O bloco narrativo mais importante do texto concentra-se no diálogo entre Jesus e a mulher samaritana, figura que representa e simboliza a questão samaritana ali exposta, num estilo literário muito próximo do diálogo entre Jesus e Nicodemos e dos demais diálogos do quarto evangelho.
O contraste literário opõe as declarações-revelações de Jesus — novas e óbvias — às incompreensões da samaritana, situadas no plano da lógica histórica.
O conjunto dos diálogos joanicos insere-se no círculo hermenêutico da retórica do Jesus joanico.
Nicodemos, Marta e Maria são personagens cujos diálogos com Jesus apresentam estrutura análoga à do diálogo com a samaritana.
Em João 4,5-15, o diálogo nasce a partir da realidade geográfica do poço de Jacó, estrutura que ainda existe e carrega longa história bíblica.
A narrativa apresenta Jesus fatigado pela viagem, sentado na borda do poço por volta do meio-dia, com espaço, lugar e tempo devidamente introduzidos.
João 4,6: “Jesus, fatigado pela viagem, sentou-se, sem mais, na borda do poço. Era por volta do meio-dia.”
O espaço geográfico abrange toda a terra do Norte de Israel com as dez tribos separadas, o lugar é o poço de Jacó com sua carga histórica e simbólica, e o tempo é a hora sexta — o meio-dia —, a mesma expressão empregada pelo autor na cena da crucificação.
João 4,13-15: “Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede, mas, quem beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede: a água que eu lhe der há-de tornar-se nele em fonte de água que dá a Vida Eterna… Senhor, dá-me dessa água, para eu não ter sede, nem ter de vir cá tirá-la.”
O autor opõe à água natural do poço de Jacó — associada ao Antigo Testamento — a água viva da revelação de Jesus, respondendo de maneira escatológica à repreensão de Jeremias, e concentrando no sinal da samaritana os demais sinais joanicos da água.
Jr 2,13: “O meu povo cometeu um duplo mal: abandonou-me, a mim, nascente de águas vivas, e construiu cisternas para si, cisternas rotas, que não podem reter as águas.”
Os sinais convergentes são: o das Bodas de Caná (água-vinho novo e melhor), o de Nicodemos (água-Espírito Santo) e o da água-sangue que sai do lado do Crucificado em João 19,34.
A água do poço de Jacó recebe, em Jesus, uma performatividade simbólica e sacramental de continuidade e descontinuidade.
A velha história entre judeus e samaritanos, geradora de feridas, é apresentada como curável apenas por esta nova água e este novo poço — Jesus.
A partir do centro de performatividade em torno da metáfora da água, desenvolve-se outro centro — o do marido —, em que Jesus substitui os cinco maridos de Samaria, assim como nas Bodas de Caná ele é o noivo-marido identificado com o melhor vinho das novas núpcias de Deus com seu povo.
O Jesus joanico distingue entre a verdade dos samaritanos e a dos judeus, afirmando de modo absoluto: “a salvação vem dos judeus” (João 4,22).
O verdadeiro Messias-Profeta não é o Taheb dos samaritanos, mas o Messias anunciado por Moisés e pelos profetas.
Os samaritanos reconheciam como Escritura Sagrada apenas o Pentateuco samaritano, excluindo os profetas e demais escritos.
João 4,23-26: “Mas chega a hora — e é já — em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade… Eu sei que o Messias, que é chamado Cristo, está para vir… Sou Eu.”
A afirmação de Jesus em João 4,22 — “Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus” — tem sido interpretada de muitas maneiras, inclusive questionada como possível glosa, e tem sido defendida em razão de posições antissemitas em setores religiosos e políticos.
O encontro com a samaritana determina a hora escatológica de Jesus e sua identidade ontológica, como ocorre em todo o evangelho.
João 4,21: “Mulher, acredita em mim: chegou a hora em que, nem neste monte, nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai.”
Ao longo da narrativa, a mulher cresce na descoberta catequética da pessoa de Jesus, passando por degraus progressivos até alcançar a confissão do Messias, à qual Jesus responde com a revelação do Ego Eimi.
Os degraus percorridos pela samaritana são: “um judeu” (v. 9), “Senhor” (vv. 11.15.19a), “um Profeta” (v. 19b) e “Messias-Cristo” (v. 25).
É a primeira vez no quarto evangelho que Jesus se apresenta como o Ego Eimi, cuja raiz está na apresentação de Deus-YHWH em Ex 3,14, com paralelos em Is 43,10 e 45,18.
