Livro 1 (1 a 30)

I, 001: O que é fino permanece.

PURA como o ouro mais fino, firme como uma rocha,

límpida como cristal deve ser a tua alma.

I, 002: A morada da quietude eterna.

QUE outro se mortifique por seu sepulcro

e consagre aos seus vermes o edifício orgulhoso.

Eu não me preocupo com isso: meu túmulo, meu zelo e caixão,

no qual repousarei eternamente, deve ser o coração de Jesus.

I, 003: Só Deus pode dar satisfação

FORA, fora, serafins, não podeis vós apagar a minha sede;

fora, fora, santos, e o que em vós resplandece;

de vós nada quero: apenas me lanço

ao mar increado da mera divindade.

I, 004: Deve-se ser inteiramente divino.

SENHOR, não me basta servir-te como anjo

e verdejar diante de ti na perfeição divina:

é demasiado vil para mim e exíguo para o meu espírito:

quem quer servir-te retamente deve ser mais do que divino.

I, 005: Não se sabe o que se é.

NÃO sei o que sou, não sou o que sei:

uma coisa e não uma coisa; um ponto e um círculo.

I, 006: Deves ser o que Deus é.

SE devo encontrar o meu último fim e o meu primeiro princípio,

devo aprofundar-me em Deus, e a Deus em mim,

e tornar-me o que Ele é: devo ser brilho no brilho,

Verbo no Verbo, (a) Deus em Deus.

(a) Tauler, Instit. Espir. c. 39.

I, 007: É preciso ainda ultrapassar Deus.

ONDE está a minha morada? Onde tu e eu não estamos.

Onde está o meu último fim, para o qual devo encaminhar-me?

Ali onde não há nenhum. Para onde devo então ir?

Devo marchar ainda (b) além de Deus, em direção a um deserto.

(b) isto é, além do que se conhece em Deus, ou do que se pode pensar d’Ele, segundo a contemplação negativa, sobre a qual cf. os místicos.

I, 008: Deus não vive sem mim.

SEI que sem mim Deus não pode viver um instante;

*) se eu for aniquilado, Ele deve necessariamente expirar.

*) cf. o prólogo.

I, 009: Eu o tenho de Deus, e Deus de mim.

QUE Deus seja e viva tão venturoso, sem desejo,

tanto Ele o recebeu de mim quanto eu d’Ele.

I, 010: Eu sou como Deus, e Deus como eu

SOU tão grande quanto Deus: Ele é tão pequeno quanto eu;

Ele não pode estar acima de mim, nem eu abaixo d’Ele.

I, 011: Deus está em mim, e eu n’Ele.

DEUS é em mim o fogo, e eu n’Ele o brilho:

não somos intimamente comuns um ao outro?

I, 012: É preciso lançar-se mais além.

HOMEM, se lançares o teu espírito para além do tempo e do lugar,

podes estar na eternidade a cada instante.

I, 013: O homem é eternidade.

EU mesmo sou eternidade, quando abandono o tempo

e me recolho em Deus, e a Deus em mim.

I, 014: Um cristão tão rico quanto Deus.

SOU tão rico quanto Deus, não pode haver grão de pó

que (crê-me, homem) eu não tenha em comum com Ele.

I, 015: A Sobre-divindade.

O que se disse de Deus ainda não me basta:

a Sobre-divindade é a minha vida e a minha luz.

I, 016: O amor obriga a Deus.

SE Deus não quiser levar-me para além de Deus,

eu o obrigarei com puro amor.

(a) Ver n.º 7.

I, 017: Um cristão é filho de Deus.

EU também sou filho de Deus; Ele me tem em suas mãos:

seu espírito, sua carne e seu sangue são conhecidos n’Ele em mim.

I, 018: Eu me igualo a Deus.

DEUS me ama acima de si: se eu o amo acima de mim,

dou-lhe tanto quanto Ele me dá de si.

I, 019: O silêncio bem-aventurado.

QUÃO bem-aventurado é o homem que não quer nem sabe!

*) que não dá a Deus (compreende-me bem) nem elogio nem louvor.

$1)

quanto mais procuras agarrá-lo, mais Ele se subtrai a ti.

$1)

*) isto é, entregar corpo e alma ao mais extremo perecimento por amor de Deus: como se ofereceram Moisés e Paulo, e muitos outros santos.

I, 029: A morte eterna.

A morte da qual não floresce uma nova vida

é aquela que a minha alma foge entre todas as mortes.

I, 030: Não há morte.

NÃO creio na morte: se morro a cada hora,

encontro a cada vez uma vida melhor.