Continuidade da Análise do Estado Teopático e de sua Expressão no "Cântico" e na "Chama"
Êxtase lírica e descoberta cósmica como conteúdo do estado teopático incipiente.
Nas estrofes extáticas que seguem ao voo do espírito, a alma compreende que seu Amado é, em si e para ela, todas as coisas, ecoando a exclamação de São Francisco: meu Deus e todas as coisas.
O conteúdo dessas estrofes não é mera semelhança, mas a explicitação da própria experiência extática, onde a natureza em seus aspectos soberanos e significado profundo se desdobra.
Declaração explícita de que tudo enumerado nos versos está em Deus eminentemente e de maneira infinita, sendo cada perfeição citada Deus, e todas juntas, Deus.
A alma, unida a Deus, sente que Deus é todas as coisas em um ser simples, não como se visse as coisas na luz, mas numa posse onde todas as coisas lhe são Deus.
Alargamento recíproco: de Deus, que se revela nas belezas amplas da natureza, e das coisas, que aparecem em correspondência com Deus, formando uma harmonia de música altíssima, uma música silenciosa e solidão sonora.
Caráter de êxtase lírica desta intuição, desvinculada de dados teológicos imediatos, onde um Deus sem visão e uma natureza em sua substância se reúnem, constituindo conteúdo ideológico de extraordinária grandeza.
Transição para o estado teopático propriamente dito e dificuldades de estrutura no Cântico.
O estado teopático se instaura imediatamente após a êxtase das grandezas divinas.
Incoerências no plano do Cântico: o texto B interpola estrofes de súplica antes da purificação final; no texto A, há sobreposição entre a descrição dos esponsais e do matrimônio espiritual.
Essas lacunas ou desordens não diminuem a força da descrição do estado teopático em si, embora impeçam uma orientação tão firme quanto a que a Noite Escura inacabada poderia ter fornecido.
Significação teórica do estado teopático: da renúncia à adesão em Deus.
Após renunciar a todo sentimento de presença e a toda apreensão distinta, a alma agora adere a um Deus do qual se sente penetrada.
Base desta certeza: uma experiência claramente extática, mas que é considerada válida porque o plano fenomênico é julgado superado.
A convicção interna, fortalecida por exemplos como São Paulo e São Francisco, leva João da Cruz a repelir a transe em si, vista como miséria, em favor da comunicação espiritual permanente que dela emana.
Primeira fase desta persuasão: a descoberta cósmica, síntese onde Deus e o universo são dados simultaneamente.
Introversão rigorosa e transformação interior subsequente à descoberta cósmica.
A alma volta-se para si, pressente sua própria grandeza e descobre em si as mesmas belezas antes vistas em Deus.
Uma força permanente se exprime: a alma se iguala com Deus por amor.
Surgimento de uma tranquilidade e suavidade ordinária que nunca abandonam a alma, uma alegria essencial que funda a certeza teopática.
Combinação, também observada por Santa Teresa, de uma paz profunda e fundamental com eventuais provações superficiais das potências.
Consolidação do estado: esquecimento, solidão metafísica e doação total.
Realização do esquecimento e alienação de todas as coisas do mundo e da mortificação de todos os apetites e gostos, cumprindo a exigência inicial da Subida.
Criação da Solidão espiritual: noção aprofundada que implica dobrar-se sobre si, ausência de investigação alheia e, sobretudo, desapego de si mesmo e de suas funções.
No estado teopático, a solidão se torna metafísica: o espírito, na contemplação, está em solidão de todas as coisas… só aceita em si solidão em Deus.
O matrimônio espiritual significa a união de um Deus só e de uma alma só, sem intermediários.
Esta solidão é preparada por uma doação total do ser: potências, sentidos e corpo são tratados segundo Deus, orientados para Ele até nos primeiros movimentos, muitas vezes sem a advertência consciente da alma.
Estado de automatismo divino resumido no verso Já não guardo rebanho, significando que a alma não mais segue seus gostos e apetites, pois os depositou em Deus.
Reação do mundo e problema do olhar divino: a fundação do amor salvífico.
A evasão da alma para a vida divina provoca incompreensão e hostilidade no mundo, expressa numa estrofe amarga.
Fundamento último de tudo: o olhar divino inicial. Deus só ama a alma que olha, e só olha verdadeiramente para a alma que está nele.
Implicação radical: só o estado teopático implica o olhar e amor mútuos entre Deus e a alma em sentido pleno.
Esta intuição parece fundir o drama do mistério cristão e do problema da salvação em um ritmo íntimo, sugerindo que nem a inserção eclesial comum, nem a oração média são suficientes para atrair o olhar salvífico de Deus.
Consumação do estado: beleza, sofrimento cristão e penetração trinitária.
A alma atinge um desejo supremo: a comunicação essencial da Divindade por um contato de substâncias nuas – a alma e a Divindade.
