O mestre
Eckhart detém—se mais longamente sobre o ser enquanto ser, que é o objeto próprio da metafísica, em seu comentário sobre o livro da Sabedoria.
O metafísico e o matemático nunca se referem às causas eficientes e finais em suas definições do que é ente.
A coisa não depende de nenhuma causalidade exterior quando considerada em sua quididade, ou seja, quanto ao seu o que é.
No Comentário sobre a Sabedoria, nota—se que toda coisa, quanto ao seu o que é, não possui causa eficiente nem final.
O metafísico que considera o ente enquanto ente, assim como o matemático, nada demonstra ou define por essas causas.
Aristóteles afirma na Metafísica que nas matemáticas não há o bem, visto que o bem e o fim são o mesmo.
São Tomás e Aristóteles tratam da exclusão do bem e da finalidade nas matemáticas.
Para a metafísica, os pontos de apoio em Aristóteles são menos fáceis de encontrar, e o texto de São Tomás citado pelo padre Théry reporta—se à lógica, afirmando que o lógico considera o modo de predicar e não a existência da coisa.
São Tomás refere—se a Aristóteles para dizer que o verdadeiro e o falso estão no intelecto, ao passo que o bem e o mal estão nas coisas, tese que
Eckhart discute na Questão Parisiense sobre se em Deus o ser e o inteligir são o mesmo.
A coisa não possui o seu o que é de outro, conforme a afirmação de Avicena, de modo que o metafísico estuda o aspecto essencial dos entes independentemente de sua existência devida a uma causa.
Eckhart remete à Metafísica de Avicena para fundamentar essa posição.
A definição de que o homem é animal permanece verdadeira quer o homem exista ou não, pois o verbo ser atua aqui apenas como cópula, mostrando a coerência dos termos sem predicar a existência do sujeito.
A situação é diferente quando se trata da existência das coisas, do seu próprio ser que provém de uma eficiência exterior e representa um fim, segundo o livro da Sabedoria que diz que Deus criou para que todas as coisas fossem.
A redução da metafísica ao estudo do aspecto quididativo dos entes faz parecer que o pensamento de
Eckhart permanece no sulco traçado por São Tomás a respeito da distinção real entre a essência e a existência nas criaturas.
Atribuir ao metafísico uma atitude que conviria a um matemático ou a um lógico poderia ser explicado como uma maneira original de utilizar os termos, correndo o risco de se afastar da linguagem comum.
A causalidade formal não justifica por si mesma a existência de uma substância criada para
Eckhart ou para São Tomás, sendo necessário que se adicione a eficácia de um influxo divino.
A forma não possui causa formal de seu ser de forma, sendo suprema no interior da substância em sua própria ordem.
O que se adiciona à forma para que a substância criada exista atualmente não pertence à ordem formal, mas possui uma causa que lhe influi o ser.
Étienne
Gilson analisa essa distinção na obra O Ser e a Essência.
Essa distinção supõe uma primazia da ordem existencial sobre a da essência nos seres criados, pelo que o próprio ser é a atualidade de todas as coisas e das próprias formas.
O mestre
Eckhart reproduz frequentemente essa fórmula tomista no Prólogo Geral da Obra Tripartida e nos Atos do processo de Colônia.
É legítimo indagar se o termo próprio ser significava para o dominicano alemão a mesma coisa que para São Tomás.
J. Muller—Thym analisa a universidade do ser e faz reparos sobre a proximidade entre
Eckhart e Alberto Magno.
Segundo essa interpretação, o Deus de
Eckhart seria o ser formalmente inerente, como a alma na doutrina de Santo Alberto é uma subsistência em si e uma forma em relação ao corpo.
Essa tese distingue duas funções na relação de Deus com as criaturas: o toque pelo Ser absoluto e a penetração formal, apoiando—se em uma passagem do Prólogo da Obra das Proposições.
A atualidade do Ser—Forma divina na doutrina de
Eckhart não pode ser assimilada à causalidade formal, pois o Deus de
Eckhart não é a causa formal das criaturas no mesmo sentido em que a alma é a forma do corpo.
Essa interpretação possui o mérito de destacar o caráter não tomista da doutrina do ser do mestre turingiano.
O mestre
Eckhart separava a essência e o ser por uma espécie de parede estanque nas criaturas, em vez de mostrar a sua unidade existencial.
