CRISTIANISMO E ATIVIDADE HUMANA I

A literatura antirreligiosa soviética reuniu todos os argumentos formulados contra o cristianismo. Neles se repete tudo o que sustentaram seus adversários, Voltaire, Holbach, Dupuy, Feuerbach e Marx, mas em forma eminentemente vulgar. Lênin mesmo não deu provas de renovação alguma nem de qualquer originalidade doutrinária no que se refere à religião, mas excedeu todos os seus predecessores na crueza de suas invectivas. De toda essa fraseologia, um só argumento parece essencial e poderoso, podendo facilmente, pela impressão de grande verossimilhança que oferece, convencer aqueles que se interessam pouco pelo problema religioso por terem aprofundado insuficientemente sua essência; ei-lo: a religião, em geral, e em particular a religião cristã, rejeita a atividade do homem, prega a passividade, a submissão ao destino, a resignação perante a injustiça social e ensina a confiar em Deus para tudo, justificando, por isso mesmo, a opressão do homem pelo homem. Parece que na religião cristã o único ativo é Deus e a tarefa do homem consiste somente em orar, em resignar-se, em celebrar Te Deums e em esperar que opere a caris divina. Esta afirmação ilustra-se geralmente, na literatura antirreligiosa soviética, com exemplos simplistas que sublinham a inutilidade da espera do milagre, das orações e das ações de graças para obter uma colheita melhor e, pelo contrário, sublinhando também a oportunidade que oferece a adaptação à economia rural da técnica aperfeiçoada. Em uma palavra, opõe-se o trator à oração. Aqui se desconta o estado de atraso, a ignorância e o caráter supersticioso das massas religiosas, entre as quais o cristianismo, isto é, a religião do espírito, não se desprendeu inteiramente da magia pagã.

Mas os cristãos devem reconhecer, de todo modo, que com demasiada frequência a interpretação de sua religião tendia a humilhar o homem, a negar sua atividade e sua faculdade criadora. Não resta dúvida alguma de que os tratados de teologia, sejam ortodoxos, católicos ou protestantes, diminuíam-no e o esmagavam deliberadamente, negavam-lhe toda possibilidade de ação criadora no mundo circundante, na natureza e na sociedade, justificando exclusivamente um sentimento conservador da vida. Esta humilhação do homem, esta limitação de suas possibilidades, estava geralmente unida à doutrina do pecado na natureza humana. Partindo do princípio de que o homem é um ser caído cujas forças ficaram irremediavelmente minadas pela queda, no qual todo bem que possa manifestar-se provém da caris divina porque ele mesmo é apto apenas para praticar o mal, chegaram à conclusão de que era, de qualquer maneira, incapaz de criar uma ordem de sociedade justa e livre. Assim, explorou-se excessivamente a doutrina da queda e utilizou-se dela para manter o homem na escravidão, santificando um regime injusto de vida.

Para compreender a origem de semelhante interpretação do cristianismo e de tal abuso da ideia do pecado, é preciso, em todo caso, levar em conta que na vida religiosa coexistem dois princípios: o princípio divino e o princípio humano; a revelação da luz emanada de Deus e sua percepção pelos homens com toda a limitação que lhes é própria e na qual se acusam suas relações recíprocas, as relações de dominação e de escravidão. Se apenas Deus operasse, não teria existido o mal, não haveria imperfeição nem sofrimento; teria sido o advento do Reino. Mas o homem opera também e sua atividade pode ser boa ou pode ser má. E é ativamente que o homem se apossa até da luz que procede de Deus e a reflete em suas trevas, deformando-a conforme seus interesses pessoais e sociais, por ser, com muita frequência, incapaz de elevar-se até a concepção espiritual do cristianismo.

