A
Bíblia judaica é para
Orígenes o Testamento antigo, e é enquanto antigo que ele o considera — não no que ele foi, como se nos tornássemos contemporâneos de Moisés ou de Davi, mas no que ele se tornou desde o advento de Cristo e em razão desse advento.
O sentido literal da lei, por real que seja, já não vale senão para um passado que não existe mais e que não se tem o direito de fazer reviver — é um sentido caduco.
Esse ponto de vista encontra-se com o de Paulo e da Epístola aos Hebreus: “Ao dizer: uma aliança nova, Deus declarou a primeira envelhecida.”
A palavra do Senhor no Levítico confirma isso: “Estabelecerei minha aliança convosco… e rejeitareis a antiga colheita para dar lugar à nova.”
Os fundidores de estátuas, antes de fundir o bronze, a prata ou o ouro, fazem uma maquete de argila — necessária, mas só por um tempo; uma vez concluída a obra, não serve mais para nada: “Assim é com tudo o que é narrado na Lei e nos Profetas: eram figuras das coisas vindouras. Mas o Artista veio ele mesmo, transformou essa Lei, que era a sombra dos bens futuros, na própria imagem desses bens.”
O que pôde ser e foi outrora religião seria agora, em parte, superstição — pois essa parte carregava um germe que lhe foi arrancado: todas as cerimônias mosaicas, não sendo mais anunciadoras do Cristo por vir, não são mais que “vaniloquium” — vão palavrório.
O mal é “judaizar” após a vinda do Salvador — como se o Salvador não tivesse vindo — imitando os que diziam: “Crucifica-o! Crucifica-o!” e “Tira-o da terra!”
Desde a origem, ao ditar a Lei a Moisés, Deus tinha em vista seu sentido espiritual — mas até o
Evangelho essa Lei devia ser recebida e praticada à letra, pois a letra precede o espírito como Moisés precede
Jesus e como o homem terrestre, segundo Paulo, precede o homem celeste.
Adaptando-se às condições humanas e à fraqueza do povo, Moisés prescreveu o rito exterior como sinal e veículo praticamente indispensável desse sentido espiritual — “sabendo, por exemplo, qual era a verdadeira circuncisão, nem por isso deixou de impor a circuncisão carnal; sabendo que a verdadeira páscoa a imolar era Cristo, ordenou todavia imolar o cordeiro pascal.”
Os judeus observaram com demasiada frequência apenas os ritos, negligenciando ou desconhecendo o espírito que tinham missão de significar — desde antes de Cristo, muitos foram culpados por isso, notadamente os fariseus com sua “hipocrisia.”
Desde o advento do Salvador, o espírito abandonou o rito e passou aos gentios — a letra da Lei vivia apenas de uma vida provisória, e o Espírito de Cristo introduz a uma nova vida e a uma nova observância, tornando espirituais os que eram carnais.
“O véu foi tirado” — a letra foi arrancada e seu sentido oculto aparece doravante a descoberto — rejeitando as figuras que pretendem sobreviver a si mesmas, passa-se à Verdade da Escritura, ao seu espírito: “Deixemos aos Escribas a vetustez da letra.”
Caduco em direito, o rito mosaico está também morto de fato, pela dispersão da nação judaica e a destruição do Templo — os sacrifícios não podem mais ser oferecidos segundo a carne, a legislação não tem mais efeito, e tudo de que o antigo povo de Deus se gloriava está arruinado.
Segundo Oseias, Israel está “sem rei, sem chefes, sem hóstia, sem altar, sem sacerdócio, sem oráculos” — chegou ao ponto em que, sem receber a “verdade”, perdeu a “imagem”, de modo que lhe se dirige a palavra: “Eis que vossa casa vos será deixada deserta.”
Uma longa passagem homilética resume essa teologia: “Havia nos céus uma realidade, e na terra sua sombra e imitação. Enquanto essa sombra existia na terra, havia uma Jerusalém terrestre, um altar, um culto visível, pontífices e sacerdotes… Mas quando, com a vinda de nosso Salvador Deus, a Verdade, descendo dos céus, nasceu da terra e a Justiça olhou para os céus, as sombras e as imitações chegaram ao fim… a divina Providência procurou a ruína de todas essas coisas outrora adombradas na terra, para que, cessando as figuras, o caminho fosse aberto à verdade buscada. Se portanto, ó judeu, vindo a Jerusalém, a cidade terrestre, a encontras derrubada, reduzida a cinza e a pó, não chores, mas busca em seu lugar a cidade celeste… Se vês o altar derrubado, não te contristes; se não encontras o pontífice, não te desesperes: há um altar nos céus e um pontífice aí celebra, o Pontífice dos bens futuros, escolhido por Deus segundo a ordem de Melquisedec.”
Para os cristãos, “tendo agora nas mãos essa Lei dada pelo ministério de Moisés” e sabendo que ela é espiritual, não resta senão “afastar-se das figuras doravante destruídas para buscar os bens que estão onde está Cristo, à direita de Deus” — pois tomar a sombra pela verdade seria tratar a verdade de mentira.