Análise da Experiência Mística e do Estado Teopático em São João da Cruz
Questão fundamental sobre origem da experiência mística
Interrogação sobre se é Deus quem desperta alma ou se é alma, após longo percurso, que desperta Deus.
Referência à alma intrépida de Subida do Monte Carmelo, que sai sem ser percebida e heroicamente se autodestrói.
Iluminação provém apenas da luz que ardia em seu coração, conforme estrofe de Noite Escura.
Processo de purificação e criação de novo ser
Sacrifício de noções, desejos, sentimentos e de supostas linguagens divinas de visões ou revelações.
Força declarada divina assume domínio único quando alma crê tornar-se, de algum modo, Deus.
Purificação gera ser novo, denominado por João da Cruz como Filho de Deus ou espírito saído dos limites estreitos da operação natural.
Natureza do amor divino e da graça mística
Investigação sobre origem do olhar de Deus, que é amor, e da graça mística que não abandona alma deificada.
Questionamento se amor veemente que leva alma para além de si é efeito de chamado divino ou se atividade interna individual é origem humilde de movimento configurado ao universo.
Rejeição na Fé e afirmação de Deus
Rejeição de coisas, seres, sensações e memórias no abismo da Fé pura interpretada como afirmação de Deus, fora do qual tudo seria aparência.
Movimento da alma recolhida na noite ocorre dentro de Deus sem limites, emanando dEle e a Ele retornando, permanecendo como movimento da alma.
Diálogo com filosofia: Leibniz e Spinoza
Citação de Leibniz sobre Spinoza: teria razão se não houvesse mônadas, pois então tudo fora de Deus seria passageiro, desvanecendo-se em acidentes ou modificações.
Reflexão sobre como, sem mônadas, faltaria base da substância nas coisas.
Dificuldade de discernimento entre lirismo, simbolismo e experiência
Em místico como João da Cruz, impregnado de simbolismo e lirismo, desafio de discernir onde terminam esses elementos.
Em Noite, alma narra seu destino, une-se a Deus na noite e, no ápice do estado teopático, ancora atinge-O apenas pela Fé.
Alma, ao libertar-se de obstáculos, torna-se ampla como o próprio Deus.
Dinâmica entre regeneração divina e iniciativa da alma
Alma atinge Deus porque Ele a regenera, mas também atrai Seu olhar ao despojar-se de tudo.
Recusa a sentir Deus até que ela própria se torne Deus.
Universalização do ser entendida como autocreração, descoberta crescente de cavernas interiores e de sua imensa capacidade.
Despertar de Deus na substância da alma
Citação de Chama: Quão manso e amoroso / Recordas em meu seio, / Onde secretamente só moras.
Deus nunca abandonou alma, pois está em nós mesmos.
Alma definida como força ansiosa e fervorosa, reduzida ao ritmo do não-saber, que finalmente dá Deus a Deus mesmo.
Subida do Monte Carmelo, se completada, mostraria mais claramente triunfo heroico desta intrépide endiosada.
Envolve colocação em presença de duas atividades: transformação da alma por Deus e, de certo modo, transformação de Deus pela alma.
Caracterizado por alma sem limite e Deus sem fronteiras.
Quando místico atinge essa pureza noética, separa-se do psiquismo naturalista e aproxima-se do idealismo intelectualista, onde espírito é consciência como princípio de conhecimento adequado ao universo.
Síntese doutrinária na experiência joanina
Alma despojada e Deus sem modo combinam-se com alma tocada pela graça mística e com Deus trinitário do cristianismo teológico.
Experiência molda-se ora no ritmo dionisiano, ora no ritmo quente e concreto do cristianismo joanino.
Síntese é mais vivente nele devido à união de intenso amor por Deus Trino com adesão pura à Divindade essencial, à Deidade e ao Uno.
Distinção entre Deus na Noite e Deus no estado teopático
Deus na Noite está além de toda apreensão distinta, é Deus sem modo para o qual alma anseia tornar-se sem modo.