Não se tem a impressão de que a presença íntima e secreta do ser que
Eckhart encontra nas criaturas corresponda ao ato de existir de uma essência criada.
Trata—se da presença interior da Causa primeira ou de sua operação, que é mais íntima do que a essência criada, na medida em que a criatura é sempre exterior em relação a Deus.
O próprio ser que a criatura possui de outro apresenta—se como interior e latente nas profundezas transcendentes à essência criada, na medida em que Deus é considerado como uma causa exterior.
Ser mais interior do que a essência constitui ainda uma maneira de permanecer exterior ao ser criado como tal.
Essa transcendência interiorizada faz sentido enquanto for possível a oposição entre o exterior e o interior, o efeito e a causa, a potencialidade criada e a atualidade divina.
Essa oposição só faz sentido na perspectiva da dualidade própria das criaturas, à qual
Eckhart aplica o versículo do
Salmo 61 que diz que Deus falou uma vez e eu ouvi essas duas coisas.
A interiorização do ser de outro torna ambíguas as noções de exterioridade e de interioridade, já que esses termos opostos só se justificam do ponto de vista deficiente dos seres criados.
Essa exterioridade interior do próprio ser deixa entrever uma interioridade absoluta que não se opõe à exterioridade criada, inserindo—se na esfera intelectual infinita onde o centro da ação divina está em toda parte e a circunferência criada não está em lugar nenhum.
Esse ponto de vista divino insta a conhecer os efeitos exteriores na interioridade da causa, em vez de buscar o conhecimento da causa exterior em seus efeitos.
Penetrar no interior do efeito criado significa atingi—lo em um nível onde ele não é efeito nem criado, dado que o efeito é exterior por definição para
Eckhart.
Conhecer uma criatura interiormente significa conhecê—la intelectualmente em sua causa original ou essencial, onde o efeito é o verbo e la causa é o princípio.
A causa essencial ou o princípio das coisas é o Vivente intelectual, e o que está na vida é igualmente vida.
O ser é conhecido como submetido à ação das causas exteriores enquanto não se atinge esse grau de conhecimento, apresentando—se tal como aparece na investigação dos físicos.
A causa essencial que confere o verdadeiro conhecimento do que é permanece ainda desconhecida, constituindo um princípio essencial oculto e inacessível ao que lhe é estranho por natureza.
O ser enquanto ser é difícil de ser atingido pelos meios naturais da especulação metafísica, pois só é conhecível no silêncio de qualquer causa exterior.
A verdadeira essência ou quididade das coisas na vida do Intelecto divino deve escapar ao homem quando este está reduzido à perspectiva de dualidade.
A Causa primeira apresenta—se como uma eficiência exterior que confere o próprio ser, e as essências surgem como a capacidade das coisas para se tornarem entes.
No Comentário sobre João, trata—se da potência de receber proveniente de Deus, assim como Santo
Agostinho diz nas Confissões que a capacidade da matéria prima provém de Deus.
O mestre
Eckhart encontra—se com São Tomás ao exaltar a intimidade do próprio ser no seu primeiro comentário sobre o Gênesis, afirmando que todas as coisas aquém de Deus possuem o ser de fora e de outro, e no entanto nada é tão íntimo, nada é tão primeiro e próprio quanto o próprio ser.
Essas expressões assinalam apenas uma primazia relativa do ser sobre a ordem essencial nos seres criados.
Nada precede a ação da causa eficiente nos entes, porque as coisas criadas ainda não são entes em sua receptividade diante do ser.
A substância recebe do ser o nome de essência, conforme a afirmação de Santo
Agostinho.
No Comentário sobre João, explica—se que a substância das coisas extrai o próprio nome de essência a partir do ser, mas a capacidade das coisas, pela qual ainda não são entes, provém de Deus.
Romanos 4 menciona que Deus chama as coisas que não são como aquelas que são.
Dionísio, na obra Dos Nomes Divinos, afirma que o bem se estende aos existentes e aos não existentes, sendo o bem Deus sozinho como fim e primeira causa.
A primazia do próprio ser sobre a essência significa a supremacia da Causa primeira e de sua atualidade sobre o efeito criado e a sua potencialidade.
O termo aquém de Deus indica que o ser recebido fora de Deus estabelece as coisas em sua condição de seres criados, isto é, em sua existência, onde não possuem nada mais íntimo do que o ser de outro.