O homem compreendeu muito servilmente a doutrina cristã e a própria negação da atividade humana resultou de uma atividade má; a humilhação humana foi uma deformação humana do cristianismo. Porque, em realidade, a doutrina cristã, que não sofreu alteração nenhuma, ensina-nos, antes de tudo, a dignidade do homem, ao qual, longe de rebaixar, eleva, pelo contrário, a uma altura sem precedentes. A essência do Evangelho resume-se nestas palavras: Buscai primeiramente o reino de Deus. Este é o ponto essencial do cristianismo. O Evangelho diz-nos que a esse Reino se faz força; mas o buscá-lo corresponde à realização de uma vida perfeita, de uma plenitude de vida na qual entra toda justiça. Essa vida não pode significar uma submissão perante a mentira e a injustiça pela razão de que a natureza humana seja pecadora. Porque o pecado vence-se pela busca ativa do Reino de Deus, pela busca de uma vida melhor, mais perfeita, mais integral. Poderia dizer-se que o cristão é um eterno revolucionário ao qual não satisfaz nenhum regime de vida, porque ele busca o Reino de Deus e sua justiça, porque ele aspira à transformação mais radical do homem, da sociedade e do mundo. Se se distingue dos revolucionários exteriores, não é por um menor radicalismo de suas ideias, mas pela exigência de uma harmonia entre os meios e os fins, isto é, pela negação do ódio e da violência como vias conducentes à realização de uma vida perfeita.

O cristianismo não corresponde, de modo algum, à contínua espera do milagre como sucesso procedente do exterior e que se deva realizar no homem independentemente do que ele mesmo representa. Em efeito, uma passividade semelhante é até condenada como uma tentação. A só possibilidade do milagroso implica já, na vida espiritual, uma atividade do homem. Vladimir Soloviev dizia que é ímpio esperar de Deus o que pode realizar o homem por sua só intervenção. Igualmente, pode dizer-se que é ímpio apelar a Deus para obter uma boa colheita, quando a técnica humana, o aperfeiçoamento da economia rural, são perfeitamente capazes de realizá-lo. E assim para tudo. Deus mesmo deseja que a ciência e a civilização, a medicina e a técnica contribuam para a obtenção de uma vida mais perfeita. Mas a perfeição interior da vida, a transformação das vidas humanas, não pode ser obtida por ciência nenhuma nem por nenhuma técnica; ela pressupõe a atitude espiritual do homem para com o seu Deus.

Afirmar que o cristianismo é hostil à atividade do homem é contradizer, antes de tudo, os fatos históricos. Porque vemos que a maior atividade se desenvolveu precisamente no curso do período cristão da história e que o maior dinamismo foi patrimônio dos povos que aceitaram o cristianismo, isto é, dos povos do Ocidente. O cristianismo revelou-se uma força criadora e motriz na história e até seus adversários haverão de reconhecê-lo. Os povos das antigas civilizações do Oriente (China, Índia, Pérsia) que não o aceitaram, parecem separar-se da História Universal, anquilosam-se e vivem do passado. Enquanto o cristianismo é precisamente, entre todas as religiões, a que possui mais aptidão para dirigir o olhar dos povos para o porvir.

Este fato explica-se por seu caráter messiânico, por sua fé no Reino de Deus para o qual se encaminha o mundo. O próprio conceito da história, como processo dinâmico cheio de sentido e dirigido a um fim supremo, surgiu graças ao cristianismo. Esse conceito resulta do fato de que, no centro da história, apareceu Cristo, o Salvador do mundo, ou seja, do fato de que o sentido do processo universal se fez carne. O próprio conceito da história era desconhecido aos gregos e a toda a civilização antiga, porque sua consciência não estava orientada para o porvir; o peculiar desses povos era a noção de um movimento cíclico. O grego antigo era contemplativo, não ativo; admirava esteticamente a beleza do cosmos, da harmonia universal; sua religião estava unida aos mitos do passado. Os acontecimentos mais importantes referiam-se a esse passado.

O cristianismo, pelo contrário, não se limita ao passado; olha para o porvir, para a segunda vinda de Cristo, para o Reino de Deus, para o fim do mundo, em que é chamado a realizar-se o sentido das coisas. O dinamismo introduzido pelo cristianismo na história das sociedades humanas vai ligado a essa busca do Reino de Deus, ou dito de outro modo, da vida perfeita. Esta busca intensa, este descontentamento do mundo tal como ele é, são peculiares somente do cristianismo; ele só inoculou na alma humana essa inquietude que não pode ficar satisfeita senão com uma perfeição semelhante à do Pai Celestial.

