A palavra cabala, do hebraico qabbalah, designa o conjunto das doutrinas esotéricas do judaísmo e o misticismo judeu em geral, referindo-se em particular às formas que essa corrente assumiu na Europa medieval a partir do século XII.
Em acepção mais ampla, o termo abrange interpretações numerológicas e especulações sobre as letras do hebraico e de outras línguas.
No francês do século XVI, a palavra passou a designar também um conjunto de manobras concertadas e mais ou menos ocultas visando prejudicar a reputação de um adversário, ou ainda um clã ou partido político.
O termo é igualmente empregado para designar tudo o que é obscuro e ininteligível, donde a expressão corrente sinais cabalísticos para uma linguagem codificada de difícil compreensão.
Esses sentidos pejorativos refletem as reações que a leitura de textos cabalísticos — traduzidos do hebraico para o latim pelos cabalistas cristãos da Renascença e seus sucessores — provocou em pensadores ilustrados e autores populares.
Mesmo nas comunidades judaicas mais tradicionais, o termo cabala é às vezes usado como sinônimo de desequilíbrio mental ou discurso impenetrável.
Os cabalistas atraíram para si uma reputação quase sempre injustificada de fazedores de
milagres ou de exaltados, mesmo em seu próprio meio de origem.
A cabala é, no entanto, a forma de pensamento mais fecunda desenvolvida no interior do judaísmo, sob cujos auspícios foram escritas milhares de obras literárias.
A aparente obscuridade da cabala é a sombra de sua profundidade e complexidade — e ela não deve ser identificada a uma única doutrina, pois existem tantas doutrinas cabalísticas quantos correntes e mesmo quantos cabalistas.
Os pesquisadores especializados no assunto a definem hoje por meio de dois termos: misticismo e esoterismo.
Adolphe Franck, no século XIX, preferia qualificá-la de filosofia religiosa, fórmula que caiu em desuso apesar de tentativas corajosas de reabilitá-la — entre as quais a tese de Joëlle Hansel, Cabala e filosofia na obra de Moisés Hayim Luzzatto, defendida na Sorbonne em junho de 1996, UFR de História das Religiões, Paris-IV.