DEGHAYE, Pierre. La Naissance de Dieu ou la Doctrine de Jacob Boehme. Paris: A. Michel, 1985.
O deserto evocado é aquele onde Jesus foi tentado, conforme o relato de Mateus, no qual, após jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome e o tentador sugeriu que transformasse pedras em pão.
A resposta de Cristo foi que o ser humano não vive só de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.
A tentação de Cristo no deserto é colocada por Boehme em paralelo com a provação do deserto que Deus impôs ao seu povo por quarenta anos, para o humilhar e provar.
Em ambos os casos, o deserto é o lugar onde a fome se aguça, levantando a questão sobre qual será a sua natureza e qual pão a saciará.
A palavra que sai da boca de Deus é ela própria um pão, a maná descida do céu, e é dessa maná que se tem fome quando se deseja.
Segundo Boehme, Cristo teve fome durante todo o jejum, não apenas depois dele, recusando o pão proposto pelo diabo enquanto se nutria da maná celestial.
Dessa forma, Cristo suportou a mesma provação do deserto imposta aos israelitas, transformando os quarenta anos de Israel nos quarenta dias de Cristo.
O demônio procurou provocar em Cristo um apetite diferente, propondo um pão que não é o fruto da terra, mas o produto da magia.
Cristo foi solicitado pelos dois desejos (o de Deus e o do diabo) e voltou-se resolutamente para Deus, com a fome de Deus vencendo a fome do diabo.
Antes de vencer, Cristo sustentou um combate heróico, sendo o herói e cavaleiro que lutará contra a Morte e o diabo, com sua vitória no deserto prefigurando a vitória na cruz.
Cristo é o primeiro humano a sair vitorioso desse combate, e a provação a que foi submetido se repetirá na alma dos que vierem depois dele, tendo um valor de exemplo.
Boehme sublinha o elo entre o batismo de Cristo e a provação do deserto, sendo que o batismo de Cristo será também o dos fiéis.
A discussão é sobre o nascimento do fiel na verdadeira fé, que também sofrerá a provação do deserto após ser batizado.
Cristo, na concepção de Boehme, é o ser humano perfeito (habitado por Deus), não sendo ele próprio Deus, mas o nome Jesus que significa Deus sob o aspecto do seu amor.
O corpo glorioso de Cristo, distinto do corpo grosseiro, é a objetivação da natureza perfeita que também será dos crentes nascidos para a verdadeira vida.
Cristo é humano nos dois níveis de humanidade que Boehme distingue: o corpo terrestre (rejeitando o docetismo) e o corpo celeste, sendo essa humanidade dupla a dos crentes que terão o privilégio do segundo nascimento.
Adão, antes da queda, também tinha um corpo celeste e um corpo terrestre, que só se tornou visível após a perda do corpo de luz.
Cristo é literalmente o segundo Adão, tendo dois corpos, e o problema é qual dos dois prevalecerá, se o corpo grosseiro ou o glorioso.
A santidade não é dada de uma vez por todas, mas é o fruto de uma vocação que se conquista, e Cristo não é exceção, devendo elevar-se à santidade por meio de uma série de provações.
A tentação de Adão pelo demônio, representado pela serpente, durou todo o tempo de sua estada no paraíso, que Boehme afirma ter sido de quarenta dias.
Boehme coloca Cristo exatamente na situação do primeiro humano, causando indignação na teologia protestante da época que enfatizava a divindade de Cristo.
Cristo é uma criatura, assim como Adão, pois se ele fosse Deus, como poderia Deus ser tentado?
Cristo tem os dois corpos do humano (um mortal e outro que é o templo de Deus), com a alma humana sendo o lugar onde coexistem essas duas naturezas.
Quando Boehme fala da humanidade de Cristo, pensa principalmente na alma humana com a qual o filho de Maria nasceu, uma alma sensível como a nossa.
Como todo ser humano, Cristo deve se realizar assumindo as provações que lhe são impostas, sendo o primeiro de todos os cavaleiros cuja fronte será cingida pela coroa do vencedor.
Os combates acontecem no inferno, que está na raiz de toda alma humana, e ao revestir a alma humana, Cristo se preparou para descer ao inferno, ficando votado ao combate heroico.
A primeira prova é a tentação no deserto, que prefigura a Paixão e a morte de Cristo, correspondendo à única prova sofrida por Adão, mas de maneira negativa.
Adão deveria gerar um filho à sua semelhança segundo sua natureza celeste antes de Eva nascer, por um modo espiritual de geração (nascimento sem ruptura).
O anjo que teria saído de Adão, se ele tivesse suportado vitoriosamente a provação dos quarenta dias, nascerá como fruto da alma humana regenerada (o humano novo).