Todas as utopias sociais do século XIX, todas as ideologias de um regime social perfeito e equitativo não puderam elaborar-se senão em um mundo cristão; todas oferecem uma transposição ao meio social da noção cristã do Reino de Deus. E a ideia de Marx referente ao messianismo do proletariado possui igualmente uma origem religiosa, embora seja mais judaica que cristã. A civilização grego-romana, aristocrática por princípio, desprezava o trabalho e considerava-o como patrimônio dos escravos. E sua santificação vem-nos do cristianismo, do Evangelho. Cristo mesmo foi um trabalhador; dele são estas palavras: o obreiro é digno do seu alimento, que se aproximam destas de Paulo: se alguém não quer trabalhar, também não coma. As parábolas evangélicas referentes aos talentos, ao homem que tinha uma vinha, evocam o trabalho, a atividade, os dons criadores do homem. O homem tem que devolver multiplicados os talentos que recebeu de Deus.

O trabalho, a atividade do homem, deve produzir frutos. O homem é chamado a cultivar a terra; tem sempre que restituir mais do que se lhe deu. De modo que sua passividade não pode, de nenhuma maneira, justificar-se pelo Evangelho.

Precisamente é o cristianismo que afirma a dignidade de todo ser humano como imagem de Deus. Deus desdobra perante o homem a infinidade dos caminhos de seu aperfeiçoamento, que não se devem considerar somente sob um ponto de vista individual, porque possui também um alcance social. O cristianismo vê no homem um ser espiritual; e como o espírito é ativo por definição, o ser espiritual não pode deixar de aspirar à infinitude, à perfeição, à plenitude da vida. E esta aspiração implica por si só o movimento, a dinâmica, a atividade. O pagão antigo via na natureza demônios e espíritos e os temia, tremia perante eles porque tinha consciência de que estava submetido a eles. O cristianismo libertou o homem do temor ancestral que lhe inspiravam o caos e as sombrias forças demoníacas veladas atrás da natureza; livrou seu espírito desse abatimento, pô-lo ereto, submeteu seu destino a Deus, isto é, a algo interno, não externo. O homem não podia conhecer a natureza cientificamente nem dominá-la por meio da técnica enquanto ela lhe aparecesse povoada de demônios e de espíritos dos quais dependia sua própria vida. Essa é, aliás, a razão da limitação que oferece o desenvolvimento das ciências naturais e da técnica no mundo antigo. Ao livrar o homem desse pandemonismo, o cristianismo preparou espiritualmente a possibilidade do desenvolvimento ulterior das ciências, o domínio da natureza e sua sujeição ao homem.

Não se deve pensar, todavia, que este estado de coisas tenha se manifestado de uma só vez; o homem teve que passar na época medieval por uma luta ascética e espiritual na qual se encontrou em guerra com a natureza, em si mesmo e ao redor de si; teve primeiro que subtrair-se ao seu influxo. As ciências podem revolver-se contra o cristianismo, mas, ao fazê-lo, esquecem que nunca teriam podido ver a luz do dia sem sua obra preliminar; esquecem que, se tiveram seu desenvolvimento nos tempos modernos, devem-no, antes de tudo, à libertação interior do espírito humano que a fé cristã trouxera consigo.

Só pode vencer o mundo e fazê-lo seu o ser que se eleva acima dele porque não é uma fração infinitesimal do mesmo, porque não é somente o produto e o reflexo de seus processos, porque possui uma fonte diferente de energia, uma fonte interior. Não se pode vencer o mundo senão se o mundo visível que nos cerca e nos oprime de todos os lados forma uma parte do mundo invisível no qual estamos lançados e do qual tomamos nossa força criadora e transfiguradora. Mas isso é precisamente o que nos ensina o cristianismo; se os que o atacam em nome da atividade do homem não o veem, é unicamente porque permanecem na superfície sem penetrar na profundidade do problema.