2 Apóstolo a apologista

Peter Brown. The Body and Society: Men, Women, and Sexual Renunciation in Early Christianity; Twentieth Anniversary Edition with a New Introduction (Columbia Classics in Religion)

2 De apóstolo a apologista: ordem sexual e renúncia sexual na igreja primitiva

“ANDAR COM A SINCERIDADE NO CORAÇÃO”

1. A referência de Galeno aos cristãos, que se abstêm do coito por toda a vida, evidencia que a renúncia sexual já era notada por observadores pagãos, pois a continência cristã se destacava como marca distintiva diante do mundo greco-romano.

2. Justino, pagão convertido que se apresentava como filósofo, escreveu sua Apologia dirigindo-se a um imperador filosófico para apresentar o cristianismo como religião de rigor sexual superior, pois via na disciplina sexual dos fiéis casados e na abnegação de alguns um terreno comum com as preocupações morais das elites imperiais.

3. A renúncia sexual cristã emergiu de um mundo profundamente diverso do de Antonino Pio e Galeno, trazendo o sabor singular de origens judaicas radicais, pois pressupunha outra imagem da pessoa humana e outra visão de sociedade que a prevalecente entre as elites civis do Império.

4. No judaísmo havia pouco espaço para o dualismo benevolente que resumia o senso comum moral das classes governantes pagãs, pois a concepção pagã da alma dominando o corpo à maneira do homem bem-nascido dominando inferiores era obscurecida por um dualismo mais poderoso e significativo: toda a humanidade posta diante da majestade de Deus como diferente e inferior a Ele.

5. O conflito diuturno entre corpo e mente era obscurecido pelo dualismo entre a humanidade e Deus, pois cada fiel confrontava-se com Deus não como alma comprometida com um corpo estranho, mas como possuidor de um coração, âmago oculto do eu que podia acolher ou rejeitar a vontade do Criador.

6. A dor do devoto consistia no embate entre uma inclinação boa que instava à obediência e uma inclinação malévola profundamente arraigada, pois esta parecia inundar a pessoa humana como fermento maligno misturado à massa da natureza.

7. A verdadeira paz chegaria quando a relutância não reconhecida se desvanecesse dentro do coração, pois a promessa divina era de um novo coração e um novo espírito, com a retirada do coração empedernido.

8. A noção religiosa do coração reto trazia inequívocas implicações sociais, pois o ideal de sinceridade de propósitos condensava uma moral de solidariedade adequada aos chefes de família autoconfiantes das cidadezinhas do leste do Mediterrâneo, para quem era irrelevante a ênfase pagã no controle do corpo e na superioridade do espírito sobre a matéria.

9. Na Palestina, o ideal da sinceridade de propósitos carregava mensagem mais urgente, pois muitos judeus devotos viam Israel alienado de Deus e dilacerado pela luta interna, com homens que odiavam seu próximo e se aproximavam das mulheres para a lascívia.

10. Os Manuscritos do Mar Morto revelaram uma pretensa Comunidade de homens devotos que queriam estabelecer entre si uma casa da perfeição e da verdade em Israel, pois o anseio pela sinceridade de propósitos levou a uma exigência de transparência total ante a vontade de Deus e da vontade de cada membro perante seus semelhantes.

11. Os membros da Comunidade acreditavam que Deus libertaria Israel ao término da era conturbada, pois Ele recriaria Seu povo e aprimoraria o arcabouço humano, arrancando o espírito de falsidade das fronteiras da carne, com avaliação anual da índole e das ações de cada membro por um orientador habilitado.

12. Muitos grupos judaicos reagiam à situação fomentando uma radicalização dos códigos sexuais, pois a comunidade dos Manuscritos do Mar Morto parece ter exigido que vários membros masculinos vivessem sob voto de celibato por período indefinido, considerando-se guerreiros de Israel sujeitos aos votos de abstinência da guerra santa.

13. Os observadores romanos impressionaram-se com colônias de celibatários na Palestina, pois Plínio o Velho ouviu falar dos essênios estabelecidos em Engedi como uma raça que, sem mulheres e sem desejo sexual, continuava a viver eternamente.