Deus alcançado no estado teopático é Deus que opera, age, cujos atributos infinitamente infinitos são, de certo modo, vida da alma.
Chama interrompe-se quando João da Cruz experimenta em si mesmo a aspiração do Espírito, no sentido teológico e no conhecimento da Deidade.
Caráter fundamental da mística joanina: penetração na Trindade e conhecimento da Deidade
Sistema místico é rigorosamente metafísico e constitui retorno ao Uno: retorno da alma e, na medida em que doutrina concerne à natureza em si, retorno das coisas em Deus.
Pureza de linha que evoca construção plotiniana, não redutível apenas a elementos técnicos do Pseudo-Dionísio.
Analogias com o pensamento plotiniano
Contemplação do Uno em Plotin exige despojamento de tudo que separa e libertação de toda forma, ecoando ritmo da Subida.
Prece a Deus como avançar solitário para o Uno, que é só, ressoa na música da solidão do Cântico e da Chama.
Sobra abundância na eternidade plotiniana, qualidade de ser sempre o que é, analogia com vida divina em nós comparada ao mar por João da Cruz.
Pensamento verdadeiro fora do tempo, na eternidade, e negação da memória na contemplação, ecoando negação das memórias empíricas realizada pela esperança em João da Cruz.
Diferença essencial entre êxtase plotiniano e experiência joanina
União extática plotiniana produz felicidade estética, alegria amorosa, exaltação na solidão, também presentes em João da Cruz.
Porém, Plotin não experimentou combinação íntima e direta de vida humana e vida divina, inserção de atividade humana deificada dentro do Ser divino.
Falta em Plotin o encontro violento e fulgurante, não doce e crepuscular, entre amor divino e amor humano.
Permanência da cultura escolástica e orientação para estados paroxísticos
Cultura escolástica e reflexão sobre distinção entre potência e ato combinam-se com aspiração imensa ao desabrochar do ser íntimo.
Conduziu lirismo e mística a estados paroxísticos, mas onde, em definitivo, é alma que irradia e triunfa.
Interpenetração de Deus e alma radiante é menos acentuada em místicos germânico-flamengos como Eckhart ou Suso.
João da Cruz aproxima-se profundamente de Santa Teresa na afirmação da grandeza da alma.
Problema metafísico último: alma sozinha frente a Deus sozinho
Citação de Leibniz sobre pensamento teresiano: alma deve pensar como se só existissem Deus e ela no mundo, ideia que reflete independência e extensão da alma.
Misticismo reduzido a seu fundamento coloca uma alma só diante de um Deus só.
Liberdade do espírito, solidão, despojamento traduzem ampliação do pensamento e despregamento total da natureza.
Transição da negação amarga para a vida teopática
Alma deificada rejeitou visões, revelações, sentimentos de presença, expressando pela noite rejeição de tudo que homens chamam de Deus.
Vida teopática sucede a negação amarga, invalidando objeções usuais sobre confusão entre dados afetivos e cognitivos ou entre Deus humanizado e Deus sem modo.
Chama e Cântico conduzem a intuição do universo e esforço para penetrar, via alma deificada, Deus alcançado dentro de seus atributos infinitos.
Estado teopático como pensamento, não apenas estado
Experiência mística de qualidade rara e irredutível não pode servir para julgar misticismo em geral.
Em seu grau mais elevado, superados distúrbios corporais e vencida preguiça intelectual, vida que desabrocha resulta não apenas em estado, mas em pensamento.
Psicologia contemporânea destaca traços permanentes do estado teopático: criação subconsciente de automatismo divino, apropriação de funções por consciência transfigurada, perfeita adaptação às exigências da ação.
Em místicos de desenvolvimento interno completo, observa-se extraordinária vitória da serenidade e da alegria conquistadora.
Diferenças no estado teopático: João da Cruz e Santa Teresa
Estado teopático de Santa Teresa, marcado pelo matrimônio espiritual, difere do de João da Cruz.
