Mestre
Eckhart investiga extensamente, no Comentário sobre o Êxodo, a questão dos nomes divinos que podem ser predicados a partir dos efeitos criados, integrando os princípios negativos dos sábios árabes e judeus aos ensinamentos positivos dos santos e doutores da Igreja.
O próprio livro do Êxodo apresenta o Senhor dizendo a Moisés que Ele é Aquele que é, no versículo 3, 14.
Esse texto sagrado impõe ao exegeta cristão a abordagem do mistério de um nome que Deus atribui a Si mesmo.
A iniciativa da nomeação deixa de pertencer ao intelecto humano, o qual costuma reunir as perfeições espalhadas nas criaturas para atribuí-las à Mônada todo—poderosa que as unifica em sua perfeição única.
A própria Mônada se nomeia nesse momento, afirmando a sua identidade em um retorno completo.
Essa reflexão sobre si mesmo, na afirmação duplicada do Ego sum qui sum, é aproximada por
Eckhart da máxima hermética sobre a mônada que engendra a mônada e reflete sobre si mesma o seu ardor.
O texto do Êxodo recebe, dessa forma, um sentido trinitário que não poderia existir para o Rabino Moisés.
O Mestre dominicano concorda com o teólogo judeu ao enxergar nessa afirmação, que reproduz o sujeito no predicado, um nome único pelo qual Deus se designou a Si mesmo, revelando—se como Ser.
Eckhart interpreta, junto com Maimônides, o gesto de Moisés cobrindo a face diante da sarça ardente, no Êxodo 3, 6, como a atitude do intelecto humano perante a revelação divina.
A razão natural ou o intelecto deve ser reduzido à catividade diante das profundezas secretas de Deus, consideradas sobrenaturais, para que se possa enxergá—las na luz da graça, ou seja, em Espírito, conforme a referência a
São Paulo em II Coríntios 10, 5.
Esses mistérios ocultos de Deus são designados pelas trevas sobre a face do abismo, em Gênesis 1, 2, pois superam o entendimento criado, que é incapaz de conhecê—los sem a inspiração da graça que eleva a natureza, exercendo sobre as faculdades cognitivas uma ação semelhante ao influxo da virtude que um agente superior comunica ao seu inferior.
O homem não possui meios próprios para aprender que o nome Ser pertence singularmente a Deus, uma vez que é justamente sob a razão do ser que Deus permanece não manifestado, improdutivo e oculto em Si mesmo.
Esse nome deve provir de Deus como sua própria afirmação reveladora em sua ação interior.
A manifestação do Ser indeterminado e indistinto em si só é possível no supósito do
Pai, no Uno, onde a emanação das Pessoas encontra o seu princípio e o seu fim, demonstrando a identidade da Essência pelo retorno da Mônada sobre si mesma.
O ser que se revela surge como Unidade essencial, e as modalidades de sua revelação manifestam—se como
Trindade de pessoas, caso o Ego sum qui sum do Êxodo seja a revelação do Ser.
Deus se revela como Ser no processo trinitário e, como essa ação interior tem por princípio o Uno apropriado ao
Pai, o primeiro nome que designa Deus mais propriamente, o nome acima de todos os nomes, será tanto o Ser quanto o Uno, que o distingue pelo próprio fato de sinalizar a sua indistinção, tornando ambígua e imprópria qualquer outra acepção das palavras ser ou ente.
O texto em latim do Comentário sobre João indica que o próprio uno, por sua propriedade, indica distinção, pois o uno é indistinto em si e distinto dos outros, sendo, por isso, pessoal e pertencente ao supósito, ao qual cabe agir.
O desenvolvimento dialético sobre a indistinção e a distinção do Ser—Uno encontra—se também no Comentário sobre a Sabedoria e no Comentário sobre o Êxodo.
A revelação do Êxodo assinala não apenas a unidade, mas também a unicidade do Ser que é Deus, o que significa que apenas Deus é propriamente ente.
Parmênides e Melisso não admitiam mais do que um único Ser, estabelecendo que existe apenas um ente.
Eckhart cita
São Bernardo, na obra Da Consideração, livro V, capítulo 6, que indaga se esse ser tão singular e tão sumo não deve ser julgado, em comparação com o que ele não é, mais como não ser do que como ser, concluindo que isto é o que significa Eu sou quem sou.
Em outra passagem, define—se Deus como aquilo sem o qual nada existe, sendo que nada existe sem Ele assim como Ele mesmo não pode ser sem Si, sendo Ele para Si e para todos, e, por isso, de certo modo, apenas Ele mesmo é o que é o ser de si mesmo e de todos.
A resposta para a pergunta sobre o que é Deus resume—se à constatação de que Deus é o Ser, visto que somente Deus é.
A informação sobre os Eleatas provém provavelmente de passagens de Aristóteles na Física e na Metafísica, mas
Eckhart se refere aqui a Avicena, que dedicou um capítulo de sua Física, intitulado Da improbação daqueles que falaram sobre os princípios do ser, à doutrina de Parmênides e Melisso.