14. Filo e Josefo justificaram o comportamento exótico dos essênios aos pagãos como resultado de longa tradição de misoginia, pois apresentaram-nos como utopia exclusivamente masculina, frisando os estratagemas sedutores das mulheres e o efeito disruptivo de suas reivindicações.

15. A sinceridade de propósitos era virtude profundamente masculina, pois os homens retos tendiam a encarar as mulheres como causa por excelência do comportamento traiçoeiro, e os essênios, para assegurar a philallélia entre os Companheiros, haviam abandonado as mulheres e a posse de escravos.

16. É enganoso concentrar a atenção exclusivamente nos pequenos grupos de celibatários confessos do sexo masculino, pois os abstinentes eram membros de associações predominantemente compostas de chefes de família casados e não constituíam comunidades isoladas, fortalecendo as estruturas domésticas ao restituí-las a uma pureza original imaginária.

17. Os códigos sexuais ficaram carregados de significação, pois a proibição do casamento com não-judeus, a condenação do casamento entre parentes próximos, a insistência nos códigos de pureza menstrual e seminal e o desprezo pela promiscuidade acentuaram o sentimento de separação entre Israel e o mundo pagão.

18. Todos os grupos radicais acreditavam que o novo Israel do futuro seria uma comunidade de casados, fecundos em sêmen, pois seria celebrizado por sua sexualidade disciplinada, da qual teriam sido eliminadas as anormalidades associadas aos tempos atuais.

19. Quando Jesus pregou na Galiléia e na Judéia depois de 30 d.C., as opções acessíveis a ele e a seus seguidores já estavam claramente mapeadas, pois o deserto da Judéia abrigava povoados de homens descontentes e figuras ascéticas como João Batista emergiam para pregar o arrependimento.

20. O fato de Jesus não se haver casado aos trinta anos não provocava comentário, pois passou-se quase um século antes que seguidores afirmassem fundamentar seu celibato no exemplo dele, sendo seu celibato complemento sem maior destaque de sua vocação profética.

21. Jesus insistiu no casamento monogâmico como renovação da união indivisa de Adão e Eva, pois num de seus pouquíssimos rompimentos com os mores judaicos excluiu a possibilidade do divórcio, sustentando que o empedernimento do coração não mais vigoraria no Israel renovado.

22. Jesus foi crucificado por volta de 30 d.C., e na época em que seus ditos e a história de sua morte e ressurreição foram coligidos nos Evangelhos a Palestina judaica tinha-se modificado profundamente, pois Jerusalém fora tomada pelos romanos em 70 d.C., o Templo estava em ruínas e os povoados junto ao Mar Morto estavam desertos.

23. A esse grupinho específico Jesus não pregara a retidão de propósitos dentro do lar conjugal, pois seu chamado repentino implicara rompimento dos padrões normais da vida estabelecida, com homens que deixaram casa, mulher, irmãos, pais e filhos pelo reino de Deus.

24. Por volta de 70 d.C., os pregadores ambulantes levavam o culto a grupos de fiéis casados dispersos por amplo arco que ia de Jerusalém à Antioquia, pois sua continência era apenas um aspecto de um drástico deslocamento do curso normal de suas vidas, encontrando lugar claramente demarcado no panorama social da Palestina.

25. As comunidades cristãs logo tiveram que estabelecer regras sobre como tratar os peregrinos de prestígio dotados de dons proféticos, pois o pregador em visita deveria ser recebido como o próprio Senhor, mas só podia ser alimentado e alojado pelos chefes de família locais por três dias, sob pena de ser posto porta afora como falso profeta.

26. Sessenta anos após a morte de Jesus, pouco se sabia sobre o perfil dos grupos cristãos da Palestina e da Síria, pois estava longe de se saber ao certo quem lideraria a pregação do reino e quem representaria com maior eficiência as igrejas de Cristo perante uma população judia enraivecida e um governo romano desconfiado.

27. A proclamação da ressurreição de Jesus coincidiu com décadas de animosidade crescente entre seus defensores e seus compatriotas judeus, pois muitos seguidores perderam a noção de continuidade entre as estruturas sociais vigentes em Israel e as do novo reino, passando a ver nítido contraste entre essa era e a vida dos filhos deste mundo que se casam.

