Jo 1

Florent Gaboriau

NO PRINCÍPIO É/ESTÁ O LOGOS

Se a Metafísica é também uma « filosofia da religião », se ao menos consiste em « verificar » tudo o que se diz, para fazê-lo passar pelo crivo do real, nada do que se escreve — inclusive nos livros sagrados de uma sabedoria como a do Evangelho — poderia deixar indiferente o pensador, nem escapar à sua crítica. Sem dúvida, deve-se admitir que a verdade inteira de tal mensagem, o alcance misterioso de tal linguagem, não possam passar, aos olhos dos crentes, por uma conquista da razão: a filosofia se dá conta disso, e a tradição da fé católica o afirma. Nem por isso deixa a sabedoria racional de encontrar uma singular consonância em textos como este, no qual se encontra sublinhada a relação cuja importância a vida cristã ilustra: palavra-pensamento-vida.

É preciso entender este Prólogo de João recordando-se dos gregos aos quais ele se dirige, em sua língua, e do semita que ele permaneceu fundamentalmente, em seu espírito. Não há dúvida de que o texto recebe dessa dupla iluminação um suplemento de alma — de sentido, digo-o bem, autêntico. Com efeito, não se adquire a inteligência de uma página seguramente ponderada, oriunda de longas meditações, limitando-lhe o alcance aos horizontes que nos são mais ordinários, profissionalmente mais acessíveis. Abrir-se a essa confidência é, quando a perspectiva no espírito do autor se alarga, não a restringir por efeito do nosso. A retração deveria então ter uma razão: cientificamente, seria preciso fornecê-la, para recusar ao texto o alcance que ele parece apresentar. Se alguém se fecha a ele, amputa-o, assim se pensa; faz-se com que ele sofra um tratamento tal que as orientações próprias do « positivo » e das « ciências positivas » eliminem dele todo valor metaempírico.

Entretanto, o evangelista escreve em Éfeso, pátria de Heráclito, a gregos cujas preocupações ele não ignora. Quer alcançar sua atenção. Ora, certos termos principais estão carregados de uma herança cultural, na qual a sabedoria dos séculos depositou referências inegáveis. O Apóstolo não pode ignorar o halo em que se banha tal vocabulário, nem as aproximações doutrinais que nele abrem caminho. Por outro lado, João é semita. E, se a obra não é uma tradução, é preciso saber que seu estilo se ressente, até na sintaxe, daquilo que é uma transcrição mais ou menos laboriosa de seu pensamento nativo. A inteligência do substrato condiciona sua leitura.

Levando em conta esses dois dados, eis a leitura que se proporia, numerando-se os enunciados. A justificação virá em seguida sob forma de paráfrase, baseada em considerações literais. Assinala-se imediatamente na margem o emprego respectivo dos verbos « ser » e « tornar-se » — à espera de maior explicação.

1. No princípio era o Logos(ser)
2. e o Logos estava junto a Deus(ser)
3. e o Logos era Deus(ser)
4. este, no princípio, estava junto a Deus.(ser)
5. Todas as coisas surgiram por meio Dele(vir-a-ser)
6. fora dele nada aparece (vir-a-ser)
7. o que apareceu nele é Vida(vir-a-ser)-(ser)
8. e a vida é a luz dos homens(ser)
9. É nas trevas que brilha a luz
10. e as trevas não a extinguiram.
11. Surgiu um homem, enviado por Deus(vir-a-ser)
12. Seu nome: João
13. Este veio para dar testemunho, a fim de testemunhar a respeito da luz, para que todos cressem por meio dele.
14. Ele não é a luz; mas veio para testemunhar a respeito da luz(ser)
15. Ela é a Luz, a verdadeira; aquela que ilumina todo homem ao vir ao mundo,(ser)
16. no mundo ela está(ser)
17. E o mundo, por meio dela (ou por meio dele), veio, e o mundo não o reconheceu; (como Logos)(ser)
18. Ele veio para o que era seu, e os seus não o receberam
19. E o Logos se fez carne; e habitou entre nós; e vimos a sua “glória”(vir-a-ser)
20. glória que ele recebe do seu Pai, como Filho Único, cheio de graça e de verdade.
21. João testemunha a respeito dele. Ele exclamou: “Eis que este é aquele(ser)
de quem eu disse: aquele que vem depois de mim já me ultrapassou(vir-a-ser)
porque ele é anterior a mim.(ser)
31. A “Lei” nos foi dada por meio de Moisés. A graça e a verdade vieram por meio de Jesus, o Messias(vir-a-ser)
32. Deus, ninguém jamais o viu(aoristo histórico, como em 19, 1ª e 3ª linhas)
33. (Filho Único, Deus)(ausente em muitos manuscritos)
aquele que está no seio do Pai, esse o revelou.(como inclinado; em, “para”, ac. de movimento)

Nosso esforço foi reproduzir tão literalmente quanto possível a estrutura das frases, o lugar de cada termo, o tempo de cada verbo e a identidade das preposições, por exemplo, « através ».

