Tudo é impremeditado, espontâneo, expresso com modéstia impressionante.
Fórmulas de apologias como se quiseres aventurar uma explicação ousada ou poderás considerar se talvez, deixando solução ao ouvinte.
Nenhum traço do pathos: agostiniano que abre portas do coração.
Distante também do equilíbrio sagaz e humanístico de Basílio.
Voz do alexandrino comparada a vento desértico ardente e sem chuva sobre delta do Nilo, com paixão não romântica: rajadas puras e ardentes.
Comparação com Heráclito e Nietzsche: obra é, externamente, cinzas e contradição, com sentido apenas pelo fogo da alma que força material ingovernável em unidade.
Paixão deles provém apenas do mistério dionisíaco do mundo; em Orígenes, chama dispara para mistério do Logos:-Verbo supramundano.
Pensamento de Orígenes é contribuição para consumação de seu único objeto: voz, fala, Verbo de Deus.
Voz que corta coração como espada de fogo, fala que sussurra mistérios de amor com ternura de outro mundo, Verbo que é clarão e reflexo da beleza oculta do Pai.
Voz de Orígenes foi atraída para anonimato deste Verbo, alcançando presença universal no pensamento cristão.
Rejeição e condenação de Orígenes pela teologia cristã
Após longa e desesperada oposição, foi rejeitado e condenado.
Julgamento toca apenas esqueleto seco de seu pensamento, mas Orígenes permaneceu homem marcado.
Figura é sustentada pela estrutura óssea; sem ela, colapsa.
Nenhum grande sistema permite separação entre forma e conteúdo, mesmo quando não se unem perfeitamente, como em Hegel.
Verdade de todas as grandes coisas repousa menos no o que do que no como; espírito do todo dá sentido e unidade ao todo.
Todos os membros participam primeiro da verdade da ideia indivisível.
Muitos tentaram cristianizá-lo mecanicamente: desligar preexistência e restauração, moderar visões extravagantes.
Resultado é produto plano e sem brilho, cheio de coisas agradáveis e inofensivas, mas sem sopro do gênio.
Edição de obras completas pela comissão da Academia de Ciências da Prússia é ferramenta confiável para estudioso, mas apenas um meio.
Filósofo e teólogo precisam esculpir, comparar e avaliar forma que jaz adormecida como estátua na rocha.
Traduções alemãs exemplares de Koetschau dão novo acesso a Contra Celso, Sobre a Oração e Exortação ao Martírio, mas são apenas convites.
Tratado Contra Celso hoje tem poucos leitores; duas outras obras curtas não levam ao coração do pensamento origeniano.
Coração torna-se audível apenas para quem se aprofunda nos comentários bíblicos, não em Peri Archōn, mas nos comentários sobre Antigo e Novo Testamento.
Decisão de fazer seleção de obras para revelar verdadeiro rosto de Orígenes
Apresentar obras completas a leitor moderno seria tarefa sem esperança: muitas são pilha desordenada de fragmentos, outras traduções latinas modificadas.
Obras ditadas frequentemente cheias de digressões, sem subdivisões, repetições e passagens desagradáveis para não iniciados.
Seleção de trechos que ainda fazem sentido hoje, de modo que interconexão destas passagens centrais revele verdadeiro rosto como em mosaico.
O que ainda faz sentido hoje é também coração vivo que fez sentido então e sempre.
Buscar vínculo espiritual interno no pensamento de Orígenes coloca além de interesse puramente histórico, erguendo estátua na arena da investigação intelectual.
É impossível separar de modo puramente material heterodoxo de ortodoxo em Orígenes; ambos estarão representados.
Preocupação primária é verdade mesma deste quadro; colosso de Daniel consistia de metais diferentes e pés de barro, mas ainda era colosso.
Questão fundamental sobre influência de Orígenes na teologia cristã
Se forma e conteúdo estão em relação íntima em Orígenes, presente em toda teologia cristã, que conclusão tirar para teologia cristã?
Orígenes fluiu por séculos como correnteza ampla no leito do pensamento cristão, tão poderosamente que até oponentes como Metódio submeteram-se a sua autoridade.
O que significam barreiras que deveriam impedir sua heterodoxia de penetrar santuário?
Resposta de Harnack: nada ou quase nada; Orígenes é importação decisiva do mundano e grego no espírito do Evangelho.
Peri Archōn é primeira Summa teológica, tentativa original de dominar revelação por meio da lógica humana.
Teologia desde então impotente para resistir sedução desta poderosa gnose.
Argumento com Harnack deve começar em negação injustificada de possibilidade de desenvolvimento humano da revelação evangélica na teologia e de direção sobrenatural da Igreja na formulação teórica do depósito da fé.