O nome existência indica uma extra—stância, significando o princípio fora na natureza das coisas existentes.
No Comentário sobre João, lê—se que nada é tão próximo ao ente e nada é tão íntimo quanto o ser, sendo Deus o ser e todo ser provindo imediatamente dele, pelo que apenas Ele entra nas essências das coisas. Tudo o que não é o próprio ser está fora, é alheio e distinto da essência.
São Tomás apresenta uma passagem paralela sobre a entrada de Deus na substância por meio da criação, definindo essa operação existencial como virtude no ser.
São Tomás destaca a operação criadora, ao passo que
Eckhart insiste na imediação de Deus em relação às essências criadas, identificando o próprio ser com a essencialidade mais do que com o existir.
A verdadeira natureza da Causa primeira não reside em sua eficiência ou finalidade, mas em sua formalidade ou essencialidade.
O Ipsum Esse em
Eckhart constitui o princípio formal e essencial de tudo o que vive, sendo por si mesmo e sem causa exterior antes de ser a Causa criadora do que existe exteriormente.
A coisa não possui o ser em uma interioridade absoluta, em sua causa essencial ou original, não tendo outro ser além do viver e do inteligir.
Várias declarações paradoxais de
Eckhart encontram explicação quando se dissocia a sua doutrina do ser enquanto ser em relação à filosofia de Aristóteles e à teologia de São Tomás.
O mestre
Eckhart utilizou textos aristotélicos atribuindo—lhes um sentido que contrariava a posição de seus autores, impelido pelo desejo de encontrar em toda parte a expressão da Verdade única.
Eckhart apoia—se na autoridade do Comentador para afirmar que a quididade ou razão das coisas é a sua Causa essencial.
Essa Causa primeira é colocada além de toda causalidade eficiente e final, identificando—se com o Princípio no qual Deus criou o mundo.
No Comentário sobre o Gênesis, explica—se que o metafísico que considera a entidade das coisas nada demonstra por causas externas, e esse princípio é a razão ideal na qual Deus criou todas as coisas sem olhar para nada fora.
A razão das coisas considerada em si mesma exclui a ação para o exterior e concerne apenas à essência das coisas no interior.
A razão ideal das criaturas atua como causa essencial, sendo essa a quididade da coisa sensível que os antigos sempre desejaram conhecer, segundo Averróis.
Averróis, no Comentário sobre a Metafísica de Aristóteles, explica que as quididades das substâncias são anteriores aos outros entes e causas deles, ensinando que quando for conhecida a quididade da substância, então será conhecida la primeira causa de todos os entes.
O Comentador não afirma que essa Causa primeira seja Deus, mas chama de Causa primeira a própria quididade das coisas, a sua razão indicada pela definição.
No Comentário sobre o Gênesis, afirma—se que o princípio e a raiz de cada coisa é a sua razão, pelo que Platão estabelecia as ideias ou razões como princípios do ser e do saber.
O comentador chama de causa primeira a própria quididade das coisas, que é a razão indicada pela definição, constituindo o o que é da coisa e o porquê de todas as propriedades.
A definição e a demonstração diferem apenas por uma disposição gramatical, segundo o filósofo nos Analíticos Posteriores.
A Causa verdadeiramente primeira é o princípio interior no qual Deus criou o céu e a terra, e não o Deus correlativo às criaturas enquanto Causa exterior.
A quididade em Aristóteles e em Averróis constituía a causa primeira do ponto de vista lógico enquanto definição, e a causa primeira do ponto de vista físico enquanto forma que responde à pergunta sobre o porquê de o composto ser o que é.
Aristóteles buscava reconduzir o exame lógico da quididade—ideia à busca física da quididade—forma substancial, opondo—se ao conhecimento platônico.
O mestre
Eckhart seguiu a direção contrária após encontrar em Averróis a noção de quididade como causa formal da coisa sensível, deixando ao físico o estudo das formas concretas e determinando que o metafísico deve se ocupar das quididades abstratas que subsistem no Inteligir divino.
A causa formal propriamente dita é a Vida onde se realiza a formação da razão ou do Verbo no Intelecto, nada sendo além do inteligir.
O teólogo alemão reencontra a dialética platônica através dos textos aristotélicos, visando à realidade verdadeira e eternamente idêntica por natureza.
O nome de metafísica é reservado a essa ciência transpessoal que busca atingir o ser não de outro em suas razões eternas.