Ora, precisamente dois verbos desempenham aqui um papel manifestamente capital, ainda que passe muitas vezes despercebido: o verbo « ser » e o verbo « tornar-se » ou « aparecer », vir-a-ser, produzir-se. Distinguem-se ambos. A Bíblia de Jerusalém emprega um pelo outro. Ver-se-á se tais escrúpulos são legítimos. Em todo caso, não se pode recusar a priori um método estritamente literal.

No mesmo cuidado de tradução palavra por palavra, observa-se que esses verbos se encontram conjugados de modo diferente. Não o verbo « ser », que está sempre no imperfeito, salvo uma vez no particípio presente. Mas o verbo « tornar-se », ora no imperfeito, ora no perfeito.

A Bíblia de Jerusalém traduz o verbo « ser », no imperfeito, de maneira constante, pelo imperfeito francês: « no princípio o Verbo era, e o Verbo era com Deus, etc. ».

Ela traduz o verbo « tornar-se », e muito precisamente egeneto, de modo muito diverso, ora por « foi », ora por « apareceu », ora por « passou », ora por « se fez ». Assim: « tudo foi por ele… Apareceu um homem… o Verbo se fez carne… aquele que vem depois de mim passou à minha frente ». Em todos esses casos, tem-se o imperfeito, designando um fato que continua a ser verdadeiro, que não está acabado.

Quando o verbo está no perfeito, a Bíblia de Jerusalém traduz seja recorrendo ao substantivo: « todo ser », para « o que foi produzido »; seja por « passou ».

De fato, o verbo genesthai tem bem este sentido: tornar-se, aparecer, vir à existência, produzir-se. E não simplesmente: « ser, existir ». Sem dúvida, as realidades de todos os dias, os destinos particulares que nelas se movem, em suma, a história, os acontecimentos e as pessoas são também formas de existência. Mas, não estando feita no texto joanino a confusão entre aquilo a que se atribui o verbo « ser » e aquilo a que se atribui o verbo « tornar-se » ou aparecer, parece correto não a cometer ao traduzir; e refletir efetivamente sobre uma distinção que bem poderia corresponder a um discernimento muito significativo. O motivo condutor parece ali feito de alternâncias muito estudadas.

É de fato que, ao longo de todo este Prólogo, « ser » se aplica ao Logos, a Deus, à Vida, à Luz, a « autêntica », que ilumina todo homem, e da qual se diz que é no cosmos, ainda que este a desconheça.

« Tornar-se », aparecer, vir à existência, convém a todo o restante: « todas as coisas », diz o texto, tudo o que é entregue ao curso da história, tendo um começo em dependência do Logos que está no princípio. Tornar-se convém, portanto, ao « cosmos ». E, finalmente, ao próprio « Logos », tornado carne e aparecendo desse modo, de tal sorte que se vê sua glória — herdada de seu Pai —, enquanto ninguém jamais percebeu o próprio Deus. Esse « Filho Único do Pai », herdeiro de sua glória, « passou à minha frente », diz João, segundo a Bíblia de Jerusalém, na própria ordem do devir e da história: pois pertence doravante a essa ordem das realidades carnais. Nem por isso deixa de permanecer e de permanecer não menos, por sua própria existência, « primeiro »: protos mou hen « ele é antes de mim », acrescenta o Batista; o verbo escolhido é aí ainda significativo.

Essa paráfrase supõe que se leve em conta, na tradução, uma observação aliás clássica relativa à conjugação dos verbos. Nossas línguas conjugam em função do tempo, categoria histórica: presente, passado, futuro. Em hebraico, como em outras línguas orientais, o verbo se modifica, por desinências e cadências, levando em conta o estado em que se encontra a ação; a ação, categoria metafísica mais importante. A ação está cumprida? « Perfeito »! Inacabada? « Imperfeito »! Duas formas, portanto, e somente duas formas, das quais nenhuma se sobrepõe exatamente aos nossos « tempos » de conjugação. Ora, é sempre grande a tentação de decalcar uma linguagem sobre a outra, sem notar que se transfere, por assim dizer, o pensamento de um predicamento a outro, de um « gênero de ser » a outro inteiramente diferente. Conscientes do sistema, tente-se desprender-se dele para melhor compreender, para alcançar aquilo que o pensamento do autor pôde comportar de significação existencial, no momento em que o imperfeito vinha, em suas tabuletas, ocupar no seu espírito o lugar do imperfeito aramaico.

