PÉROLA EVANGÉLICA

VIDAL, Daniel (org.). La perle évangélique: traduction française, 1602 [trésor incomparable de la sapience divine]. Tradução: Nicolaus Eschius; Tradução: Richard Beaucousin. Grenoble: J. Millon, 1997.

A Pérola evangélica é um texto flamengo “escrito pela mão de uma mulher”, provavelmente uma beguina ainda desconhecida na região de Brabante. Foi publicado em 1535 por iniciativa de Thierry Loher, cartuxo de Colônia. Outro cartuxo, L. Surius, fez a tradução para o latim em 1545. Finalmente, os cartuxos de Paris fizeram a tradução francesa em 1602, reeditada aqui. Não podemos deixar de nos congratular por isso. Com efeito, este escrito é herdeiro dos místicos flamengos, thiois e alemães, e mergulha imediatamente no coração do encontro entre Deus e o ser humano — onde as fronteiras entre eles se tornam indistintas.

Esta obra é capital, duplamente. A Pérola é herdeira de todos os místicos que se decidiram, ao longo dos séculos, em países flamengos e alemãs. Herança literal, filiação conceitual. Mas ela descreve menos uma progressão de fé, do que se coloca de pronto no ponto de realização do percurso, onde a íntima fusão da criatura e de Deus torna indecidível a partilha das águas, o fiel inteiramente deiforme, e seu Deus imerso inteiramente em sua criação. A Pérola se dispõe assim rapidamente neste foro de toda demanda mística, em sua razão, seu ato essencial. Ela se entende desde então como exasperação espetacular dos místicos precedentes, sua súbita imposição como textos dispersos vindo a convergência, e moldagem de seu sentido em um enunciado emblemático.

Daí sua força de penetração no tecido cultural europeu. Sua tradução francesa, na aurora do século XVII, vai irrigar todas as redes e todas as escolas místicas do «século dos santos», da mística abstrata de Bento de Canfield, às realizações quietistas do puro amor. A Pérola tece um argumento de cumplicidade de extremo a outro do século, que permite ler Bérulle em já entendendo Francisco de Sales, e de escutar as principais lições de Madame de Guyon em guardando lembrança de Jeanne de Chantal. Pois o dito da Pérola atravessa em uma única audácia de sentido e de indisciplina o conjunto dos lugares onde a criatura deve purgar suas paixões e se expandir na luz de seu deus.