Abade Stephane. Introduction à l’ésotérisme chrétien I. Paris: Dervy-livres, 1979
É de toda evidência que a Bíblia não é uma história como as outras, ou seja, uma série de fatos ou de anedotas que se estuda do exterior tentando introduzir nela artificialmente laços não menos exteriores. O “método histórico” ou “exegético” tão caro aos nossos contemporâneos é portanto totalmente impotente para dar o “sentido” da Bíblia; ele se contenta em estudar documentos em si mesmos, de os situar penosamente em um quadro cronológico ou geográfico, mas ao fim de tantos esforços, o que resta, e em que um tal trabalho contribui para dar a inteligência das Escrituras?
Sem dúvida se objetará que é útil, para evitar contrassensos, conhecer melhor o meio e a mentalidade oriental onde os escritos sagrados se elaboraram, que é necessário ter um conhecimento sério das línguas semíticas, dos “gêneros literários” das diferentes épocas, de saber que os orientais não tinham a mesma concepção da história que nossos contemporâneos, em suma, há todo um trabalho externo do qual não se contesta a utilidade, mas que corre no entanto o risco de ser uma causa de dispersão e de divertimento, e finalmente um obstáculo à inteligência das Escrituras.
Não basta tampouco considerar a Bíblia como um conjunto mais ou menos díspar de escritos inspirados, ou seja compostos não se sabe muito bem como, nem por quem, sob o movimento do Espírito Santo, e destinados à nossa edificação; não é que esta maneira de ver seja inexata, mas ela é ainda insuficiente.
Aproximar-se-á um pouco mais da verdade dizendo: “A Bíblia, é Deus quem fala”. Ele nos fala pelos Profetas, depois, nos últimos tempos, pelo Filho Único, “o resplendor de sua Glória, a marca de sua Substância” (cf. Epístola aos Hebreus, Preâmbulo). Estas últimas palavras nos orientam para uma perspectiva essencial: a Bíblia não é um simples discurso, um ensinamento, uma exortação, uma história edificante, ela é muito mais que isso: ela é uma “teofania”, uma “manifestação divina”, uma “Revelação” de um gênero especial. O que faz a originalidade desta “Revelação”, é que ela se cumpre através da história de um povo, — Israel — não somente escolhido ou predestinado a servir de suporte a esta “teofania”, mas não tendo existência e “razão de ser” senão pela “ação” desta “teofania”: o que constitui Israel, é a Palavra, é a Aliança, é a Promessa dadas em primeiro lugar a Abraão e renovadas em diferentes ocasiões em seguida. É importante insistir um pouco sobre esta ideia de um perpétuo “renovamento”: a história de Israel aparece com efeito como uma série de infidelidades e de transgressões obrigando Deus a “renovar” continuamente a Aliança. Em outros termos, há uma espécie de oposição irredutível entre “o Israel segundo a carne” e “o Israel segundo o espírito”, um combate perpétuo entre Deus e Satã, e se o Cristo obteve uma vitória contra Satã, a luta não continua menos entre o “Novo Israel” — a Igreja — e Satã, e a vitória definitiva não será adquirida senão “no fim dos tempos”. O Apocalipse, que é o livro essencial da profecia cristã, não permite ter nenhuma dúvida a este respeito: a realização definitiva da Aliança ou da Promessa não pode ter lugar senão no nível da verdadeira Jerusalém, da Jerusalém Celeste, no fim dos tempos, quando “tudo será consumado”.
Assim portanto, se é essencial para a inteligência do Antigo Testamento de o situar na perspectiva do Novo, é não menos essencial para a inteligência do Novo, de o situar na perspectiva apocalíptica. Há evidentemente uma espécie de paradoxo, e seguramente um mistério, nesta “história” de Israel considerada em sua totalidade. O Cristo “cumpriu” o Antigo Testamento e “renovou a Aliança”, mas o Novo Testamento não será “cumprido” ele mesmo, assim como o “renovamento de todas as coisas”, senão “no fim dos tempos”, no retorno do Cristo Glorioso. Em um sentido tudo já está “renovado” no Cristo, mas este renovamento é “atemporal”, “principial”, “supra-histórico”, de modo que no nível temporal, no nível da história da presente humanidade, pode-se dizer que “nada está mudado”. O Êxodo libertou Israel da escravidão do Egito, o que não o impediu de modo algum de adorar o Bezerro de Ouro, enquanto Moises assistia à “teofania” do Sinai; o batismo — antítipo do Êxodo — liberta o cristão da escravidão de Satã, o que não o impede de adorar todos os ídolos do Panteão moderno, enquanto o Cristo Glorioso está sentado à direita do Pai.
