Santo Agostinho desenvolveu a primeira teoria ocidental desenvolvida da leitura ao unir percepções filosóficas, psicológicas e literárias.
O ato de ler é um passo crítico em uma ascensão mental: é tanto um despertar da ilusão sensorial quanto um rito de iniciação do mundo exterior para o interior.
A leitura transforma-se em meditação (Lectio torna-se Meditatio) quando o texto apropriado é contemplado.
Palavras criadas no silêncio retornam ao silêncio na mente do sujeito, unindo o “Muitos” no “Um” através do pensamento reflexivo.
Agostinho enfatiza que a autoridade, guiada pela razão, orienta os estudos, precedendo a razão no tempo para auxiliar a mente fraca através das Escrituras.
Fundamentos das Místicas da Salvação (Gnose Hermética)
As místicas da salvação baseiam-se em uma concepção pessimista das capacidades do intelecto humano, onde a gnose deriva de uma experiência religiosa ou visão.
Conhecer a Deus torna-se uma questão de iniciação, teurgia e magia: nouit qui colit (conhece aquele que cultua).
O conteúdo da gnose resume-se em três pontos: conhecimento de Deus Salvador, conhecimento de si mesmo (gerados por Deus) e conhecimento da via de ascensão (odos).
O Deus Supremo habita em transcendência radical, circondado de silêncio e definido como Noûs, Vida e Luz.
Cosmogonia e a Queda do Anthropos
Devido ao antagonismo entre Deus e o mundo material, um Noûs Demiurgo (segundo Noûs) é responsável pela organização do cosmo.
O Noûs Pai gera o Anthropos (Homem ideal), que é Vida e Luz como o Pai e amado por Ele como Sua própria imagem.
O Anthropos cai na matéria devido ao eros (narcisismo), revestindo-se de um corpo pneumático e de vícios planetários ao atravessar as esferas.
O homem atual é tríplice (corpo, alma e noûs) e vive submetido à Fatalidade (Heirmarménè) por causa de sua parte material.
A Regeneração Espiritual e o Despojamento Pós-Morte
A salvação hermética consiste em reconhecer a parte de Luz e Intelecto divino em si mesmo, amando-a enquanto se detesta a prisão material do corpo.
A regeneração (paliggenesia) ocorre quando dez potências divinas purificadoras expulsam e substituem os doze vícios zodiacais do homem interior.
Na morte, ocorre um duplo despojamento: o corpo é entregue à natureza e o intelecto ascende pelas esferas planetárias.
Em cada esfera, a alma abandona uma paixão: a malícia em Mercúrio, o desejo em Vênus, a ambição no Sol e a mentira em Saturno.
O objetivo final é a divinização (theōthēnai), tornando-se Deus ao penetrar nas Potências divinas.
Agostinho propõe que toda instrução (doctrina) lida com coisas (res) ou signos (signa).
Um signo é uma coisa que, além da impressão sensorial, faz com que algo mais venha à mente (ex: fumaça indica fogo).
Os signos podem ser “próprios” (sentido literal) ou “figurativos” (quando o objeto referido sinaliza outra realidade, como o boi significando o pregador).
A linguagem é um sistema de signos dados para demonstrar os movimentos da mente entre emissor e receptor.
A interpretação correta das Escrituras busca revelar as intenções divinas ocultas sob os signos ambíguos.
Síntese Comparativa: Mística Teórica vs. Mística Ierática
Festugière distingue entre a mística da sabedoria (teórica) e a mística da salvação (ierática).
Na mística teórica (tradição grega), o homem não é salvo por outro; ele salva-se a si mesmo pelo esforço do pensamento e uso do noûs.
Na mística ierática (influência oriental), o homem é passivo e incapaz de salvar-se sem o auxílio externo da graça e da revelação divina.
Agostinho difere de Plotino ao acentuar a distinção entre sujeito e objeto através de uma exegese paciente e meditativa.