Thomas Merton
Notável esboço da doutrina de Bernardo de Clairvaux exposto com simplicidade, clareza e elevação por Thomas Merton. São apresentados os três aspectos da vida, postos em paralelo com as figuras dos três irmãos da parábola evangélica (Marta, Maria e Lázaro): a vida ativa, a vida contemplativa e a vida penitente.
Prefácio do Irmão Patrick Hart
Este volume reúne três estudos de Thomas
Merton sobre
São Bernardo de Claraval, dois dos quais publicados serialmente na Collectanea Cisterciensia por volta da época da ordenação sacerdotal de
Merton, e um terceiro redigido quando era Mestre de Estudantes na Abadia de Getsêmani.
O primeiro estudo, “Ação e Contemplação em
São Bernardo,” desenvolveu-se a partir de conferências que o Padre
Merton ministrava aos estudantes e apareceu em três fascículos na Collectanea — janeiro e julho de 1953 e abril de 1954.
Alguns anos depois, esse primeiro estudo foi publicado em francês em forma de livro ampliado sob o título Marthe, Marie et Lazare; posteriormente saiu em português, mas por razão desconhecida jamais foi publicado em inglês em forma de livro.
O segundo estudo do volume deve-se à sugestão do Padre Crisógono Waddell, de Getsêmani, que indicou a inclusão de um importante trabalho inicial — escrito por volta de 1948 — intitulado “
São Bernardo e a Simplicidade Interior.”
Esse segundo estudo foi originalmente publicado como Parte II de The Spirit of Simplicity, um comentário sobre vários textos de
São Bernardo acerca da simplicidade interior.
O texto lança luz sobre escritos posteriores de
Merton sobre temas como imagem e semelhança, e oferece ao estudioso de
Merton um bom exemplo de suas traduções de
São Bernardo do latim.
O terceiro estudo é uma pesquisa comparativa intitulada “União Transformante em
São Bernardo e São
João da Cruz,” publicada pela primeira vez na Collectanea em cinco partes — abril e julho de 1948, janeiro e outubro de 1949 e janeiro de 1950 — e revela as preocupações de
Merton nos primeiros anos de sua vida monástica.
A escola espanhola de espiritualidade — especialmente São
João da Cruz e Santa Teresa de Ávila — exerceu forte atração sobre
Merton, como esse estudo atesta, e haveria de ter influência distinta em seus escritos posteriores.
No verão de 1977, o Padre Hilary Costello, monge cistercense da Abadia de Mount Saint Bernard na Inglaterra, sugeriu que esse terceiro estudo fosse publicado isoladamente em forma de livro.
A reunião dos três estudos num único volume foi sugerida por ser os três relacionados entre si, e o lugar natural de publicação era a Cistercian Publications, que avançava significativamente na tradução dos Padres cistercienses para o inglês e na publicação de estudos sérios sobre a tradição monástica.
Os estudos reunidos neste volume são tão relevantes hoje quanto quando foram escritos — talvez mais —, dado que se assiste em nosso tempo a um renovado interesse pelos aspectos contemplativos da vida cristã, que se estende muito além do clausuro monástico até o campus universitário, o mercado e o lar familiar.
A pergunta que se ouve em toda parte é: como levar uma vida profundamente contemplativa em meio às atividades presentes? Como combinar as atividades de Marta, o ócio contemplativo de Maria e as práticas ascéticas de Lázaro? É possível a união com Deus?
Thomas
Merton chegou à conclusão de que há uma Marta, uma Maria e um Lázaro em cada um, e que é preciso aprender a viver juntos em paz, esforçando-se sempre por alcançar uma medida equilibrada na vida.
Em cada comunidade haverá alguns que se assemelham mais à contemplativa Maria, outros mais inclinados às atividades de Marta, e ainda outros ao penitente Lázaro; no fim das contas, o caminho mais perfeito para cada pessoa é a resposta total em fé e amor à própria vocação dada por Deus.
Merton menciona em seu estudo sobre a união transformante As Graças da Oração Interior, do Padre Poulain, obra que havia sido traduzida para muitas línguas e foi instrumento de renovação do interesse pela teologia mística, embora
Merton entendesse que Poulain não havia apreciado adequadamente a contribuição de
São Bernardo ao campo do misticismo.
Agustin Poulain era um matemático jesuíta francês que surpreendeu a todos ao publicar em 1901 um volume sobre oração interior e graças místicas, embora se possa questionar se escreveu a partir de experiência pessoal.
Esse livro foi o início do que veio a ser um renovado interesse universal pelo misticismo, tanto no Ocidente quanto no Oriente.
São Bernardo foi, na avaliação de
Merton, um dos maiores “doutores cristãos da teologia mística.”
Onde
Merton fala do eremita em contraposição à vida no cenóbio, o eremita é compreendido como alguém que ordinariamente havia sido provado por muitos anos na comunidade monástica e somente então se aventurava ao combate solitário do deserto, por um chamado especial de Deus verificado pelo superior — algo plenamente dentro da tradição beneditina e cisterciense.
Esse ideal foi algo que o próprio
Merton buscou durante toda a sua vida monástica e somente realizou plenamente nos três últimos anos de sua vida, vividos numa eremitagem na propriedade da Abadia de Getsêmani.
Embora a morte trágica de Thomas
Merton tenha sido prematura, sua obra prossegue: seus escritos são relançados em novas edições e traduções, novas coleções são publicadas, e durante a última década quase uma centena de dissertações doutorais, teses de mestrado e estudos sérios foram escritos sobre
Merton e seu pensamento.
Seminários e cursos sobre
Merton são ministrados em muitos campi universitários, o que parece indicar que a influência de Thomas
Merton cresce em todo o mundo.