« No princípio está o Logos ». Eis o que há no Princípio. Certamente, ele « era » ontem, será amanhã, como se diz, conjugando e ligando aos « tempos » aquilo que ultrapassa sua duração, aquilo que « é » em seu Princípio, em seu Começo, na Origem de tudo. Esse « Logos » continua a existir, pensa o autor: eis, portanto, o verbo no imperfeito semita. A mesma forma verbal marcará que ele não cessa de estar face a Deus, de ser Deus, de ser vida para aquilo que, através dele, vem ao ser, torna-se. Não menos que a vida, da qual doravante se conhece o Nome, esse Logos não cessa de ser a luz da Humanidade.

Em toda parte, o verbo « ser » se encontra no imperfeito. Mas seria, assim se crê, uma aberração decalcar aí o imperfeito francês, com o sentido que ele tem entre nós de um passado nítido, recortado. A história que se narra neste prólogo não concerne a um acontecimento classificado, um acontecimento de ontem. Certamente, remonta-se ao « princípio » e, portanto, em certo sentido, ao começo, mas a um começo que significa a cabeça. Esse princípio é justamente aquilo que toda a sabedoria do helenismo, em Éfeso particularmente, onde não está arruinada, se esforça por apreender, e que outrora acreditou encontrar na água, no ar, no fogo, etc. Esse elemento « primordial » que os « Físicos » procuravam na Natureza, João nos diz de uma só vez: é o Logos. Palavra e pensamento: eis, para os gregos, um Logos; mas, traduzindo o hebraico « palavra » na Bíblia dos Setenta, o « Logos » é ainda um fato, uma realidade, antes de ser uma narrativa. Em suma, de todos os níveis possíveis de significação, nenhum deve ser afastado, desde que sejam usuais: palavra-pensamento-fato real. « Princípio » significará, portanto, tanto o « princípio primordial » quanto o « começo histórico ». E « Logos », do mesmo modo, não é somente uma palavra, um pensamento, mas um ato, um fato — diga-se, ao menos isto, um ato de ser, ainda que o imperfeito semita baste para afastar, por ora, a ideia de um Deus identificado ao Ato Puro ou Acabado, ainda estranha a essa mentalidade.

« Em primeiro lugar, portanto, existe o Logos »: tal é a afirmação capital. A segunda afirmação não é menos carregada de sentido. Ao dizer: « o Logos está face a Deus », ela ainda não identifica um e outro, em sentido estrito; põe-nos em relação, frente a frente. A terceira, reunindo as duas precedentes, acaba por surpreender, pois identifica: « é Deus o Logos ». A quarta proposição reúne então o todo, mantendo o paradoxo de uma distinção relativa: « este último está, no Princípio, face a Deus ». Não bastaria, portanto, traduzir como o faz a Bíblia de Jerusalém: « o Verbo era com Deus ». A preposição pros orienta para Deus, dirige esse Logos, que está no Princípio, face a Deus: exatamente como se fará no versículo 18 eis, com o mesmo verbo « ser », desta vez no particípio presente, para dizer « aquele-que-é no seio do Pai ». « Com » é estático. Ora, o dinamismo de uma relação está incorporado ao texto joanino. Convém traduzi-lo, pois ele importa.

Quando o autor prossegue: « Todas as coisas vêm ao ser através dele, e fora dele nada aparece », mostra suficientemente, pela escolha do verbo « tornar-se », que outro plano se institui, um plano de realidades que estão sob o domínio do primordial Princípio. O segundo membro reitera então sob forma negativa a afirmação desse fato: pois é preciso insistir, o cosmos em evolução só se mantém no ser « por » e « através » do Logos (dia). Reitera-o, portanto, e dá mais força à afirmação pelo jogo de uma oposição entre « tudo » e « nada », nos dois extremos do dístico. Efetivamente, esse Logos Divino é a vida de tudo o que jamais se produziu. Pois a vida existe nele, e ela é essencialmente a luz da humanidade.

Nas linhas 9 e 10, há sucessivamente um presente e um aoristo. Um presente, primeiro, para exprimir uma simples constatação, lei geral e fato de experiência: a saber, que a luz brilha nas trevas; só se a acende para repeli-las. Depois, um aoristo histórico: por meio dele, o autor se prepara para retornar, após esse prelúdio metaempírico, ao terreno dos acontecimentos e anunciar a vinda de João: « Apareceu um homem… ». Historicamente, portanto, é um fato: as trevas não conseguiram sufocar a luz; os homens, em sua vida, têm esse meio de vencer a noite, acendem lâmpadas.