Visão religiosa de Harnack carece de conceito de Verbo vivendo e dando testemunho na Igreja como seu Corpo.
Divisão do pensamento de Orígenes em três estratos
Primeiro estrato: opiniões heterodoxas influenciadas por mitos platônicos, rejeitadas pela Igreja.
Inclui subordinação das Pessoas Divinas, comum antes de Niceia, e separação forte de papéis na história da salvação.
Ideia de que alma é apenas imagem e semelhança do Logos:, e apenas imagem indireta do Pai, tornou-se obsoleta após ensino trinitário do primeiro concílio geral.
Tendência à subordinação trinitária tem origem greco-gnóstica, conectada a tentativa de preencher lacuna entre Deus e mundo por emanações, esferas, degraus.
Ideia de que Logos: encarnou-se em todos estes estágios, sendo anjo para anjos, e alma que sobe torna-se escada viva para céu.
Subida da alma através estágios celestes e igualdade essencial entre humanos e anjos pertencem a mundo de ideias helenístico.
Viagem ascendente é contraparte do primeiro pecado mítico, origem da diferença qualitativa das almas.
Deus deu a cada alma, conforme seu afastamento da luz primordial, corpo mais espesso e pesado ou mais espiritual.
Círculo fecha conexão entre preexistência, subordinação, encarnação em todos os níveis, movimento ascendente e tornar-se anjo.
Segundo estrato: influência puramente formal das doutrinas descritas em todo seu pensamento.
Mais questão de atitude do que conteúdo, quase completamente separável das doutrinas materiais.
Pouca barreira para aceitação desta atitude formal na Igreja, pois toda era do declínio da antiguidade a respirava como atmosfera comum.
Filtro não foi forte o suficiente para manter fora este estrato, que se tornou invisivelmente onipresente na teologia cristã.
Diferentes nomes dados a esta manifestação: platonismo dos Padres, fuga do mundo.
Atitude melhor caracterizada por movimento direcional formal lido a partir do primeiro estrato: caminho para Deus como reascensão.
Theologia gloriae dos gregos em geral e de Orígenes em particular: tudo graduado para cima, tudo dirigido às ascensões no coração.
Cruz, túmulo, dor e sofrimento não são suprimidos, mas sempre como nuvens que desaparecem, cortinas levantadas.
Orígenes sabia que toda vida cristã deve ser perseguição; escreveu exortação ao martírio e sofreu martírio.
Teoria da aporia: insight em palavra do Logos: só é dado quando espírito parece perdido em desesperança e perplexidade.
Ataque dos poderes inimigos e morte interior tornam-se mais fortes à medida que se sobe, mas são batalhas épicas e oportunidades heroicas.
Co-redenção do mundo com Cristo: sempre o mais forte, mais avançado, que luta pelos membros mais fracos do corpo místico.
Modelo de ascensão frequentemente confundido com pelagianismo e piedade de obras; falsamente, pois cada passo para cima implica ser erguido e atraído.
Consciência de status do avançado unida a humildade não hipócrita e consciência do pecado.
Tudo o que é, é somente pela graça de Cristo.
Este Orígenes entrou sem reservas nos mais amplos alcances do pensamento da Igreja: alexandrinos posteriores, Panfílio, Gregório Taumaturgo, Dídimo, Eusébio, Capadócios, Jerônimo, Hilário, Ambrósio e Agostinho aceitaram seu modelo.
Através destas figuras dominantes, também pequenos pensadores, pregadores, povo.
Terceiro estrato: aspecto unicamente pessoal, misterioso e inimitável deste grande espírito, não transmissível.
Modelo e hábitos formais de pensamento podem ser reformulados em forma escolar, mas paixão e sopro do gênio escapam necessariamente.
Núcleo mais vital no pensamento do Mestre foi rapidamente negligenciado até por adeptos cegos.
Ideias que tocam este núcleo íntimo só têm brilho completo quando vistas a partir deste centro.
Sustentação e ponto médio deste círculo íntimo é amor igualmente apaixonado e terno pelo Verbo.
Por causa deste amor, muitas coisas transformaram-se de cotidianas em realidade mística infinitamente misteriosa.
Significado do segundo estágio parece suspenso e revertido: da unidade imediata com Deus-Verbo, insights súbitos irrompem como relâmpagos.
Insight sobre essência da escritura como grande sacramento da presença real do Verbo divino no mundo.
Orígenes como maior filólogo da antiguidade cristã, autor da Hexapla; conhecimento gramatical valioso, mas apenas meio para sentir coração batendo internamente do Verbo encarnado neste corpo de humildade.
Método alegórico só é frutífero quando BÍBLIA é entendida em relação imediata com encarnação.