Esse humano novo será Cristo, cujo nascimento é duplo: físico (de uma verdadeira mulher) e espiritual (engendrado pela Sabedoria que estabeleceu seu trono em Maria).
A carreira de Cristo, o segundo Adão, é exemplar para todos os humanos vindouros, mas com uma diferença: Adão e Cristo nascem com os dois corpos simultaneamente, enquanto os outros nascerão primeiro com o corpo terrestre e depois com o celeste (segundo nascimento).
Embora nascido da Sabedoria no momento de seu primeiro nascimento, Cristo precisa percorrer uma carreira na perspectiva de um segundo nascimento para ser exemplar.
Toda vida criada deve se recriar para se tornar uma vida imperecível, e é em Cristo que Adão renasce, com a verdadeira segunda nascimento de Cristo sendo a sua ressurreição.
A alma compreende o céu e o inferno; a geena está na raiz da alma, e nascemos todos no inferno, só nos incorporando ao céu quando nascemos de novo.
Cristo nasce no inferno (o seio de Maria é o inferno?), pois há duas mães em Maria: a Sabedoria (matriz de água viva, céu escondido sob a carne mortal) e a mãe mortal (matriz de carne vil).
O encontro com o diabo não se produz apenas no deserto, mas é o fato primordial da carreira terrestre de Cristo, presente no fundo de sua alma humana, onde o combate se trava.
A aposta desse combate é um segundo nascimento: a alma humana de Cristo deve se transformar para se tornar o corpo do Espírito.
A provação do deserto está na perspectiva de um segundo nascimento, sendo o combate heroico contra o princípio do mal, e Cristo triunfará.
Para que Cristo vença, é necessário que Deus aja nele pela virtude infundida no seu batismo, sendo por isso que a provação do deserto e o batismo nas águas do Jordão devem ser considerados juntos.
O batismo de água recebido por Cristo é um ato de obediência com eficácia real, apresentando-se como o batismo de arrependimento (dado por João) que lava a alma de suas impurezas.
Ao revestir a alma humana, Cristo se carregou de todo o pecado em sua universalidade, tornando-se plenamente culpado e assumindo o pecado do mundo.
O batismo do Jordão é exemplar, mas o verdadeiro banho de regeneração não será o batismo material administrado pelos padres.
O batismo de Cristo é também o batismo de Espírito e de fogo (como o de Pentecostes), sendo um só e mesmo batismo que purifica e dá o Espírito de Deus.
É pelo dom do Espírito que Cristo se torna um soldado, ganhando a força e a coragem para assumir as provações, força que está na doçura da água.
A água do batismo é o elemento primordial, a substância perfeita habitada pela Sabedoria, que é o céu e que se chamará carne de Cristo.
Pela virtude do batismo, Cristo é engendrado uma segunda vez, nascendo do alto ao sair das águas do Jordão, mas esse segundo nascimento só se aperfeiçoará nas provações.
O batismo de Cristo não dá apenas a força, mas desperta o desejo, pois Deus dispensa a substância apenas para fazê-la desejar, e o nascimento do desejo é o da verdadeira fé.
A força de Cristo está no seu desejo, que precisou lhe ser dado por Deus, e essa é a razão profunda pela qual Cristo devia ser batizado.
Na origem do primeiro mundo (o da natureza eterna), a vontade divina se converte em desejo, e o ciclo septiforme pelo qual se constitui a alma eterna é todo ele o ciclo do desejo.
O ciclo septiforme comporta duas fases (tenebrosa e luminosa) correspondentes a dois desejos: o primeiro é um fogo negro e atormentado (voracidade que se exaspera), o segundo é uma chama clara e tranquila (desejo eternamente saciado).
O primeiro desejo é um fogo que não se acende (símbolo do desejo jamais saciado), e a luz que irradia na segunda fase é uma chama que não se apaga (desejo eternamente saciado).
O fogo da primeira fase é o do inferno, expressão da cólera divina, enquanto a luz da segunda fase é sinônimo de amor, sucedendo-lhe o desejo de amor.
É na água que nasce a luz, e a doçura da água primordial (óleo) vence a violência do fogo devorador, dando-lhe um corpo no qual ele irradia com o esplendor da luz.
Pela água do batismo, o desejo (fogo devorador) muda de natureza, tornando-se substancial e fixando-se num corpo radiante (o corpo do desejo, que no humano será o corpo da fé).
O desejo de amor será a fé dos fiéis que se encarnará na carne celestial (pão dos anjos), sendo o fim de toda vida espiritual essa encarnação da fé.