28. A maioria silenciosa dos que aguardavam a vinda do reino era constituída de chefes de família preocupados e honestos, pois, seguros dentro de seus horizontes morais, não estavam em condições de permitir que sua pessoa social se evaporasse ao chamado da minoria peregrina.

(II) “UMA NOVA CRIAÇÃO”

1. O mais assombrosamente idiossincrático de todos os seguidores de Jesus veio de um mundo que mal tinha ponto de contato com as experiências dos pregadores da Palestina, pois Paulo de Tarso era judeu de língua grega da Diáspora, provavelmente cidadão romano, que levou sua missão às grandes cidades pagãs do Egeu e foi executado em Roma por volta de 60 d.C.

2. Numa carta aos gálatas, Paulo deixou claro quão pouco devia às igrejas de Cristo na Judéia, pois Jesus lhe aparecera muito depois de ter surgido aos outros discípulos, e ele recebera mandato próprio como apóstolo não da parte dos homens, mas por revelação de Jesus Cristo.

3. Apoiado nessa revelação pessoal direta e no dom do Espírito Santo, Paulo declarou que o reino estava ao alcance de completos pagãos, pois os gentios que se voltaram dos ídolos para Deus, com a posse do Espírito expressa no grito de Abbá, tornaram-se filhos de Deus e herdeiros das promessas a Abraão, formando o Israel de Deus.

4. Paulo afirmou que, ao converter os pagãos, tinha salvo Israel, pois somente quando os gentios se voltassem para Deus seria afastada a dureza que ele tendia a ver permanecer no coração de Israel, e congregados os gentios, Israel perderia seu coração empedernido e o reino dos céus chegaria.

5. Paulo passou sua vida suspenso entre a revelação e a ressurreição, pois descreveu sua primeira e decisiva visão de Jesus ressuscitado como arrebatamento ao terceiro céu e esperava que, num futuro próximo, Cristo retornasse e transformasse o corpo servil dos fiéis para ser como seu corpo glorioso.

6. Nas cartas de Paulo, o corpo humano é apresentado como silhueta negra cujas bordas estão inundadas de luz, pois, percebível, fraco e semeado na desonra, carregando sempre a morte de Jesus em sua vulnerabilidade, era realmente um vaso de argila que já refulgia com o mesmo espírito que erguera da sepultura o corpo de Jesus.

7. Nenhum escritor judeu demonstrou sentimento tão angustiado quanto Paulo, no capítulo sétimo da Carta aos Romanos, da força da resistência acumulada à vontade de Deus oculta no coração, pois apresentou o coração humano endurecido a ponto e profundidade de que não se tinha notícia no judaísmo contemporâneo, com a outorga da Lei fazendo as forças da rebeldia agitarem-se com vigor ainda maior.

8. O emprego de imagem tão brutalmente dualista por Paulo foi a expressão mais clara de seu sentimento das terríveis trevas acumuladas no coração antes do fulgor da ressurreição de Cristo, pois a guerra do espírito contra a carne foi imagem desesperada da resistência humana à vontade de Deus, e o corpo, coisa fraca, foi apresentado à sombra do poder da carne como sinédoque da condição da humanidade lançada contra o espírito de Deus.

9. A hierarquia entre corpo e alma, que ligava o homem aos deuses no alto e ao mundo animal embaixo, não tinha interesse para Paulo, pois o próprio universo estava prestes a ser transformado pelo poder de Deus, e as forças imperiosas da morte, da carne e do pecado foram apresentadas como inimigos definitivamente sobrepujados por Jesus quando de sua ressurreição.

10. O problema que confrontava Paulo era o modo como os pagãos arrebanhados para o Israel de Deus deveriam levar sua vida no período que antecederia a chegada de Jesus com todos os seus santos, pois eram pessoas distinguidas por experiências dramáticas de êxtase e fala de línguas, que antegozavam os novos tempos em suas assembleias.

11. O grupo recém-formado não era associação fechada de homens livres como os essênios, pois judeus e antigos pagãos, homens e mulheres, escravos e homens livres reuniam-se nas congregações, e os problemas suscitados pelas barreiras sociais tradicionais tinham de ser enfrentados para que o grupo fosse uma nova criação em algum sentido real.

