírito sidereal).
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O sol, tratado como um dos sete espíritos siderais (o quarto), representa ora a transcendência do espírito, ora um espírito entre outros.
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Os sete espíritos siderais (planetas), origem do setenário, são espíritos criados com qualidades sensíveis que irradiam em nosso mundo, sendo princípios ativos e energias substanciais que preexistem às coisas criadas.
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O simbolismo da natureza baseia-se na astrologia, com qualidades sensíveis anexadas a cada planeta.
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As qualidades sensíveis tornam-se as sete formas substanciais de uma natureza ideal onde Deus se manifestará plenamente.
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Saturno é o espírito de contração, aspereza, frieza e dureza, sendo a causa de todos os corpos.
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Júpiter representa a doçura, uma qualidade benéfica ligada ao elemento Água.
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Em Aurora Nascente, Marte representa a amargura, o veneno e a cólera (a bile), sendo o relâmpago que jorra como faísca, enquanto o calor (quarto grau) é a ardor do fogo do qual a luz nascerá.
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A ordem das planetas e a associação das qualidades serão modificadas posteriormente.
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O relâmpago é a faísca que jorra da pedra, nascendo do atrito violento entre a aspereza e a amargura.
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O calor é o fogo sob seus dois aspectos contrários: devorador e benéfico (luz).
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O quinto espírito, Vênus, é o do amor.
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O sexto espírito, Mercúrio, é a inteligência unida à sensibilidade (percepção clara), o som, a música e a alegria.
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Mercúrio é o espírito que diferencia, que preside à formação dos corpos (espírito demiurgo), discernindo e distinguindo as qualidades para constituir um cosmo ordenado.
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Criar é diferenciar, formar, esculpir numa matéria pré-existente e indiferenciada.
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Cada coisa criada é um corpo onde toma forma uma qualidade sensível que é seu arquétipo.
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O discernimento de Mercúrio é a expressão da justiça de Deus que separa, enquanto o amor (Vênus) une.
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A ordem manifesta a justiça de Deus, e a cólera só aparece quando essa ordem é perturbada (como no caso de Lúcifer).
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O sétimo espírito é o corpo da natureza (em sentido estrito), sendo a mãe inferior que engendra seu pai (os seis espíritos que são a alma), e representa a corporalidade como visibilidade da alma.
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Sem o corpo, as almas não teriam existência real e a própria Divindade não seria, pois Deus precisa de um corpo para nascer e se manifestar.
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O corpo do nosso mundo é o análogo imperfeito do corpo do mundo angélico (forma humana).
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A finalidade da alma é fixar-se num corpo; uma alma sem lugar é a de um demônio.
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O pecado de Lúcifer foi exaltar seu corpo, preferindo-o ao Espírito de Deus que nele irradiava.
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No corpo, símbolo de acabamento, os seis espíritos formam um coro harmonioso, convertendo o tempo em espaço e manifestando a unidade do ser.