Em Teresa, visão imaginária precede imediatamente o novo estado; sua vida teopática não foi preparada pela severa eliminação de tudo que não é Deus.
Experiência teresiana não conduz ao Deus pensado em relação essencial com mundo e na profundidade crescente da Deidade, como em João da Cruz.
Desabrochar na ação tem significado diferente: em João da Cruz, ação e contemplação alimentam sonho de solidão metafísica e alegria noética.
Estado teopático tem valor noético, não apenas valor experiencial.
É experiência ou conhecimento constantemente móveis, que levam cada vez mais fundo nas profundezas divinas.
Estado que se explicita em infinidade de novas modalidades, sem regressão a paroxismos extáticos ou torpores letárgicos.
Purificação exaustiva atinge apetites, afetos, sentidos, potências, estabelecendo acordo entre substância e tudo que dela emana, incluindo o corpo.
Consciência de ser Deus e percepção da divindade na vida cotidiana
Problema delicado sobre permanência da consciência de ser, de algum modo, Deus.
Parece que tudo que é pensamento, vida onírica, atividade criadora aparece a João da Cruz como divino.
Quando vida teopática se expressa e analisa a si mesma, percebe-se como divina.
Desafio de comparar experiências teopáticas em diversas tradições místicas
Trabalho imenso para comparar estado teopático em místicos especulativos católicos, protestantes, esotéricos como Böhme, sufis, textos hindus e mística chinesa.
Busca verificar se estado teopático aparece constantemente como síntese final, com múltiplas modalidades de ordem panteística.
Experiência mística só pareceria homogênea se fosse banal ou se falhássemos em apreendê-la.
É necessário ir além da fenomenologia para uma espécie de divinação das diferenças individuais.
Originalidade da experiência e dificuldade de acesso à intuição criadora
Experiência mística raramente é inteiramente original, muitas vezes guiada por modelos conscientes ou subconscientes.
Disciplo de João da Cruz que compreende estrofes como resumo de estados experimentados não reconquista necessariamente experiência inicial.
Eficácia de uma doutrina é distinta do esforço talvez desesperado para recuperar uma intuição criadora.
Análise de místicos só nos enriquecerá espiritualmente se descobrirmos, além da monotonia de esquemas e imagens, uma relação única com o universo.
Não apenas cantou e analisou encontro de Deus e Alma sós.
Coisas, inicialmente rejeitadas pela negação da noite, reabsorvem-se na alma, são descobertas em Deus e amadas apaixonadamente em sua grandeza.
Deus em quem João da Cruz reencontra mundo é alcançado além das coisas e imagens, em centro interior onde Ele permanece.
Triunfo da noção sobre a imagem: noção de Deus, não das coisas; coisas só revivem quando conhecidas em Deus.
Volúpia do conhecer e natureza noética da alegria teopática
Mistério de João da Cruz talvez revele volúpia do conhecer.
Momentos na Chama onde comunicação divina é pura inteligência, quase sem mistura de amor, ainda imperfeitos.
No estado teopático, tais momentos desvanecem-se em alegria total, que será, ela mesma, uma alegria noética.
Vida teopática conduz a nova percepção das coisas, penetração em Deus da essência do mundo, experiência dos atributos infinitos, conhecimento da Deidade.
Obra de João da Cruz como sistema, experiência e drama interior
Obra descreve viagem de uma alma e marcha dialética de um pensamento.
Doutrina vive como ser, completa-se e nos capta.
Vontade que exige ir além de tudo perceptível e distinto, e alegria que prolonga quando espírito entra em Deus sem limite e reencontra universo, narram drama interior.
Drama desenrola-se no mais profundo do eu, longe de qualquer dado social, em solidão e silêncio onde mundo dos fenômenos é transcendido.
Busca do segredo místico e problema do universo
Dificuldade trágica: tal solidão e silêncio são inacessíveis para quem não os experimentou, e tê-los sentido não descobre explicação racional que exigem.
Não é proibido transpor, através do ritmo do esforço metafísico, a amarga purificação do espírito.