Identificação na Beleza: o severo caminho de negação revela-se como preparação para uma absorção na beleza, onde a alma e Deus se veem mutuamente na beleza divina, numa fusão lírica de inspiração neoplatônica.
Esta gênese divina, porém, só é viável se prolongar um desejo íntimo do sofrimento cristão: penetrar na espessura da Cruz é condição para penetrar na espessura divina.
O estado teopático se liga intimamente à contemplação do Mistério da Encarnação e conduz à persuasão de estar no centro da Trindé, operando nela por modo participado.
O estado é dinâmico, aprofundado por uma transformação de novas noções e pela unificação da vontade humana com a divina, amando Deus com a vontade do próprio Deus.
A alma experimenta uma jubilação íntima e substantiva para Deus, onde toda a sua substância, banhada em glória, louva a Deus.
Conhecimento das coisas em Deus e síntese final do ritmo da noite.
A descoberta extática inicial, que mostrava todas as coisas em Deus, é agora completada por um conhecimento contemplativo onde a alma conhece em Deus o princípio e a duração das coisas e aprecia o encanto do bosque, a ordem e correspondência entre as criaturas.
Síntese harmoniosa: a negação radical da noite, que parecia rejeitar o mundo, revela-se como condição para alcançar a natureza em sua substância, purgada dos acidentes, e para uma absorção do múltiplo no Uno, numa síntese lírico-mística de ritmo plotiniano e aspiração tomista ao universal.
A Chama Viva de Amor: ato e qualificação do estado teopático.
A Chama não é mero prolongamento linear do Cântico; cada tratado de João da Cruz resume toda a vida mística de um ponto de vista novo.
Objeto da Chama: o ato do estado teopático, a chama de amor que emana do hábito da transformação, assim como a chama emana do lenho em brasa.
Aspira a explicitar como o estado de transformação se substantifica, aderindo à vida teopática substantiva para além da fenomenologia.
Técnica do centro profundo da alma e anseio pela dissolução final.
Uso dos termos fondo (fundo) e centro, possivelmente ecoando técnicas pós-eckhartianas, mas fundidos numa experiência vivida.
Definição do centro mais profundo da alma como Deus mesmo, alcançado quando a alma esgota toda a capacidade de seu ser e força de sua operação.
Graus de amor correspondem a centros mais ou menos profundos de imersão em Deus.
A alma, já divinizada, anseia pela ruptura da teia que une espírito e carne, desejando a morte natural não como fuga, mas como consumação, agora que vive em harmonia com Deus e que sua vontade está unificada com a divina.
Transmutação da morte em vida e toque substantivo divino.
O anseio é superado pela percepção de que a ação divina já trocou a morte em vida.
O contato divino é descrito como queimadura suave, ferida inebriante, toque delicado, um toque de substâncias (da substância de Deus na substância da alma) que sabe a vida eterna.
Este toque pode, excepcionalmente, manifestar-se sensivelmente (como os estigmas de São Francisco), mas seu valor maior permanece no plano puramente espiritual.
Vida total e operações divinas na alma transformada.
A alma vive agora a vida de Deus; suas potências e operações, antes operações de morte, se transformam em funções divinas.
Seu entendimento, vontade, memória e sensibilidade são, por participação, entendimento, vontade, memória e sensibilidade de Deus.
A substância da alma, unida e absorvida em Deus, é Deus por participação de Deus, sem se converter na substância divina.
União noética e comunicação dos atributos infinitos divinos.
Comentário metafísico sobre os atributos divinos (lâmpadas de fogo): Deus se comunica segundo todos os seus atributos infinitos, muitos dos quais desconhecidos, mostrando-se como uma multiplicidade na unidade.
A alma, iluminada dentro dos esplendores de Deus, vê em uma só vista o que Deus é em si e nas criaturas.
As profundas cavernas do sentido, outrora vazias e em pena infinita, são preenchidas por esses esplendores.
A alma, sombra de Deus pela transformação substantiva, faz em Deus por Deus o que Ele faz nela, chegando ao ápice de dar Deus a Deus, experiência de deleite inestimável e de amor recíproco livre.
Despertar e aspiração divina final: o inefável conhecimento da Deidade.
Última fase: um despertar de Deus na substância da alma e uma aspiração de Deus na alma.
No despertar, a alma conhece as criaturas melhor no Ser divino que em si mesmas, é a grande alegria… conhecer por Deus as criaturas e não Deus pelas criaturas.
Este despertar é totalmente indizível, comunicação da excelência de Deus na substância.
A aspiração do Espírito Santo nos profundos de Deus é algo sobre o qual João da Cruz se recusa a falar, para não diminui-lo.
O termo Deidade (Deidad) aparece aqui, sugerindo um acesso à essência divina além das Pessoas, ponto extremo e inefável de sua experiência metafísica.