Passemos agora à essência mesma do problema. Que ensina o cristianismo com relação ao homem; diminui-o ou o eleva? O que preocupa, em efeito, não são as diversas deformações que a doutrina cristã sofreu no curso da história; não é a maneira pela qual foi utilizada em proveito destes ou daqueles interesses humanos, mas o cristianismo mesmo em sua essência e em sua pureza, em sua ação interna, com maior frequência íntima, sobre a alma humana. Não se encontra em nenhuma parte da revelação cristã, no Evangelho, no ensino de Cristo sobre o Reino de Deus ou sobre o dom de Deus, que por amor ao mundo deu em sacrifício seu Filho unigênito, que o homem seja rebaixado e que sua atividade seja negada. O Evangelho exige, pelo contrário, um aperfeiçoamento e um serviço ativo do homem em favor do próximo, uma busca constante do Reino de Deus, que não se adquire senão com o esforço.
Antes que o humanismo europeu entrasse no período de decadência e de desintegração, toda a sua doutrina referente à dignidade suprema do homem, ao valor de toda personalidade e de seus direitos infinitos, era de procedência cristã. O cristianismo operava sobre as camadas profundas da alma e modificava, transfigurava a natureza cruel, semianimal e bárbara do ser humano, ainda que depois este lhe cometesse traição e perdesse sua fé. Sem essa transformação interior da natureza humana operada pelo cristianismo, jamais teria sido abolida a escravidão, jamais teria sido proclamada a igualdade dos homens, que é, antes de tudo, uma igualdade perante Deus; jamais se teria conquistado a liberdade da consciência humana, sua independência com relação ao Estado.
Não se pretende dizer com isso que os cristãos, que os poderes e as dignidades que se atribuem esse título lutaram na história contra a escravidão e a aboliram; não, por vezes até a sustentaram. Mas o que se afirma é que o cristianismo transformou interiormente as valorações e os sentimentos humanos, que trouxe um despertar tal da consciência que a escravidão se tornou intolerável. E mesmo os que deixaram de se considerar cristãos beneficiaram-se do resultado dessa regeneração. Os maiores filósofos da Antiguidade, Platão e Aristóteles, não alcançaram realizar a consciência que, depois do cristianismo, tornou-se acessível a todo homem de média condição.
O cristianismo foi realmente o primeiro a afirmar a liberdade de consciência. Na civilização antiga, na Grécia e em Roma, a religião era estatista; o homem dependia integralmente da pólis e não gozava de nenhuma liberdade espiritual. Nas antigas monarquias do Oriente, estava definitivamente reduzido à escravidão. Somente o cristianismo afirmou pela primeira vez sua independência com respeito à natureza, colocou-o em presença de Deus e repudiou o julgamento do Estado e o da sociedade externa quanto às suas relações para com seu Criador. Negando-se a adorar César, os mártires cristãos conquistaram espiritualmente a liberdade de consciência.
Uma grave objeção se apresenta: o cristianismo na história submeteu-se ao Estado, tornou-se seu dócil instrumento; os poderes e as dignidades cristãs tomaram dele a espada, queimaram hereges, tornaram-se culpados de uma Inquisição que era desconhecida da Grécia antiga. Mas estas debilidades trágicas são devidas não ao que Deus revelou ao homem por meio de seu Filho Jesus Cristo, isto é, não à essência do cristianismo, mas resultam totalmente da receptividade, da limitação humana, de uma deformação da revelação cristã que o homem efetuou para seus próprios fins. Todas elas foram sequela do paganismo, uma desfiguração humana da verdade do cristianismo, um atropelo do Estado e da sociedade bárbara aos direitos da consciência. Por isso, quando se considera o papel desempenhado pelo cristianismo na história, deve-se levar menos em conta as ações dos poderes e dos seres que se intitularam cristãos, as da hierarquia cristã, que, por desgraça, manifestou-se com demasiada frequência indigna do cristianismo, do que a ação interior que exerceu a religião de Cristo nas almas, na vida emocional e na consciência dos seres humanos.