As demais ocorrências do Ego Eimi em João são: 8,24.28.58; 13,19; 18,5.
Jesus é apresentado como Aquele Que É — a presença do Deus vivo na terra —, para além da compreensão da samaritana sobre o Messias e o Profeta.
A adoração a Deus deixa de estar vinculada ao Garizim ou a Jerusalém, pois “Deus é espírito” (João 4,24a) e apenas quem nasce do Espírito compreende uma adoração que ultrapassa determinantes religiosas puramente humanas e históricas.
No segundo bloco narrativo entram em cena os discípulos que regressam da cidade e ficam admirados por Jesus estar conversando com uma mulher, pois era culturalmente proibido a um homem judeu estabelecer conversa a sós com uma mulher.
O imperfeito do verbo grego de falar indica que os discípulos perceberam que a conversa de Jesus com a mulher fora prolongada.
Diferentemente dos Sinópticos, o autor do quarto evangelho poupa os discípulos de segundas intenções, sobretudo de ordem política.
João 4,27: “Mas nenhum perguntou: 'Que procuras?', ou, 'De que estás a falar com ela?'”
O autor serve-se da narrativa do encontro para apresentar o mistério de Jesus sempre ligado a fatores de lugares geográficos, de tempo histórico e de personagens bíblicas.
O que aconteceu com a samaritana em relação à água — incompreensão no plano natural — repete-se com os discípulos em relação à comida, quando Jesus recusa alimentar-se e responde com o óbvio da revelação.
João 4,34: “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra.”
Naquele momento, a samaritana havia atingido um escalão catequético superior ao dos discípulos — que tratam Jesus apenas por “Rabi” —, percorrendo os degraus: “judeu”, “Senhor”, “Messias”, “Profeta”.
A lógica textual do bloco literário dos vv. 27-38 apresenta uma estranheza que os comentadores costumam assinalar: quando os discípulos entram em cena, a samaritana desaparece, vai à cidade anunciar Jesus, e os samaritanos saem para encontrá-lo, mas quem entra na narrativa são os discípulos.
João 4,29-30: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz! Não será ele o Messias? Eles saíram da cidade e foram ter com Jesus.”
O aoristo “saíram” é seguido do imperfeito “foram ter com ele”, indicando movimento em curso, mas os samaritanos só aparecem depois do diálogo e do monólogo de Jesus com os discípulos.
Trata-se de um intermezzo literário que reforça o drama cristológico, recurso presente em muitos textos do quarto evangelho.
O corte do diálogo entre a samaritana e Jesus deve-se ao fato de ela já ter sido catequizada e ver-se obrigada a levar sua nova catequese aos habitantes de Sicar, num ato de missionação, desaparecendo da cena para dar lugar à missão maior de Jesus com os samaritanos — padrão que se repetirá mais tarde com Maria Madalena.
O diálogo com os discípulos encerra-se abruptamente em João 4,34, dando lugar a um monólogo de Jesus sobre a ceifa, cuja lógica de conexão com o versículo anterior tem sido objeto de discussão entre os comentadores.
João 4,35-38: “Não dizeis vós: 'Mais quatro meses e vem a ceifa'? Pois eu digo-vos: Levantai os olhos e vede os campos que estão doirados para a ceifa. Já o ceifeiro recebe o seu salário e recolhe o fruto em ordem à Vida Eterna, de modo que se alegram ao mesmo tempo aquele que semeia e o que ceifa. Nisto, porém, é verdadeiro o ditado: 'um é o que semeia e outro o que ceifa'. Porque eu enviei-vos a ceifar o que não trabalhastes; outros se cansaram a trabalhar, e vós ficastes com o proveito da sua fadiga.”
O centro teológico do monólogo reside no fato de Jesus ser o enviado do Pai para realizar sua obra, enquanto os discípulos aparecem como enviados de Jesus para continuar essa mesma obra, numa relação que encerra um paradoxo esclarecido pela perspectiva escatológica.
As referências ao envio do Pai em João são numerosas: 5,23-24.30.37; 6,38-39.44; 7,16.18.28.33; 9,4; 12,44-45.49; 13,20; 14,24; 15,21; 16,5.
O verbo “levar ao fim a obra do Pai” aparece no futuro em João 4,34, abrangendo a obra presente de Jesus e a futura hora dos discípulos.
João 4,38: “Porque eu enviei-vos a ceifar o que não trabalhastes…”
O paradoxo tem solução quando se compreende que a obra do Pai realizada por Jesus só pode terminar na Cruz e morte.