12. O rito de ingresso na igreja, o batismo, já estava ligado a rituais que encenavam despojamento explícito das marcas distintivas em que se baseava a antiga sociedade, pois os fiéis supostamente resgatariam uma unidade primeva e indiferenciada, na qual não há judeu nem grego, escravo nem liberto, macho nem fêmea, pois todos são um em Cristo Jesus.

13. Paulo admitira no Israel de Deus pagãos com pouco ou nenhum conhecimento do judaísmo, e os chefes de família a quem se dirigia estavam longe de ser pobres, pois alguns possuíam escravos e algumas mulheres eram chefes de família por seus próprios méritos, em cidades como Éfeso e Corinto, onde havia pessoas tão cultas e aptas ao debate quanto ele.

14. Paulo não queria que seus convertidos erigissem barreiras excessivamente rígidas entre eles e o mundo externo, pois colocava sacos de areia nas margens de uma torrente cujo ímpeto devia muito a sua própria mensagem e exemplo prévios, e tinha toda a intenção de submeter os pagãos admitidos às regras de decoro corriqueiras da vida judaica.

15. Paulo via com indisfarçável desagrado a perspectiva dos pecados do mundo gentio, e os pecados sexuais se atravancavam no primeiro plano, pois, ao cometerem a suprema anomalia de adorar as criaturas e não o Criador, os pagãos haviam atraído para si toda sorte de anomalias sexuais, com mulheres trocando o uso natural por outro e homens ardendo de paixão uns pelos outros.

16. Nas comunidades fundadas por Paulo, o corpo não devia desfrutar de nenhum dos despreocupados momentos de indeterminação concedidos pelos pagãos, pois Paulo o estabeleceu firmemente como templo do Espírito Santo, lugar de ordem claramente visível e sujeito a limites que era sacrílego transpor.

17. Dormir com uma prostituta implicava nada menos do que tornar-se uma só carne com ela, tão certo quanto Adão se tornara uma só carne com Eva, pois foi um uso espantoso de uma imagem de união física que só costumava ser aplicada a marido e mulher.

18. Paulo fez com que códigos de conduta sexual diretamente extraídos da prática do lar conjugal judaico suportassem o peso principal de sua noção de santificação, pois para os que estavam prestes a se unir a Cristo no ar essa era uma mensagem desoladoramente rasteira.

19. Na Primeira Epístola aos Coríntios vislumbra-se uma igreja em que os temas do controle sexual e da renúncia sexual condensavam aflições sobre toda a estrutura das comunidades que Paulo queria fundar, pois a igreja dos santos em Corinto era uma mixórdia sociológica em que diferenças entre ricos e pobres, senhores e escravos, homens e mulheres haviam explodido sob a forma de antagonismos entre os vários lares.

20. Angustiado ante tanta desordem, um grupo de chefes de família devotos buscou uma solução decisiva, pois, não vendo razão por que a comunidade recém-fundada devesse reproduzir os tensos compromissos do mundo corriqueiro, estavam dispostos a desfazer os esteios elementares da sociedade convencional, renunciando ao casamento e comprometendo-se com a abstinência perpétua.

21. Uma comunidade rigidamente separada de seus vizinhos pelo celibato grupal dificilmente atrairia muitos pagãos, pois, ao se colocar firmemente ao lado da permissão de que o casamento continuasse dentro da igreja, Paulo tomou o partido dos chefes de família abastados que mais teriam a perder com a separação total do mundo pagão e que apoiariam de maneira mais eficaz sua missão junto aos gentios.

22. Paulo esforçou-se por assinalar que o matrimônio era mais seguro do que o celibato irrefletido, pois grande parte da epístola consistiu em medidas preventivas, com casais não devendo renunciar ao coito por causa da tentação da imoralidade, e jovens fogosos devendo casar-se em vez de incendiar-se de paixão.

23. O que visivelmente faltou na epístola de Paulo foi a confiança ardorosa, demonstrada por pagãos e judeus contemporâneos, em que o anseio sexual, apesar de desordenado, era passível de socialização e de expressão ordeira e até calorosa dentro do casamento, pois permitiu-se que os perigos da porneia ocupassem o centro do palco, legando herança fatal aos séculos futuros.