Doutrina da comunhão espiritual do Verbo: conhecimento profundo de Ser absoluto que é Verbo e alimento substancial do espírito criado e necessitado.
Paixão do Verbo: lançada no Calvário era semelhança sacramental de outra lança que feriu espiritualmente o Verbo e fez fluir.
Pressentimento de que toda palavra de Deus derramada neste mundo se deve a esta lança.
Insights sobre mistério da kenosis e esvaziamento de Deus são raros após Orígenes; nele, surgem brevemente e contra corrente de seu pensamento.
Esvaziamento é sabedoria, descida é sabedoria, esterilidade é sabedoria, fraqueza e impotência são sabedoria.
Sabedoria esvaziada, derramada, crucificada teve de despontar em raros momentos para este amante intenso da sabedoria.
Visão de Orígenes sobre Igreja de seu tempo: sonho primitivo cristão da noiva sem pecado de Cristo chegou ao fim.
Igreja imaculada é pura apenas porque é absolvida diariamente pelo sangue de Cristo de sua nova infidelidade e prostituição.
Se ascensão ocorre aqui, é apenas em descida simultânea, até o fundo do poço.
Lágrimas do Salvador sobre Jerusalém aplicadas à sua dor sobre a Igreja; mais tarde, esta dor perturbou profundamente Agostinho.
Espírito e Fogo como título e centro do pensamento origeniano
Espírito como fogo e fogo como espírito ainda brilham apenas neste centro: Chama é o que verdadeiramente sou!
Fogo simultaneamente amor e Sabedoria, calor puro e luz pura.
Dualidade em que esta alma experimenta seu Deus: como fogo consumidor e como luz na qual não há trevas.
Como amor, este fogo é pura impaciência que não se contenta com preliminar ou imaginado, mas é imediatamente consumido, purificado e elevado a espírito.
Como insight, é como raio-X que atravessa coisas finitas até sua essência tornar-se visível.
Neste centro de ardor puro, no fogo maior de Deus, alcança-se lugar anterior a toda teoria das ascensões no coração.
Fogo é saltar e lamber para cima, estender-se do material consumido da finitude para o ilimitado.
Como fogo de Deus que consome entranhas do espírito, envolve simultaneamente ser queimado mais profundamente, dragagem progressiva do coração até tornar-se espaço puro e éter puro da luz.
Quando este estágio final é reconhecido como decisivo, chamas do anseio só podem impulsionar para cima: ascensão não é mais escalada por estágios, mas conflagração espiritual e cósmica, tocha espiritual de sacrifício a Deus.
Propósito da seleção: demonstrar significado de Orígenes para história da teologia
Não concordar com Harnack de que Orígenes levou teologia por caminho falso.
Através de sua influência maciça, elementos entraram na teologia que, nesta forma, não se encontram na BÍBLIA: segundo estrato, theologia ascendens.
Este estrato é mais atitude formal do que conteúdo, resíduo formal dos conteúdos.
Atitude mantida anonimamente e despercebida através de toda história da teologia; importante rastrear caminho até seu aparecimento em forma pura.
Seleção incluirá do primeiro estrato apenas o necessário para tornar esta unidade visível.
Textos conhecidos sobre mito da preexistência das almas presumidos como conhecidos, mas textos que aludem abertamente a este mito serão incluídos por razões como vislumbre da consciência cósmica massiva de Orígenes.
Textos subordinacionistas trinitários excluídos, mas subordinação ainda irrompe em muitos lugares por estar inseparavelmente misturada com estrutura básica da síntese mundial de Orígenes.
Orígenes é mais ortodoxo dos teólogos pré-nicenos; distingue claramente processões divinas internas da criação do mundo.
Subordinação em Orígenes tem aspecto mais forte de história da salvação, podendo ser harmonizada com teologia nicena.
Ensino sobre sacramentos, especialmente penitência, conscientemente excluído, mas muitos textos selecionados terão a ver com eles indiretamente.
Se interpretação espiritual dos sacramentos parece ser única representada, lembrar que Orígenes estabeleceu fundamento do realismo sacramental.
Razão está no caráter fundamentalmente sacramental de todo plano de salvação, que repousa em estrutura quase sacramental do próprio ser.
Observações sobre crítica a Orígenes e erros a evitar
Crítica não deve ir na direção do espiritualismo bruto e literalmente entendido.
Caminho do corpo ao espírito, da imagem material à verdade ideacional, não é para destruição do corpo e imagem, mas para sua transfiguração.
Lei fundamental: tudo apenas sensitivo deve ser consumido pelo fogo de Deus quando está diante de seu rosto, e só passando por este fogo é salvo.
Orígenes aplica esta lei a toda situação onde há relação semelhança-verdade.