A noção do homem como ser caído e pecador que, impotente por si mesmo, espera um socorro do céu, está longe de esgotar a doutrina cristã relativa ao ser humano. E este ponto, além disso, não é o mais importante. Deve-se convir, todavia, que nunca se cai senão de uma altura e, por conseguinte, se pôde descer, é porque em sua origem o homem esteve colocado muito alto. Somente um espírito livre, e não o escravo de uma necessidade natural, podia desprender-se de Deus. O homem não é uma gota no oceano da vida natural, como tampouco é um produto dos processos da natureza, que desconhece toda liberdade; o homem carrega em si a imagem divina, é o reflexo da natureza suprema, é criação de Deus, filho de Deus. Esta natureza superior não poderia ficar irremediavelmente destruída e aniquilada pela queda. A obra do Criador não poderia desaparecer definitivamente. Eis o ponto essencial da doutrina cristã no que se refere ao homem.
Como imagem do Criador do mundo, o homem mesmo é chamado a criar. O livro do Gênesis demonstra que foi destinado a reinar no mundo, a ser o cultivador e organizador da terra, a dar um nome a toda criatura animada. A própria queda indica que gozou de uma força e de uma liberdade que podiam orientar-se para o bem tanto quanto para o mal. Mas o cristianismo ensina igualmente que o Filho, que ele mesmo era também Deus, se fez homem, encarnou-se elevando dessa maneira a própria natureza humana a uma altura prodigiosa, oferecendo-lhe a possibilidade de uma teósis. O Filho de Deus é também homem; é o Filho do homem. Eis por que o homem é Filho de Deus, é adotado por Deus. O mistério do cristianismo não pode, portanto, humilhar o ser humano, visto que este recebe, através de Cristo Deus-homem, uma força criadora que o coloca acima da natureza.
O cristianismo popular, o da massa média não ilustrada, abriga uma profusão de elementos supersticiosos, de restos de paganismo que aparecem depois do cristianismo e no cristianismo, com aspecto ainda mais sombrio que no antigo paganismo pré-cristão. Esse cristianismo esmaga e diminui efetivamente o homem, faz dele uma tímida criatura. O que simplifica singularmente a tarefa da propaganda antirreligiosa é que se dirige à magia mais do que à mística cristã, a esse cristianismo convencional que nada tem a ver com o cristianismo puro, cuja existência parece ignorar.
As outras religiões históricas — o judaísmo, o islamismo, o bramanismo — criam também em Deus. Mas o cristianismo, e somente ele, une à fé em Deus uma fé no homem, no Deus-homem. Ele só afirma um parentesco interior entre o homem e Deus, a possibilidade de uma união entre o divino e o humano; ele só crê que Deus desce até o homem e que o homem se eleva até Deus.
Essa é sua particularidade principal, seu traço específico. Longe de ser a negação do mundo e do homem, é a religião da encarnação do espírito e da transfiguração do mundo. A consciência religiosa da Índia nega o homem e tende a absorvê-lo na divindade impessoal, enquanto a fé cristã o afirma, pelo contrário, quer transfigurá-lo e prepará-lo para a eternidade. A Igreja rejeitou o quietismo que professava a passividade absoluta do homem e repudiou as doutrinas que negavam a ação de sua liberdade. O homem não pode ser ativo, não pode apoderar-se dos elementos da natureza em si e ao redor de si, não pode chegar a ser o organizador do mundo senão quando não for apenas o produto do meio natural e social, quando possuir um princípio espiritual elevado acima da natureza, princípio que seja ao mesmo tempo ativo e independente das reações exteriores. Todavia, enquanto o materialismo não concede lugar algum a esse princípio interior, ativo e espiritual, é precisamente isso o que o cristianismo ensina: a existência de tal princípio.