24. A argumentação contra o abandono das relações sexuais dentro do casamento transformou-se imperceptivelmente numa atitude que encarava o próprio casamento como mera defesa contra o desejo, pois no futuro o sentimento da presença de Satanás, sob a forma de risco constante e vagamente definido de luxúria, pairaria como sombra densa na orla de todas as igrejas cristãs.

25. Paulo estava mais interessado em enfatizar a validade permanente de todos os vínculos sociais, pois a estrutura do lar como um todo estava em jogo, incluindo a instituição da escravidão doméstica, e quanto a esse ponto foi inflexível: os escravos, tal como as esposas, deviam permanecer em seu lugar.

26. Paulo tendeu a resolver a questão da posição exata do celibato na igreja arrastando-a para a trajetória elevada de sua própria vocação apostólica, pois aceitou de bom grado a opinião de que seria bom que o homem não tocasse em mulher, mas isso era por ter recebido de Deus o dom profético da continência, que nem todos podiam esperar.

27. Os abstinentes compartilhavam de um dom sobre o qual Paulo se dispôs a falar com visível entusiasmo, pois viviam mais bem preparados do que os casados para a grande obra que precederia a vinda de Jesus, e o casamento, ao contrário, não era um dom, traindo antes uma falta da vocação do Senhor para a continência.

28. Para Paulo, um homem para quem o supremo ideal da vida era estar unido ao Senhor e tornar-se um só espírito com ele, a pessoa casada, cujo coração estava inevitavelmente dividido, era quase necessariamente um meio-cristão, pois faltava aos casados a suprema qualidade do coração indiviso.

29. Os leitores ascéticos de Paulo na antiguidade não se equivocaram quanto ao tom de sua fala, pois o dom apostólico do celibato era precioso demais para ser estendido à igreja como um todo, e Paulo deixou o mundo do homem casado bem para trás, saltitando na esteira tempestuosa de sua própria vocação premente de levar vida de serviço sem distração antes da chegada do Senhor.

(III) “UMA LEI OPOSTA A OUTRA LEI”

1. Muitos seguidores de Paulo passaram a achar que suas jornadas espirituais haviam salpicado o Mediterrâneo de comunidades impraticáveis, pois muitas cartas atribuídas a ele foram compiladas por seguidores nas duas gerações seguintes, nelas sentindo-se a força da contracorrente que visava apresentar Paulo como homem interessado em validar as estruturas do lar conjugal.

2. A Carta aos Efésios corrigiu consideravelmente o tom gélido da resposta de Paulo aos Coríntios, pois apresentou as relações entre marido e mulher como reflexo da solidariedade primeva restituída por Cristo ao universo e à igreja, com os maridos devendo amar suas mulheres como Cristo amou a igreja.

3. Tomada em conjunto com a rejeição incomum do divórcio por Cristo, essa ousada ampliação do mito de Adão e Eva forneceu aos cristãos uma imagem de ordem inquebrantável que o mundo pagão era capaz de compreender, pois na igreja, como na cidade, a harmonia dos cônjuges passou a carregar o pesado fardo de expressar o ideal de harmonia da sociedade inteira.

4. Outros textos pseudopaulinos deixaram claro que essa ordem, embora benigna, deveria ser tão hierarquizada quanto a enaltecida nos Preceitos conjugais por Plutarco, pois determinavam que a mulher aprendesse em silêncio e com toda a submissão, não lhe sendo permitido ensinar ou ter autoridade sobre o homem.

5. Na ocasião em que começaram a circular os livros que hoje se leem como o Novo Testamento, os leitores já teriam encontrado em muitas epístolas atribuídas a Paulo um Apóstolo totalmente domesticado, pois os contrastes entre as cartas autênticas e os escritos pseudopaulinos sugerem um diálogo abafado entre uma visão apostólica militante da igreja e uma liderança local cada vez mais segura.

6. Os epískopoi e os presbyteroi provinham das comunidades cristãs locais, pois muitos eram recrutados dentre chefes de família casados, e a maioria era mais sensível às necessidades dos casados e dos respeitáveis do que os peregrinos espiritualizados da geração anterior.