Há portanto uma analogia profunda entre o Antigo e o Novo Testamento: a história de Israel, é a nossa, é a da Igreja, e não é sem motivo que a liturgia cristã utiliza abundantemente o Antigo Testamento. Se é bem verdadeiro que não se está mais sob o regime da Lei, é não menos verdadeiro que se está ainda sob o regime da Fé, e é somente “em esperança que somos salvos” (Rom. VIII, 24). Esta última observação merece ser sublinhada: a Bíblia deve ser considerada na perspectiva da Liturgia, esta, por sua vez, em virtude do que se disse mais acima, deve ser considerada na perspectiva apocalíptica da “Liturgia celeste”, e o simbolismo da Aliança não difere essencialmente daquele da Esposa — a Igreja — e das Núpcias eternas do Cordeiro; as visões de Ezequiel e de Isaías (VI, 2) são essencialmente as mesmas que as de São João (Apoc. IV, 2-11).
Parece que a mentalidade “positivista” de nossos contemporâneos tende a subestimar ou a perder de vista a perspectiva apocalíptica da Revelação judaico-cristã; sob pretexto de “encarnação”, ela tende a situar a “teofania” no plano da história como tal, e a não ver nas visões proféticas senão uma “imagem” do que deve se realizar “progressivamente” no tempo, ao termo de uma evolução indefinida e segundo uma “dialética histórica” incapaz de ultrapassar o nível da história. Esta é uma perspectiva radicalmente falsa e uma verdadeira “subversão” do “simbolismo apocalíptico”; são, ao contrário, os eventos bíblicos que são o símbolo do que deve se cumprir “no fim dos tempos”, e quando se diz que a Revelação cristã é um “cumprimento” da história, isso não significa de modo algum que o “temporal” como tal é “renovado” pelo espiritual — pois o Bezerro de Ouro está sempre de pé — mas que, quando tudo será “consumado”, ou seja que todas as possibilidades deste mundo serão esgotadas, então somente “virá o fim” (Mateus XXIV, 14) e o “endireitamento final”, que nada tem a ver com o termo de uma evolução qualquer.
É preciso agora sublinhar alguns aspectos característicos desta “teofania” bíblica que permitem compreender certos traços paradoxais ou aparentemente contraditórios da Revelação judaico-cristã.
É metafisicamente impossível que a Essência divina em sua Realidade transcendente possa se revelar como tal: ela não pode se revelar senão a si mesma no Mistério da “irradiação divina”. Se ela se revelasse como tal no mundo criado, este seria imediatamente “reduzido a cinzas” pela “fulguração” da Glória divina. Sobre este ponto, o testemunho de Moises no Sinai é sem equívoco: “Ninguém pode ver minha Face sem morrer” (Êxodo XXXIII, 20). Para se manifestar a Face divina deve se “velar”, o que é um dos aspectos da “Revelação”. Toda “teofania” apresenta portanto uma ambiguidade fundamental: ela é um véu sobre a Divindade que quer se revelar. Enquanto “véu”, a “teofania” permite ao mundo subsistir enquanto as possibilidades deste mundo não são esgotadas; enquanto “desvelamento” de certa forma “parcial” da Divindade, ela não pode não provocar as reações dos “cães” e dos “porcos”, e a revolta de Satã. Concebe-se assim facilmente as transgressões de Israel, e o combate, que deve durar até o “fim”, entre Deus e Satã. Por outro lado, a “teofania”, na impossibilidade de ser uma manifestação da Essência divina como tal, manifesta somente “aspectos” ou “atributos divinos”. É assim que YHVH revela a Moises seu Nome, que ele manifesta sua Justiça a Amós, sua Misericórdia a Oseias, sua Santidade a Isaías. Quanto ao Cristo, enquanto Verbo Encarnado, ele revela o Pai do qual ele declara ao mesmo tempo “que ele é maior que ele” (João XIV, 28) e que o Pai e ele não fazem senão Um (João X, 30). Mas a Essência divina permanece incomunicável e inacessível à criatura como tal, e esta não pode conhecer Deus senão através do “véu” da Revelação.
À luz das considerações precedentes, pode-se conceber melhor que o “retorno” do Cristo Glorioso, esta nova “teofania”, possa ser, não uma Revelação sempre impossível da Essência Divina enquanto tal, mas uma “fulguração” do Raio divino suscetível de “aniquilar”, não o conjunto de todos os mundos possíveis (os Anjos não são afetados pela Parousia), mas um mundo particular como o nosso, este “aniquilamento” sendo aliás apenas uma “transformação” da qual testemunham os “Novos Céus” e a “Nova Terra” do Apocalipse. A “teofania” aparece assim durante todo o Antigo e o Novo Testamento, e de uma maneira definitiva no “fim dos tempos”, como um “Julgamento”, uma “segregação”, uma “separação dos eleitos e dos condenados”, sem que se possa precisar, nem sobretudo imaginar como se passará este Julgamento: há aí um mistério que ultrapassa nosso entendimento limitado e restrito às condições de existência de nosso mundo, mas pode-se conceber o quanto tudo isso ultrapassa os horizontes de uma “dialética histórica” ou de uma “evolução” progressiva ou regressiva qualquer, da qual não se poderia denunciar demais a ilusão inconsciente e a tolice.