Jesus introduz um provérbio popular da cultura agrária para em seguida contrariá-lo, encurtando o tempo da ceifa pela escatologia realizada, típica do quarto evangelho, de modo que a colheita samaritana — que deveria ocorrer mais tarde — já aconteceu com a ação de Jesus.
João 4,35: “Não dizeis vós: 'Mais quatro meses e vem a ceifa'?”
João 4,35b-36: “Pois eu digo-vos: Levantai os olhos e vede os campos que estão doirados para a ceifa. Já o ceifeiro recebe o seu salário e recolhe o fruto em ordem à vida eterna, de modo que se alegram ao mesmo tempo aquele que semeia e o que ceifa.”
João 4,38: “Eu enviei-vos a ceifar o que não trabalhastes; outros se cansaram a trabalhar, e vós ficastes com o proveito da sua fadiga.”
A narrativa parte da missão da comunidade joanica junto dos samaritanos — missão de reconhecido sucesso —, que o autor projeta analeticamente na pessoa de Jesus, apresentando os discípulos como simples colheitadores do que já fora semeado, numa referência à primeira missão cristã junto de pagãos.
Ao longo da narrativa, Jesus é incompreendido tanto pela samaritana quanto pelos discípulos, o que reflete as dificuldades da missão dos cristãos joanicos junto dos samaritanos, mas o resultado final da colheita é apresentado em verbos de realização escatológica no presente.
O paradoxo de João 4,38 sobre os que se cansaram a trabalhar fica esclarecido pela conexão com o verbo “cansar” de João 4,6, referido ao próprio Jesus, o enviado do Pai que tudo iniciou e preparou, sendo possível ainda que o plural “outros” inclua João Batista e demais discípulos que batizavam naquela região.
João 4,35: “Levantai os olhos e vede os campos já doirados para a ceifa.”
O plural “outros se cansaram” pode aludir a João Batista e aos discípulos que batizavam na região, conforme João 4,2, descrevendo possíveis tensões internas à comunidade joanica sobre a primazia de quem iniciou a missão.
João 4,36: “Já o ceifeiro recebe o seu salário e recolhe o fruto em ordem à vida eterna, de modo que se alegram ao mesmo tempo aquele que semeia e o que ceifa.”
O sinal-narrativa termina com o bloco literário dos vv. 39-42, que desenvolve o crescendo catequético dos samaritanos — da palavra da mulher à palavra de Jesus —, culminando na profissão de fé em Jesus como Salvador do mundo.
João 4,39: “Muitos samaritanos creram em Jesus devido à palavra — discurso — da mulher…”
João 4,41: “Então muitos mais creram nele devido à palavra dele…”
A catequese da samaritana tem como conteúdo a vida dos samaritanos — “Ele disse-me tudo o que eu fiz” —, isto é, a história real, política e religiosa entre judeus e samaritanos.
O conteúdo histórico é relevante em razão das velhas saudades da união das dez tribos do Norte com as duas do Sul, conforme João 11,52: “E não só pela nação, mas também para congregar na unidade os filhos de Deus que estavam dispersos.”
A nível literário, é o narrador-autor que expõe os vv. 39-41, reservando ao final — v. 42 — a profissão de fé dos samaritanos.
Alguns autores distinguem entre a catequese da samaritana e a de Jesus, pois o termo grego para palavra aparece nos discursos de ambos nos vv. 39 e 41, mas no v. 42 surge um termo diferente para designar as palavras da samaritana, indicando que ela apenas preparou o caminho para a catequese final de Jesus.
João 4,42: “Já não é pelas tuas palavras que acreditamos; nós próprios ouvimos e sabemos que ele é verdadeiramente o Salvador do mundo.”
A confissão de que Jesus é o Salvador do mundo só aparece em João aqui e em 1Jo 4,14: “Nós o contemplamos e damos testemunho de que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo.”
O título Salvador — em grego, soter — é tipicamente helênico e pouco utilizado no Novo Testamento, com ocorrências em Lc 1,47; 2,11; At 5,31; 13,23; Fl 3,20; 1Tm 1,1; 4,10; 2Tm 1,10; 2,13; 3,6; 2Pd 1,1.11; 2,20; 3,18; Jd 25.
Afirmar que Jesus é o Salvador do mundo equivale a proclamar a universalidade da salvação messiânica, que ultrapassa todas as querelas religiosas de Samaria e Jerusalém, de judeus e pagãos, conforme João 3,17.