7. A continência e a castidade aparecem nas cartas dos líderes cristãos da geração subsequente a Paulo, mas só parecem ser mencionadas com nítida frieza, pois Inácio, bispo de Antioquia, ao passar pela Ásia Menor a caminho de sua execução em Roma, fez de suas cartas afirmações magníficas da unidade ideal de cada igreja cristã local.

8. Inácio não tinha nenhuma intenção de permitir que essa unidade fosse rompida por praticantes virtuosos da continência, pois os membros de uma congregação podiam viver na castidade, mas aqueles que se vangloriassem de fazê-lo decerto pereceriam, e quando dava conselhos práticos, o mundo por que ansiava era baseado numa sexualidade ordeira.

9. Os casamentos deveriam ser arranjados pelo próprio bispo, para que o matrimônio se fizesse de acordo com o Senhor e não de acordo com o comportamento, pois as proibições sexuais sempre haviam distinguido os judeus da sinistra indeterminação dos gentios e passaram a ser afirmadas com vigor excepcional.

10. Os códigos conjugais cristãos tornaram-se ainda mais idiossincráticos através de aspectos inéditos, como a renúncia ao divórcio e o preconceito crescente contra o novo casamento de viúvos, pois acima do sólido aglomerado de noções judaicas arcaicas elevou-se então o pico da castidade total.

11. Quaisquer que fossem as associações exóticas que o gesto de continência tinha para os próprios cristãos, as pessoas de fora podiam admirá-lo como forma de heroísmo físico equivalente à capacidade dos cristãos de enfrentarem com brio o medo gélido da morte, pois o celibato já invocava a confiança em que a pessoa que é uma exceção nesse aspecto será também uma exceção em todos os demais.

12. Concentrando-se exclusivamente na abstinência sexual e no heroísmo sexual, os cristãos da época de Justino encontraram o caminho para se apresentarem como portadores de uma religião verdadeiramente universal, pois, ao frisar a vulnerabilidade de todos os seres humanos ao desejo sexual, puderam descobrir ou inventar uma condição humana comum subjacente à complexidade, derivando da confusão a simplicidade.

13. O sentimento de uma condição humana comum, definida pelo desejo sexual, foi sumamente necessário às igrejas do século II, pois as comunidades cristãs eram grupos heterogêneos em que homens e mulheres de antecedentes sociais e religiosos extremamente diferentes postavam-se com embaraço uns diante dos outros nos minúsculos salões de reunião.

14. A natureza sexual era a única coisa que tinham em comum, pois não é surpreendente que nessa época se ouvissem rumores chocados de que alguns grupos cristãos esotéricos se haviam convertido ao amor livre, alegando inimigos que eles exploravam, através da promiscuidade, a natureza da verdadeira comunhão.

15. A maioria menos empreendedora optou simplesmente por códigos de disciplina sexual de que sabia que todos podiam partilhar, pois a continência trazia em si associações de uma simplicidade elementar, sendo a renúncia sexual uma carreira aberta aos talentos.

16. Como cristãos, as mulheres e as pessoas incultas podiam adquirir, através da abstinência sexual, reputações tão impressionantes quanto as conquistadas por qualquer homem culto, pois a castidade plena era um gesto que rasgava a sedosa teia de decoro que envolvia o homem público, tornando o comedimento filosófico acessível a todos.

17. Durante os anos em que Justino lecionou em Roma, a primeira versão da lenda de Santa Tecla começou a circular na Ásia Menor, pois a lenda mostrava que uma jovem recatada, exatamente como qualquer homem ativo, podia atender ao apelo de um apóstolo imaginário, com bênçãos aos que mantiveram pura sua carne e aos continentes.

18. Aproximadamente em 150 d.C., estava-se no início de uma separação irrevogável dos rumos, pois a natureza da liderança aceitável no judaísmo e a corrente das igrejas cristãs começaram a divergir precisamente com respeito à questão do casamento e da continência.

19. Com a destruição do Templo e o fortalecimento das sinagogas e das casas de estudos, o judaísmo caminhava a passos largos para se tornar uma religião da regra escrita e da família conjugal santificada, pois a Lei, transmitida por homens doutos a meninos adolescentes devotos, continuava a se dirigir ao mundo com vetusta solenidade.