Ora, precisamente, eis a chave desse símbolo, o mistério dessa história: um homem veio testemunhar em favor da luz e designar-nos a verdadeira. Ele não é, ele próprio, a Luz: ele o afirma; a luz autêntica é o Logos de que se tratava, no princípio de tudo, e que está face a Deus, que é o próprio Deus. Pois esse Logos apareceu historicamente, tornou-se carne. Viu-se sua glória. Sem cessar de estar « orientado para o seio do Pai », revelou, ao « tornar-se » entre nós, os segredos dele, cheio que está de graça e de verdade. « De sua plenitude todos recebemos ».

Em verdade, sim, todos, se é verdadeiro que esse Logos é Princípio de tudo — como a Fé o admite, tendo este evangelho por palavra de Deus, e como a Filosofia inclina a concebê-lo, ainda que seja preciso medir bem o caráter surpreendente da primeiríssima afirmação joanina aos olhos do pensamento puro. Ali onde se esperaria, no princípio, « Deus », Só e Único, é o Logos que aí se encontra; e Face-a-Deus; e, ainda assim, idêntico a Ele.

Em contraponto ao Gênesis — esse primeiro relato dos começos —, eis, portanto, uma espécie de Prelúdio metafísico à frente do Evangelho, como seu Prólogo. Grandiosa disposição da cena em que se desenrolará o Drama. Anúncio e quadro de um conflito, cujos protagonistas são desde o início claramente designados: Deus, Seu Logos monogênito, o cosmos e todas as coisas vindas por esse Logos à existência histórica; a vida, a luz e as trevas hostis. Abertura quase ontológica ao destino, sem a qual o Evangelho histórico carece de uma dimensão capital, quando o acontecimento se produz e « aparece um homem », um precursor, em cena. A entrada desse personagem faz pressagiar a do Messias. Sem dúvida, sua Missão só é acessível à Fé, essa luz doravante às voltas com aquilo que permanece ao redor obscuro, profundamente obscuro. Mas o grandioso Prólogo é esse Proscênio, onde o ser do Logos se « relaciona » com o devir do mundo: um palco, um « preâmbulo », onde o Pensamento — estupefato, mas não vencido; ao contrário, admirativo — não pode deixar de interrogar-se sobre o que se passará de fato, não mais de direito… E de refletir sobre os acontecimentos.

Antes de João de Éfeso, Paulo de Tarso havia precisado, a respeito desse Logos identificado a Jesus, que ele « é a imagem do Deus invisível » (Col 1,15), que assim o reflete do lado do mundo, porque está bem face a ele, no começo, no Princípio. « Tudo foi criado por ele e para ele; ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem nele… É ele que é princípio (Arche) » (Col 1,16-18).

Grandiosa resposta a uma eterna questão metafísica! Os exegetas católicos — temor do sincretismo e, muitas vezes, desconfiança da filosofia — têm antes a tendência a acentuar a distância que separa do evangelista João o pagão Heráclito. Há uma diferença, com efeito, considerável, mas também que espantosa preparação do pensamento humano para a insuflação cristã! Os textos heraclíticos relativos ao Logos permitirão a cada um julgar diretamente. Neles se verá que o termo Logos já conhece essa amplitude de sentido que o habilita a designar tanto a proposição mais banal quanto a realidade misteriosa cujo desconhecimento compromete toda sabedoria, porque os homens estão com esse Logos « em perpétuo contato ».

Fragmentos de Heráclito de Éfeso sobre o « Logos »

« Esse Logos, com o qual estão no mais contínuo contato, que rege todas as coisas, dele se separam, e são as coisas que encontram todos os dias que lhes parecem estranhas ».

« Quanto a esse Logos que é eternamente, os homens são eternamente incapazes de compreendê-lo, tanto antes de terem ouvido falar dele quanto depois de terem ouvido falar dele pela primeira vez. Embora tudo aconteça conforme esse Logos, eles se assemelham a pessoas sem experiência, quando se exercitam em palavras e em atos semelhantes aos que se expõem, distinguindo cada coisa segundo sua natureza e explicando o que ela é ».

« Assim, é preciso seguir aquilo que é comum. O Logos é comum, e, contudo, a multidão vive como se cada um tivesse sua própria inteligência ».

« É próprio dos costumes de um tolo extasiar-se diante de todo Logos ». « Próprio da alma é o Logos que aumenta a si mesmo ». « Pensar corretamente é a mais alta virtude, e a sabedoria consiste em dizer coisas verdadeiras e agir segundo a natureza, escutando sua voz ».