Segundo erro seria rejeição fundamental do esoterismo de Orígenes, fundamentado em sua doutrina do ser mesmo.
Esoterismo é consequência da ideia cristã de que verdadeiro conhecimento só é alcançado pela ação.
Antecipação de conhecimento superior por alguém ainda impuro e despreparado pode ser prejudicial e existencialmente falso.
Cada estágio de maturidade na existência tem seu estágio correspondente de verdade; Verbo de Deus encarnado adapta-se a cada estágio.
Verbo, verdade pessoal, absoluta e única, não se torna mentiroso por adaptação a diferentes estágios de maturidade.
Teologia posterior abandonou este esoterismo ao preço de separação progressiva entre teologia escolar e teologia mística.
Crítica ao modelo formal da ascensão e suas consequências
Crítica bem-sucedida começa quando toma como objeto atitude formal da ascensio in corde e ampla esfera de suas consequências.
Orígenes descobriu ditado insondável: Mas como ele se esvaziou ao vir para esta vida, este mesmo ser-vazio era sabedoria, mas nunca tirou últimas consequências.
Ideia alexandrina de encarnação lembra ação de bola lançada de grande altura que atinge chão e retorna ao ponto de partida.
Kenosis comparada a onda do mar que avança na praia, torna-se mais fina e transparente, e não retorna à fonte, mas afunda na areia.
Afundamento e desaparecimento do Verbo esvaziado é, imediatamente e sem graus, regressão, entrega do reino ao Pai.
Esvaziamento da morte e humilhação é já eliminação da multiplicidade das imagens e letras, da lei e profetas, processo transitório para dar lugar à Glória do Senhor.
É necessário que ele cresça e eu diminua é crescimento de Cristo em nós; só nesta forma teologia do Pneuma e teologia espiritualizante têm direito fundamental à existência.
Modelo da teologia do ascensus entende diminuição apenas aplicada ao humano exterior, enquanto aumento é crescimento do interior pneumático.
Perigo real da doutrina da inhabitação mística: no fundo da alma, Pneuma e espírito criado estão em contato imediato e se fundem.
Unidade toma forma concreta pela palavra de Paulo: O mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.
Orígenes confunde no final heróico e cristão: heróico é forma exaltada de virtude natural; cristão é forma sobrenatural da morte e ressurreição de Cristo estendida a todo mundo natural de valores.
Entre cristão simples e gnóstico há clara ascensão, porque no gnóstico vida pneumática interior vive mais alto, mais forte e mais cheia de vida.
Estes níveis são lei essencial, não algo empírico; realidade empírica pode estar invertida, mas lei do ser permanece inalterada.
Teologia do ascensus conecta-se com humildade, auto-abaixamento, auto-negação e forma mais estrita de ascetismo monástico.
Cultura monástica oriental até luz elevada do Athos, onde, no genuíno morrer do humano exterior, humano interior sobe à participação na transfiguração sempre mais plena de Cristo no Tabor.
Descida da cruz é apenas queda da casca do sensual da realidade da ressurreição do Espírito.
Influência da atitude formativa no esoterismo e interpretação bíblica
Influência estende-se ao esoterismo de Orígenes: sentido espiritual esotérico jaz claro e imóvel atrás da imagem da letra.
Em vez de entender realidade corpo-espiritual unificada do mundo como imagem unificada que aponta para além de si à infinidade de Deus, corpo e letra tornam-se imagem que aponta para verdade da esfera do espírito.
Orígenes busca na história bíblica terrestre imagem da história celestial, em vez de interpretar história humana corpo-alma como imagem da história divina descendo a nós.
História cósmica celestial da alma funciona menos como verdadeiro espírito e mais como segunda letra atrás da primeira.
Crítica deveria ter começado aqui, não com método alegórico.
Mesmo quando Orígenes entra em caminho falso, admiração por seu sentimento único pelo sentido espiritual da escritura permanece.
Interpretações têm moderação, bom senso e gosto, destacando-se claramente de outros exegetas alegorizantes.
Poucos hoje sabem que BÍBLIA tem Deus como autor e deve ter significado digno de Deus.
Através de cada erro objetivo, brilha sempre um sentido último cristão e eclesial que desarma críticos.
Terceiro estrato abre novos caminhos e, no final, supera tendências gnósticas.
Em penúltimas coisas, Orígenes é heterodoxo; em últimas coisas, é católico.
Apego infantil à igreja visível, seu dogma, tradição, sacerdócio e sacramentos demonstra isso.
Igreja é grande sacramento total que continua sacramento do Corpo de Cristo, preserva sacramento da palavra escriturística e ativa sacramentos como marcas distintivas e funções.