20. No judaísmo, a Lei se apoiava igualmente em todos os aspectos da pessoa humana, pois exigia atenção reverente para as coisas presumivelmente compartilhadas por todos os seres humanos, como a comida, o tempo e o casamento, mantendo vivo o mundo de Deus e proporcionando o material a partir do qual os judeus faziam as distinções que singularizavam Israel como santo.

21. Simplesmente por essa razão, não era possível renunciar a nenhum aspecto isolado da vida normal, pois a cada um era preciso dar forma segundo a vontade declarada de Deus, e uma lenda mais recente fala de como os Sábios da Palestina aprisionaram o impulso sexual, mas se compadeceram e o desfiguraram, para que ele nunca pudesse forçar um israelita a praticar o incesto ou pecar contra a natureza.

22. O impulso sexual em si devia poder continuar a existir em Israel, pois, se o matassem, o próprio mundo ruiria, e a lenda quase contemporânea de Paulo e Tecla não poderia ter recebido refutação mais definitiva.

23. Quando começaram a pingar aos poucos na Galiléia, depois de 132 d.C., como refugiados da última e mais terrível devastação romana da Judéia, os primeiros rabinos eram figuras tão desarraigadas e excêntricas quanto um dia tinham sido os pregadores ambulantes do reino de Jesus, pois mesmo nessa época optaram tenazmente pela continuidade de Israel, sem intenção de promover no presente o fim do mundo através da ruptura com o casamento.

24. Ao longo de todo o século II, os rabinos foram pessoas excepcionais, combativas e inimigas cabais dos ignorantes, mas não desistiram da única instituição que compartilhavam com todos os outros judeus, pois sustentaram firmemente que a vida do homem casado, pai de filhos, era a única vida apropriada para um guia espiritual em Israel.

25. Os rabinos tinham plena consciência do ascetismo radical que havia caracterizado muitos movimentos do judaísmo no passado imediato e estavam dispostos a se solidarizar com a visão de que uma catástrofe tão terrível como a destruição do Templo poderia levar alguns judeus devotos a abraçar uma vida de perpétua abstinência e luto, pois, não obstante, evitaram essa horrenda opção e frisaram a solidariedade de Israel, preferindo que todas as pessoas se abstivessem durante parte do tempo a ter apenas uma minoria jejuando e se abstendo de suas mulheres o tempo todo.

26. Autodisciplinados, capazes de suportar privações consideráveis na busca do conhecimento e lendários em sua rudeza com as mulheres, os rabinos da Palestina passaram a exercer influência sobre o judaísmo principalmente por representarem um mundo que não tinha nenhuma intenção de desaparecer, pois mantiveram-se como classe culta contraindo matrimônio com as filhas de seus professores e colegas, e suas bênçãos recaíam calorosamente sobre os homens casados.

27. Os líderes autodesignados do judaísmo, bem como seus patronos menos eruditos, as personalidades judaicas locais e os protetores das sinagogas por toda a Diáspora, passaram a presumir que viviam num mundo que não desapareceria, pois grande parte desse mundo era desordenada, mas todos os seus aspectos podiam ser controlados, de modo que a nenhum se devia rejeitar.

28. Benéfica ou não, essa não era uma decisão que os líderes da nova religião estivessem dispostos a acatar, pois um pequeno número de homens e mulheres cristãos proeminentes usava o corpo para zombar da continuidade através do gesto drástico da castidade perpétua, acreditando que o tempo se estava esgotando.

29. Para eles, o corpo continente representava um princípio de reversibilidade, pois o próprio fluxo da vida podia ser detido, e a renúncia ao casamento desnudava a fragilidade de uma ordem aparentemente imutável, anunciando a aproximação iminente de uma nova criação.

30. Nada é mais impressionante para um observador das igrejas cristãs do século II do que a variedade de sentidos que já se havia acumulado em torno da realidade muda da renúncia sexual, pois as comunidades cristãs dispersavam-se por todo o mundo romano, tão afastadas quanto Lyon e Dura Europos, separadas por pelo menos oitenta dias de viagem, e as variedades do cristianismo eram muitas vezes desconhecidas entre si naquela época.