O ciclo da natureza eterna se repete nas almas humanas: ou ele vai até o termo (alma realizada no desejo de amor, comendo o pão dos anjos) ou o humano retrocede (inferno se fecha e o engole).
A alma que mergulha no seu fundo tenebroso será eternamente torturada por um desejo que nunca se fixará numa verdadeira substância (fome do diabo).
No quarto grau do ciclo septiforme, a alma está entre dois desejos e deve escolher, sendo essa a escolha que se impõe a Cristo no deserto.
A graça do batismo deu a Cristo o gosto do pão celestial, despertando nele o desejo de amor, e após a provação do deserto, ele comerá eternamente desse pão.
O deserto é o lugar onde se desenrola o confronto entre os dois desejos na alma humana de Cristo, sendo ao mesmo tempo um lugar de desolação e de provação salutar.
A conversão do desejo no ciclo primordial (o fogo se converte em luz) significa que a um primeiro desejo (fogo devorador) sucede outro que se encarna num corpo de luz.
Com a luz, é a verdadeira vida que jorra, e nascer para a verdadeira vida é primeiro morrer, pois é da morte que nascerá a vida.
O fogo que morre é o primeiro desejo (violência que subitamente cessa quando está no paroxismo), e no lugar do fogo negro aparece a luz com um outro desejo: o desejo de amor.
Na criatura, o primeiro desejo é a vontade própria (que não se nutre senão de si mesma, sempre discordante em relação às outras), que não pode encarnar numa verdadeira substância.
Para que a criatura se realize, é preciso que a sua vontade própria se negue e se abandone totalmente a uma outra vontade (a da vida universal no nível do Espírito).
A criatura que quer existir apenas para si mesma nunca acederá ao ser substancial, e na linguagem da teologia mística alemã, esse abandono se traduz pela palavra Gelassenheit.
A solidão do deserto é para Cristo o estado de total renúncia, negando toda vontade própria para entrar na vontade de Deus e abandonando-se plenamente a Deus.
O deserto é um lugar da alma que designa um estado em um dado momento do devir espiritual, sendo a vida de Cristo o modelo para os humanos.
Se Cristo tivesse seguido as sugestões do demônio, teria mudado as pedras em pão pelo produto da sua vontade própria, um pão amaldiçoado.
Para Boehme (remetendo a Paracelso), o ser humano pode tudo fazer pela virtude da sua imaginação, poder que se exerce para o melhor e para o pior.
Na concepção do teósofo, a imaginação, o desejo e a fé são uma só e mesma coisa.
Os pensamentos humanos engendram uma realidade, boa ou má, e Deus mesmo cria nos seus pensamentos e por eles, produzindo imagens que não são simples reflexos, mas a própria realidade.
O ser humano cria uma realidade que ele imagina pela força do seu desejo que é a sua fé, podendo até mover montanhas, mas a fé que não obedece à vontade de Deus é má.
Pelo seu desejo de amor, Cristo se tornou capaz de comunicar a maná de que se nutriu no deserto, e o pão que ele produz é para se oferecer como dom de si.
Cristo é o modelo de todo ser humano que deve nascer do alto, sendo ele próprio o sujeito desse segundo nascimento do qual fala o Evangelho de João.
O privilégio do novo nascimento não é gratuito, mas o fruto da fé que se encarna num corpo novo, e Deus só dá essa fé provando.
A penitência de Cristo começa no seu batismo de arrependimento e se continua no deserto, sendo pela penitência que a criatura será justificada.
A justificação não é uma simples declaração (como se fossemos redimidos sem nos transformarmos), mas exige a transformação radical e substancial do ser.
A verdadeira fome de Deus é o desejo de um bem que já se recebeu como dom, para que se lhe guarde o sabor, e a graça é verdadeiramente uma substância que nos incorporamos.
Cristo, mesmo tendo nascido humano divino pela Sabedoria no seio de Maria, deve se tornar verdadeiramente esse humano divino por meio de um novo nascimento (sua verdadeira encarnação numa carne espiritual).
Cristo se encarna primeira vez na matriz de água viva (morada da Sabedoria em Maria), e uma segunda vez num corpo glorioso, tornando-se definitivamente o templo de Deus.
A Sabedoria deixou Adão porque ele não assumiu a provação dos quarenta dias, mas ela permanecerá eternamente unida a Cristo.
Para o demônio, ser Filho de Deus é ser Deus e exercer um poder ilimitado, mas para Cristo, ser Filho de Deus é ser criança de Deus e fazer a oblação da sua pessoa.
O sacrifício de Cristo se consuma no deserto e será consagrado na cruz, consolidando-se no trono abandonado por Lúcifer e que Adão não pôde manter.